segunda-feira, 28 de maio de 2018

Artigo, Fábio Jacques - A Lei de Gerson. Uma questão cultural ?

Dia sim, dia não, recebo alguma mensagem discorrendo sobre as origens e causas dos problemas do Brasil. Sempre aparece alguém atribuindo nossas mazelas à cultura do povo brasileiro, ao seu jeitinho de ser e à única lei universalmente aceita e acatada no país: A lei de Gerson.
Nossos problemas somente serão resolvidos através da educação do povo que é, em princípio, responsável pelos desmandos que assolam o país. Ou seja, daqui a quinhentos anos. Aliás, muito dos problemas são atribuídos às nossas origens e à colonização lusitana como se nenhuma outra cultura tivesse sido anexada ao caldo cultural pentacentenário.
Mas o que faz, por exemplo, um alemão zelar tanto pela limpeza de suas cidades? O que o faz respeitar tanto as leis de trânsito? O que o faz beber somente “ein kleines bier”, ou seja, um pequeno copo de cerveja, se tiver que dirigir depois de uma noitada? O que o faz andar de metrô sem cobrador e assim mesmo pagar sua passagem? O que o motiva a retirar um jornal de uma pilha e colocar o dinheiro no recipiente ao lado, sem que ninguém esteja controlando? Será somente cultura?
Posso falar da minha experiência.
Quando trabalhei na Dana Albarus no início da produção de juntas homocinéticas no Brasil, estagiei na Alemanha durante oito meses, tempo suficiente para poder fazer algumas observações interessantes.
Em uma ocasião, ao sair do trabalho na firma Löhr und Bromkamp em Offenbach/Main no final do dia, presenciei um pequeno acidente de trânsito. Dois carros se chocaram levemente, quebrando os faróis e amassando os para-choques. Os dois motoristas desceram correndo de seus carros e eu pensei: “vai dar morte”. Nada disso. Os dois correram para juntar do chão os cacos de vidro. Sujar a via pública é punido com pesada multa, e esta eles não queriam pagar. O problema dos carros podia ser resolvido depois até mesmo através das seguradoras.
Outra vez, vi uma criança deixar cair no chão um papel de bala e ser veementemente repreendida pelo pai. A multa era “zu teuer” (muito cara).
Os alemães com quem convivi nesses oito meses, vieram ao Brasil fazer o tryout das máquinas importadas da Alemanha. Nunca os vi se restringirem a “ein kleines bier” quando saíamos à noite mesmo que tivessem que dirigir. Na Alemanha tinha problema. Aqui não.
Uma vez tive a oportunidade de acompanhá-los num fim de semana a Balneário Camboriú (SC). Eles dirigiam um carro alugado pela empresa. Velocidade mínima: 120 km por hora, mesmo com as placas na BR-101 informando 80 km/h como velocidade máxima. E não aconteceu nada.
A conclusão a que cheguei foi a seguinte: onde as leis são inflexíveis, as pessoas se tornam automaticamente educadas. O problema está na impunidade. A culpa é de quem cria as leis ou de quem não as faz cumprir.
No início deste texto fui otimista dizendo que em quinhentos anos conseguir-se-ia mudar a cultura do país. No entanto, a exigência do cumprimento das leis poderia ser resolvida quase que instantaneamente. Se formos um pouco (ou seja, muito) mais rigorosos no cumprimento das leis, teremos muito mais chances de resolver os problemas nacionais num curto espaço de tempo.
A cultura se modificará na mesma rapidez.
- Fabio Jacques tem mais de 40 anos de experiência em gestão empresarial. Exerceu cargos de chefia e direção em empresas como ATH Albarus (hoje GKN do Brasil Ltda), Dana Albarus S.A., Calçados Bibi, Viação Hamburguesa e Unidasul, dentre outras. É diretor da FJacques - Gestão através de Ideias Atratoras.


2 comentários:

  1. Minha mulher, que é filha de alemão, diz que nã Alemanha tem pouco crime porque crime é contra a lei.

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  2. Vi brasileiro jogando cinzas e tocos de cigarros no chão no aeroporto do Galeão e doze horas depois, já em Frankfurt, vi o mesmo cara procurando desesperado um cinzeiro...

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