quarta-feira, 1 de julho de 2020

A omissão nossa de cada dia

Por Renato Sant'Ana

          Ainda são muitos os que têm uma atitude perante a vida que pode ser traduzida assim: "Alguém tem que fazer alguma coisa!"
          "Alguém"? Mas, por que não "eu"? Por que não "nós"? Por que não "todos"?
          Que uma criança abra o berreiro quando não tem suas necessidades satisfeitas é de todo plausível: ela ainda não tem autonomia para bastar-se a si mesma.
          Agora, que adultos só reclamem e não tenham iniciativa, sem se perguntar "O que posso eu fazer para ajudar a que as coisas mudem", ficando naquelas de "já sou do bem", é, no mínimo, debilidade moral.
          Há pelo menos cinco anos, circula apócrifo o texto abaixo transcrito. Mas nunca foi tão oportuno como nestes dias em que, além doutras agressões a valores da democracia, há brasileiros sendo presos por suas manifestações políticas, ao passo que uns quantos aplaudem o arbítrio.
          "Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados", diz Edmund Burke. E é o lema desta coluna.
O texto:
          No primeiro dia de aula, o professor de "Introdução ao Direito" entrou na sala e a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um aluno que estava sentado na primeira fila:
          - Qual é o seu nome?
          - Chamo-me Nélson, senhor.
          - Saia de minha aula e não volte nunca mais! - gritou o desagradável professor.
          Nélson pareceu desconcertado. Quando voltou a si, levantou-se rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala. Todos estavam apreensivos e indignados. Mas ninguém falou nada.
          - Agora sim! Vamos começar - disse o professor. E perguntou: - Para que servem as leis?
          Seguiam assustados ainda os alunos, porém pouco a pouco começaram a responder à pergunta:
          - Para que haja uma ordem em nossa sociedade - disse o primeiro.
          - Não! - retrucou o professor.
          - Para cumpri-las.
          - Não!
          - Para que as pessoas erradas paguem por seus atos.
          - Não! Será que ninguém sabe responder a esta pergunta?!
          - Para que haja justiça - falou timidamente uma garota.
          - Até que enfim! É isso, para que haja justiça. E agora, para que serve a justiça?
          Todos começaram a ficar incomodados com aquela atitude tão hostil. No entanto, continuavam respondendo:
          - Para salvaguardar os direitos humanos...
          - Bem, que mais? - perguntava o professor.
          - Para diferenciar o certo do errado, para premiar a quem faz o bem...
          - Ok, não está mal, porém respondam a esta pergunta: Agi com justiça ao expulsar Nélson da sala de aula?
          Todos ficaram calados. Ninguém respondia. Parecia faltar coragem de enfrentar àquele simulacro de autoridade.
          - Quero uma resposta decidida e unânime!
          - Não! - responderam todos a uma só voz.
           - Poderia dizer-se que cometi uma injustiça?
          - Sim!
          - E por que ninguém fez nada a respeito? Para que é que queremos leis e regras se não dispomos da vontade necessária para praticá-las? Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma injustiça. Todos. Não voltem a ficar calados, nunca mais! Agora, vou buscar o Nélson- disse. - Afinal, ele é o professor, eu sou aluno de outro período.

Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.
E-mail sentinela.rs@uol.com.br

3 comentários:

  1. O povo está bancando a ovelhinha em matadouro. Todos ficamos calados e não reagimos perante as injustiças que presenciamos no dia a dia. Liberdade, liberdade....!!!!! (alguém pode completar a frase...???)...

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  2. SE QUERES A PAZ PREPARA-TE PARA A GUERRA

    SE QUERES JUSTIÇA,FAÇA POR MERECER,O QUE FOR PRECISO!

    QUEM VIRÁ AQUI PARA FAZER POR NOS,
    OS ARGENTINOS?
    OS URUGUAIOS?
    OS RUSSOS?
    OS COLOMBIANOS?
    OS ALEMÃES?
    OS INGLESES?
    SE NADA FIZERMOS,NÓS BRASILEIROS,FICARA TUDO COMO ESTÁ!
    NÃO!
    FICARÁ PIOR,MUITO PIOR, O USURPADOR VAI ABUSANDO ENQUANTO O ABUSADO NÃO REAGE.
    OS FRANCESES TOMARAM A BASTILHA,
    PARA FAZER VALER DIREITOS OS NORTEAMERICANOS DIVIDIRAM O PAIS E LUTARAM ATÉ A MORTE.
    OUTROS POVOS LUTARAM PARA FAZER VALER DIREITOS.
    TALVEZ NÓS TENHAMOS QUE FAZER ISTO TAMBÉM,JÁ QUE AS FORÇAS DA ORDEM SE OMITEM.

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  3. Foram mais de trinta anos "acadelando" o povo. Doutrinando-o contra qualquer manifestação de Autoridade estatal, mesmo que fosse para coibir crimes visíveis.
    Foram mais de trinta anos criminalizando as Instituições Policiais, adjetivando-as de criminosas, anti-democráticas, torturadoras e tantas outras patifarias.
    Foram mais de trinta anos apregoando as liberdades civis (desde que seus detentores estivessem ao lado "adequado")!
    Foram trinta anos em que liberdade foi confundida com libertinagem.
    Foram mais de trinta anos tornando o cidadão "pacífico" (na realidade, incapaz de reagir às patifarias vistas), individualista ("não tenho nada com isso!"), desonesto por meio da conivência (não é meu, é dinheiro público, não me prejudica) quando não partícipe (se todo mundo rouba, por que não aproveitar e pegar a "minha parte").
    Trinta anos, são três gerações de maus cidadãos formados.
    O resultado é essa sociedade amorfa em que vivemos, onde uma minoria de desonestos, com o conluio do "grande irmão" e sua eterna vigilância sobre os poucos que a ele se opõem, e o precioso auxílio dos vândalos disfarçados de "movimentos sociais" que se prestam ao "serviço sujo" quando necessário, já não permitem a reação normal dos verdadeiros injustiçados. Os "contribários" (contribuintes otários) cujo único papel nesta sociedade atual é trabalhar, suar, produzir e pagar a festa dos "dirigentes" (os insaciáveis ladrões fazedores de leis que os tornem impunes e os fiscais do cumprimento dessas leis).

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