terça-feira, 17 de abril de 2018

Artigo, Flávio José Kanter, Zero Hora - Ensinar e aprender com velhos


Atendo muitas pessoas velhas, entre 80 e cem anos. Não é raro acompanhantes, cuidadores e familiares, terem restrições a hábitos de vida, horário e tipo de alimentação e bebida, banho, dormir e acordar, vontade de sair de casa, dirigir seu carro... Quando são lúcidos e comandam bem seus corpos, pensamentos e  sentimentos, tendo a apoiá-los. Comento que chegaram a essa idade conduzindo a vida do seu jeito e que assim está dando certo. Não fosse isso, não estariam como estão. Digo que nós não sabemos se vamos chegar vivos até a idade que eles chegaram. Sugiro que temos o que aprender com eles, não a ensinar. Os velhos reagem com um sorriso triunfante, cheios de orgulho. Os acompanhantes recebem a sugestão com um sorriso desconcertado, mas sempre concordam.

Nem tudo precisa ser tratado
É comum querer tratar velhos como se fossem crianças. Serve para lidar com os que já não têm condições mentais e físicas para gerenciar suas existências com autonomia. Muitos conflitos que se verificam entre eles e seus jovens são desnecessários. O hábito dos mais moços de achar que seu jeito de conduzir a vida dos velhos é melhor, nem sempre corresponde à verdade nem os torna mais felizes. Por vezes, não sabemos o que é melhor para nós. Por que achar que se sabe o que é melhor para o velho... Melhor saber o que sentem e pensam.
Há uma tendência a medicalizar a velhice. Nem tudo precisa ser tratado. Lembro o que Darwin identificou, sobrevive quem se adapta, não o mais forte. Bernard Lown cita um adágio que diz que não se conserta o que não está quebrado. Velhice não é doença. Devemos tratar as doenças que acometem velhos, como tratamos as que atingem jovens. O desafio é reconhecer o que o envelhecimento muda em cada um.
Ajudar velhos e seus familiares com criatividade para fazer as adaptações a essa fase da vida pode ajudar mais do que buscar mudanças ou dar remédios. Só não é assim para os que perderam o vigor físico e a lucidez, os que estão dependentes. Não sendo isso, é melhor apoiá-los no seu jeito, protegê-los de riscos, aprender com eles.

Um comentário:

  1. Belo artigo DR. Flavio Kanter. Continue escrevendo mostrar ao mundo que envelhecer não é doença. Obrigado meu Dr.

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