Lula na linha de tiro

 Por vaidade pessoal e mau aconselhamento de seus assessores, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou evoluir a ideia de ser homenageado por uma escola de samba do Rio de Janeiro no desfile do próximo domingo, o que poderá culminar em punição do Tribunal Superior Eleitoral por propaganda política antecipada. Com a anuência presidencial e financiamento da Embratur, a escola de samba Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial do Carnaval carioca, levará ao sambódromo da Sapucaí o enredo "Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula o operário do Brasil", que retrata a trajetória pessoal e política do atual chefe da nação.


Não haveria problema algum e talvez até pudesse ser considerada uma homenagem merecida se Lula não fosse pré-candidato à reeleição. Da maneira como está planejada, porém, com presença da primeira-dama Rosângela Lula da Silva num dos carros alegóricos e do próprio presidente no camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro, afigura-se uma exposição demasiada do pretendente à reeleição, com vantagens evidentes sobre os demais candidatos que ainda não estão em campanha.


Como o TSE já cassou mandatos e tornou até mesmo um ex-presidente inelegível por campanha eleitoral extemporânea, o risco de sinistro político é grande e já começa a preocupar até mesmo integrantes do governo

Por tais motivos — e também por conta do radicalismo político vigente no país —, parlamentares e partidos de oposição recorreram ao Judiciário com o propósito de suspender o desfile da escola e de punir os responsáveis pela homenagem, a começar pelo próprio homenageado. Nesta quarta-feira, a Justiça Federal rejeitou as ações impetradas pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e pelo deputado Kim Kataguiri (União-SP) contra a escola de samba, considerando que os pedidos não cumpriram os requisitos necessários para a abertura de um processo de ação popular. Mas a representação encaminhada pelo Partido Novo ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), contra o presidente, o PT e a escola de samba, ainda carece de julgamento. O Novo alega que o desfile extrapola os limites de uma homenagem cultural e se transforma numa peça de pré-campanha ao associar a trajetória de Lula e elementos típicos de campanha eleitoral.


Como o TSE já cassou mandatos e tornou até mesmo um ex-presidente inelegível por campanha eleitoral extemporânea, o risco de sinistro político é grande e já começa a preocupar até mesmo integrantes do governo. Tanto que os ministros anteriormente inscritos para desfilar na escola homenageante já anunciaram suas desistências. Nesse caso, pelo menos, o bom-senso prevalece sobre a bajulação.


Ainda que a oposição não consiga barrar o desfile, como solicita o Novo em sua representação, ficará nas mãos do ministro Kássio Nunes Marques, próximo presidente do TSE e indicado ao cargo pelo ex-presidente Bolsonaro, a tarefa de decidir se a homenagem será ou não enquadrada como propaganda eleitoral antecipada. No mínimo, está criada mais uma polêmica explosiva para o processo eleitoral que se avizinha, com potencial para acirrar ainda mais a polarização e o radicalismo político no país. Os cidadãos brasileiros podiam passar sem isso — e dedicar ao Carnaval apenas sentimentos de alegria, descontração e convívio social. E nossos políticos deveriam refletir sobre uma citação do Papa Francisco: "A vaidade é mentirosa, engana a si mesma e engana o vaidoso".



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