O Brasil não caiu na corrupção por acidente. O Brasil convive com ela como método de poder.
Quando um país repete o mesmo vexame ano após ano, o problema deixa de ser moral ou episódico e se torna estrutural e institucional. O Índice de Percepção da Corrupção 2025, divulgado pela Transparência Internacional nesta terça-feira, não traz surpresa nem escândalo novo. Ele apenas confirma, com números frios, aquilo que o brasileiro já sente no bolso, no hospital, na escola, na estrada e na segurança pública.
O Brasil marcou 35 pontos, numa escala de 0 a 100, e ficou na 107ª posição entre 182 países. Está abaixo da média mundial e regional. Vergonhosamente abaixo. Somos a potência do agro, gostamos de nos orgulhar do tamanho da economia, do futebol, da criatividade. Mas quando o assunto é integridade institucional, estamos no porão.
Desde 2015 o país não consegue sair dessa lama. Um ponto a mais é estatisticamente irrelevante. Não há trator de esteira capaz de puxar o Brasil desse pântano enquanto a própria estrutura de poder se sente confortável nele. O país está atolado — e quem orbita a Praça dos Três Poderes parece perfeitamente adaptado ao ambiente.
Não é falta de indignação popular. É excesso de blindagem institucional.
O orçamento foi capturado por emendas distribuídas em ambientes de baixa transparência e fiscalização. Políticas públicas operam com controles frágeis. O crime organizado infiltra-se na economia formal — da Faria Lima ao setor de combustíveis, de estruturas empresariais sofisticadas a negócios que parecem comuns. O Estado vira balcão. A fronteira entre público e privado desaparece. E o país finge se escandalizar.
Não se sabe sequer dimensionar com precisão as centenas de bilhões drenadas ao longo dos anos. O dinheiro do contribuinte desaparece antes de virar ambulância, antes de virar sala de aula, antes de virar asfalto, antes de virar equipamento policial. A corrupção mata — mata na fila do hospital, no buraco da estrada, na falta de remédio, na ausência de segurança, na escola precária.
O escândalo do INSS escancara essa lógica. Mais de R$ 12 bilhões já identificados como desviados de aposentados e pensionistas. Se confirmadas todas as irregularidades nos consignados, o rombo pode ultrapassar R$ 100 bilhões. Não é falha técnica. É crime em escala industrial contra quem não tem lobby nem padrinho.
Aposentados e pensionistas foram saqueados por sindicatos e operadores que atuaram sob a complacência — para dizer o mínimo — de uma estrutura que tinha o dever de fiscalizar e impedir o esquema. Não foi descuido. Foi vista grossa. Foi falha grave de controle. E o sistema protege os seus.
Mesmo após o presidente Lula afirmar que conversou com o filho citado na CPMI do INSS — Lulinha — e declarar publicamente “se tiver alguma coisa, vai pagar o preço”, o filho do presidente segue sem convocação. O presidente fala para a plateia. A base age para blindar. Um diz uma coisa. O outro faz outra.
No Brasil, a transparência é farol seletivo: ilumina o adversário e poupa o aliado.
Nada disso é novidade. Neste século tivemos mensalão, petrolão, orçamento secreto, emendas bilionárias, fraudes financeiras sofisticadas. Houve operações, delações premiadas, confissões explícitas. Sim, confessaram. Sim, admitiram que desviaram dinheiro público. Sim, devolveram parte — mas não tudo.
E agora, em muitos casos, buscam de volta.
O dinheiro desviado do contribuinte abasteceu contratos fraudados e campanhas eleitorais. Descobertos os esquemas, foi apreendido dos corruptos e corruptores, retornou ao Estado e, com pareceres da PGR e decisões de tribunais superiores, voltou em larga escala ao patrimônio de quem o desviou.
No Brasil retratado pelo Índice da Transparência Internacional, confessar não pode compensar — mas muitas vezes compensa.
O caso do ex-governador Sérgio Cabral simboliza esse deboche. Condenado a mais de 400 anos de prisão e a devolver mais de R$ 2,5 bilhões, deixou a cadeia e passou a viver em cobertura de alto padrão na Lagoa Rodrigo de Freitas, gravando vídeos com dicas de filmes.
Como alguém que construiu carreira política consegue acumular patrimônio que leva a condenação bilionária sem que órgãos de controle detectem? Onde estavam os Tribunais de Contas enquanto esse patrimônio crescia? São órgãos de fiscalização ou tribunais do faz de conta?
Isso é um soco no estômago do aposentado saqueado. Do pensionista enganado. Do contribuinte que trabalha cerca de cinco meses por ano apenas para pagar impostos e não recebe serviços públicos compatíveis com o que paga.
A Transparência Internacional alerta: corrupção hoje não é só desvio. É infiltração. É captura do Estado. É crime organizado comprando acesso, cooptando estruturas, utilizando o sistema financeiro e empresarial para lavar dinheiro e expandir poder.
Quando isso acontece, a corrupção deixa de ser problema. Vira sistema.
Os poderosos transformaram o Estado brasileiro em um permanente baile da Ilha Fiscal. Para quem esqueceu, o Baile da Ilha Fiscal foi a festa luxuosa da elite imperial às vésperas da Proclamação da República — uma celebração opulenta enquanto o país real já estava em crise.
Poucos convidados seguem brindando. Milhões seguem pagando a conta.
A festa é para poucos. A fatura é de mais de 200 milhões de brasileiros.
E há um mecanismo que sustenta essa engrenagem: o foro privilegiado.
Um dos mecanismos que sustentam essa engrenagem é o foro privilegiado. Não existe, no mundo democrático, país com tamanho alcance de foro especial como o Brasil. Ele viola o princípio da isonomia — todos iguais perante a lei — e cria uma aristocracia processual.
O Supremo, em vez de restringir drasticamente esse privilégio, recentemente ampliou seu alcance.
Enquanto o foro funcionar como blindagem estrutural, haverá incentivo institucional à impunidade.
O sistema entrega alguns anéis para preservar os dedos. Sacrifica alguns nomes para proteger o núcleo.
O índice não acusa. Ele mostra o que se vê todos os dias.
Confirma que o saque ao Estado brasileiro não é acidente histórico nem azar estrutural. É modelo de poder que protege os seus, pune seletivamente e se perpetua na sombra.
E o povo não pode ver tudo isso porque falta luz no poste da rua que foi roubado por esse esquema canalha de corrupção, para que quem paga a conta permaneça no escuro, não por acaso, mas para que não enxergue com clareza o que corruptos e corruptores fazem com o Brasil. É preciso acender a luz e jogar na cara deles, identificando-os e fazendo-os responder pelos seus crimes e, condenados no devido processo legal, afastá-los por muito tempo da sociedade para que não retornem a alimentar essa engrenagem viciada que gira sem parar, sempre às custas de quem trabalha e paga a conta.
Felipe Vieira
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