sexta-feira, 24 de junho de 2016

Artigo, Marco Aydos - A gramática do ódio

A gramática do ódio
Por marco aydos
Com Aristóteles nos aproximamos do ódio pela superfície. Aprendemos que a  gente sente raiva no varejo, seja de Sócrates ou de Cálias, mas ódio a gente tem por atacado. O verbo do ódio, miseîn, está no radical do ódio aos gêneros,misandria, misoginia. O ódio não tem afinidades eletivas: quem odeia um gênero de pessoas, um tipo, uma classe (genus, no original aristotélico) odeia indistintamente todos os indivíduos dessa classe.
Na temporalidade, o ódio também se distingue da indignação: a raiva passa, a gente vai se cansando de ter raiva, vai esquecendo, e eventualmente caminha para o esquecimento artificial: o difícil trabalho do perdão, nutrido pelo amor. O ódio não termina enquanto não mata o alvo inocente, aleatório. Em uma página de seu diário, Imre Kertész cunhou a expressão “ódio platônico aos judeus” para definir o antissemitismo, porque mesmo onde não existem judeus existe antissemitismo (Kertész, Imre. Diario de la galera. Tradução de Adam Kovasics. Barcelona: Acantillado, 2004. p. 182).
Todo antissemita cultua o ódio. Está, por assim dizer, acostumado ao ódio. Não tem dificuldade de acionar esse ódio para uma nova classe quando lhe convém.
O novo PT, renascido das cinzas do antigo partido dos trabalhadores, começou a cultivar o ódio ainda em sua fase de apogeu no poder. Desde março de 2010, quando Lula visitou Israel, a política externa brasileira foi explicitamente antissemita. Aproximando-se a crise, o PT só fez transformar seu espírito pela internalização, para a política doméstica, do antissemitismo que praticava na política externa.
Ferenc Fehér analisou de modo rico a teoria política de Arendt, chamando nossa atenção para a estrutura do livro As origens do totalitarismo. Arendt não começa pelas definições políticas gerais para chegar a casos concretos que seriam exemplos, mas discute longamente a exceção, o fenômeno do antissemitismo. Da análise do judeu transformado em pária, em oposição ao cidadão, a autora chega à essência da política, que é a cidadania, o direito a ter direitos. E então se permite exportar, por analogia, a condição de pária do judeu para todos os que são destituídos de cidadania. [Fehér, Ferenc. “The pariah and the citizen (On Arendt’s political theory)” in Heller, Agnes & Fehér, Ferenc. The postmodern political condition. New York: Columbia University Press, 1988. p. 89-105].
Segundo reza a lenda, o PT teria promovido uma revolução social em uma década de poder.
Essa revolução teria sido traída pelos reacionários, os “suspeitos de sempre”, os inimigos da revolução. Todo reacionário inimigo da revolução precisa ser eliminado, para que a revolução prossiga. Mas não é possível matá-los fisicamente. O partido do ódio e seus intelectuais nos mataram, em substituição, em nossa cidadania.
A maldição da classe média pronunciada por Marilena Chauí foi apenas o discurso inaugural do ódio político do novo PT, em 2012, quando a situação terminal do paciente já se avizinhava. 
Mas foi na crise que conduziu ao afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República que os intelectuais da nova ordem foram trabalhando, a uma só voz, apesar da espontaneidade do coro, o processo de desconstituição da categoria política povo. O ódio à classe média é o insulto que opera essa desconstituição. Não se encontra um único defensor da falácia do golpe que não insulte a classe média. 
Desde a história política aparentemente acadêmica de Bresser-Pereira, passando pela recente história do PT por André Singer, até  jornalistas como Eliane Brum e Luís Fernando Veríssimo, todos tocam no mesmo compasso, variando apenas algumas melodias incidentais.
A hipocrisia é o insulto clássico.
Mas o rol de perversidades da classe média brasileira é curiosamente povoado por reminiscências do ódio moderno aos judeus. Os coxinhas seriam adoradores do capital, egoístas, escravocratas, parasitas. 
Bresser-Pereira e André Singer convergem no reducionismo, moeda corrente entre os economistas e sociólogos do novo partido do ódio: a classe média teria uma única ocupação, a de rentista. 
Seríamos mentirosos, insensíveis, com inveja dos pobres, porque teriam, segundo o conto de fadas do PT, subido para a classe C e ficado mais parecidos conosco.
Outra analogia com o ódio platônico aos judeus está na recusa à humanidade do alvo inimigo. Joel Kotek (http://jcpa.org/article/major-anti-semitic-motifs-in-arab-cartoons) refere o zoomorfismo entre os motivos recorrentes em cartoons árabes. Um dos modos de insultar está na desumanização do adversário, retratado como animal. São frequentes os desenhos de judeus como aranhas, cobras, eventualmente porcos, mas sobretudo polvos com a poderosa imagem de poder, em cujos tentáculos são representadas as vítimas da hora. A bestialização reforça os insultos clássicos contra os ricos, contra os capitalistas, contra as grandes fortunas, todos, enfim, parasitas. No auge da crise, os coxinhas fomos retratados pelos intelectuais governistas como cães. Mas não cachorrinhos dóceis, domésticos. Éramos cães raivosos. Agosto de 2015 foi nosso “mês de cães danados”.
A gramática do ódio pela desumanização é explícita em dois textos contemporâneos. Um deles, a coluna “Vácuo”, do Luís Fernando Veríssimo, no Estadão de 20/8/2015, brindou-nos com esta interessante analogia:
“Houve um tempo em que os cachorros corriam atrás dos carros. Era uma cena comum: vira-latas perseguindo carros, latindo, como se quisessem expulsar um intruso no seu meio. Às vezes, viam-se bandos de cães indignados perseguindo carros que passavam e dava até para imaginar que um dia conseguiriam alcançar um, dos pequenos, pará-lo, cercá-lo e… E o quê? Comê-lo? Nunca ficou claro o que os cachorros fariam se alcançassem um carro. Era uma raiva sem planejamento. (Hoje, a cena de cachorros correndo atrás de carros é rara. Os cachorros modernizaram-se. Renderam-se ao domínio do automóvel. Ou convenceram-se do seu próprio ridículo).
“Os manifestantes contra o governo sabem o que não querem – a Dilma, o Lula, o PT no poder -, mas ainda não pensaram bem no que querem. Se conseguirem derrubar o governo, que cada vez mais se parece com um Fusca indefeso sitiado por cães obsoletos, o que, exatamente, pretendem fazer com o vácuo?”
Preparando o nosso mês de cães danados, Eliane Brum brindou-nos com sua coluna no El País, de 22/07/2015, com sugestivo título, no mesmo tom de Veríssimo: “Por quem rosna o Brasil”.
Vale a pena reler o texto, mais longo que o de Veríssimo, no contexto da gramática do ódio que estamos expondo. A entonação geral segue na melodia do anticapitalismo romântico, receita de sucesso comprovada pela extraordinária recepção contemporânea da pobreza de filosofia de um Zygmunt Bauman. 
Em discurso regado a fel, do início ao fim, e preconceito, Eliane não tem pudor na injustiça aos evangélicos, cujos pastores seriam “personagens paradigmáticos do Brasil atual … mediocridade barulhenta e perigosa”. Difícil encontrar o elo de ligação entre uma coisa e outra, mas esse preconceito gratuito serve de reforço para o perfil de Dilma Rousseff, retratada como vítima dos cães raivosos e obsoletos:
“acuada por ameaças de impeachment mesmo quando (ainda) não há elementos para isso, … um personagem trágico. Vendida por Lula … como ‘mãe dos pobres’, ela nunca foi capaz de vestir com desenvoltura esse figurino populista, até por sinceridade.”
A matilha de cães danados andou solta pelas ruas em agosto de 2015. Éramos “os protagonistas das manifestações de 2015 [que] gritam também para manter seus privilégios”, e rosnam porque não estariam dispostos “a perder para estar com o outro”.
Para coroar o insulto clássico do mês de cães danados, vale lembrar de novo o discurso fundador do novo PT, em que Marilena Chauí já anunciara a boa nova:os cães ladram mas a caravana passa, então a caravana está passando. [8min30seg do discurso de 2012, publicado no youtube em 2 de maio de 2014: <https://www.youtube.com/watch?v=fdDCBC4DwDg> consulta em 22/4/2015). Ela só esqueceu de dizer que o cocheiro da caravana vai passando carregado de ouro, roubado pelo caminho.
A gramática do ódio é expressiva de um ódio indestrutível, que possivelmente nasce do subterrâneo da humanidade. Talvez não seja coincidência que o treinamento no ódio, pela eliminação física de cães, já tenha de fato acontecido, durante a ocupação da antiga Tchecoslováquia pelos russos, pós-1968. Kundera conta o episódio. 
“Tereza lembra-se de uma notícia de duas linhas que lera no jornal há uns dez anos: dizia que numa cidade da Rússia todos os cachorros haviam sido mortos. Essa notícia discreta e aparentemente sem importância tinha-lhe feito sentir pela primeira vez o horror que emanava desse imenso vizinho.
“Era uma antecipação de tudo que viria depois: nos dois primeiros anos que se seguiram à invasão russa, não se podia ainda falar em terror. Já que toda a nação desaprovava o regime de ocupação, era preciso que os russos encontrassem entre os tchecos homens novos e os levassem ao poder. Mas onde encontrá-los, uma vez que a fé no comunismo e o amor pela Rússia eram coisa morta? Foram procurar entre aqueles que alimentavam intimamente o desejo de se vingar da vida. Era preciso soldar, alimentar, manter alerta a agressividade deles. Era preciso treiná-los contra um alvo provisório. Esse alvo foram os animais.
“Os jornais começaram então a publicar uma série de artigos e a organizar campanhas de cartas de leitores. Exigia-se, por exemplo, o extermínio dos pombos … As pessoas estavam ainda traumatizadas com a catástrofe da ocupação, mas os jornais, o rádio, a televisão, só falavam nos cachorros que sujavam as calçadas e os jardins públicos, ameaçando a saúde das crianças, cachorros que não serviam para nada e ainda tinham que ser alimentados. Fabricou-se uma verdadeira psicose … Um ano mais tarde, o ódio acumulado (ensaiado primeiro nos animais), foi para o seu verdadeiro alvo: o homem. As demissões, as prisões, os processos começaram. Os animais puderam enfim respirar.” (Kundera, Milan. A insustentável leveza do ser, Nova Fronteira, 1985, p. 290).
O povo nas ruas, em agosto de 2015, desaprovou o regime de ocupação do poder pela organização criminosa que o assaltou.
Era preciso encontrar homens e mulheres novos para apoiar a ordem. Mas onde encontrá-los? 
Foram procurar entre aqueles que alimentavam intimamente o desejo de se vingar da vida. Era preciso soldar, alimentar, manter alerta a agressividade deles. Era preciso treiná-los contra um alvo provisório. Esse alvo fomos nós, os coxinhas, a classe média. Pela nova terminologia do poder, não seríamos mais cidadãos, mas gente que rosna de medo de perder o osso, matilha de cães obsoletos.  


7 comentários:

  1. O ápice da gramática do ódio, como foi dito “ é o extermínio do objeto odiado” verificado desde a tortura e crucificação de Jesus, e dos cristãos https://www.youtube.com/watch?v=o2QqsUQYFeI assim como na Revolução Francesa - matriz inspiradora da revolução comunista, http://inacreditavel.com.br/wp/a-lideranca-judaica-na-revolucao-bolchevique-e-e-inicio-do-regime-sovietico/ que se impusera de maneira extraordinariamente sangrenta embasado em uma inusitada doutrina que nega os princípios milenares de nacionalidade e pátria, sua mortal ojeriza contra a propriedade privada, sua peremptória posição ateísta, corroborada em sua implacável perseguição religiosa e sua manifesta intenção de expandir tais sistemas através da revolução mundial ensejada mor Marx.

    Objeto de tal ódio se viu ainda no genocídio paraguaio em 1869, da Guerra dos Boers, da Revolução Russa, do Tratado de Versalhes, http://inacreditavel.com.br/wp/como-hitler-se-livrou-da-escravidao-dos-juros/ dos genocídios ucraniano, alemão https://www.youtube.com/watch?v=QkNyC12CC-s até os mais recentes http://osentinela-blog.blogspot.com.br/2016/07/o-lobby-judaico-sionista-e-os-conflitos.html

    http://inacreditavel.com.br/wp/holocausto-judeu-o-que-aconteceu-realmente/ +
    https://quenosocultan.wordpress.com/

    "O comunismo não é a fraternidade, é a invasão do ódio entre as classes. Não é a reconciliação dos homens – é o seu extermínio mútuo" Ruy Barbosa http://i1.wp.com/www.elyvidal.com.br/wp-content/uploads/2015/07/image.jpg

    Igualmente em - “O ódio não termina enquanto não mata o alvo inocente, aleatório” – o ‘Modus Operandi’ é coerente com outros episódios históricos assinalados.

    O ódio não tem afinidades eletivas: quem odeia um gênero de pessoas, um tipo, uma classe (genus, no original aristotélico) odeia indistintamente todos os indivíduos dessa classe.

    Conforme constatação de Alfredo Braga http://alfredo-braga.pro.br/discussoes/ “Atiçar desavenças e atritos entre os povos e as nações, é um dos principais golpes de um certo grupo que há milênios se destaca por essa mesma obra de corrosão e destruição. Não existe nenhum “embate de civilizações“, mas sim a contínua sabotagem de várias civilizações, no decorrer da história, por esses mesmos parasitas que agora se arvoram em analistas e críticos do estado de desvario aonde foram atiradas as nossas pátrias e nações. O ladino inimigo não se mostra à sua frente, ele está ao seu lado, disfarçado como seu aliado, ou atrás de você, impondo-lhe crenças e atitudes equivocadas, dizendo-lhe a quem deve combater, enquanto se ri do seu desespero e desorientação”. Expediente recorrente de tal ladino, é empregar o lema de Lênin https://i.ytimg.com/vi/vpryiO7xauk/hqdefault.jpg


    „Es kann der Frömmste nicht in Frieden leben, wenn es dem bösen Nachbarn nicht gefällt“ Nem o mais misericordioso pode viver em paz, se o mau vizinho dele não se apraz.

    ResponderExcluir
  2. A VERDADE NÃO ODEIA, É ODIADA.

    "A tradição", aponta Flavio Kothe em ‘Cânone Colonial’ "guarda a versão que interessa aos dominadores e sufoca a fala dos vencidos. A premissa" (A MENTIRA) "já contém em si a conclusão. A moral da história não vem, a rigor no fim da história, mas no princípio, ANTES DE INICIAR, determinando toda sua construção; INVENTA-SE a história para provar a conclusão, não se conclui em função da história."

    ResponderExcluir
  3. A VERDADE NÃO ODEIA, É ODIADA.

    "A tradição", aponta Flavio Kothe em ‘Cânone Colonial’ "guarda a versão que interessa aos dominadores e sufoca a fala dos vencidos. A premissa" (A MENTIRA) "já contém em si a conclusão. A moral da história não vem, a rigor no fim da história, mas no princípio, ANTES DE INICIAR, determinando toda sua construção; INVENTA-SE a história para provar a conclusão, não se conclui em função da história."

    ResponderExcluir
  4. https://pbs.twimg.com/media/B2vDTu-IAAAuwdQ.jpg Toda mentalidade revolucionária é embasada na MENTIRA e movida pelo ÓDIO MORTAL aos adversários, idêntico ao que torturou e executou Jesus Cristo https://lupocattivoblog.com/2018/01/09/neue-studie-beweist-linke-und-gruene-sind-und-bleiben-kindskoepfe/#comment-505632

    A história corrompida pereniza a corrupção, solapa a ordem social, a família e a vida, mas a verdade cura, liberta e pacifica.

    ResponderExcluir