sábado, 13 de outubro de 2018

Artigo, Antonio Britto - Nós, os constituintes de 1988, fracassamos


Artigo, Antonio Britto - Nós, os constituintes de 1988, fracassamos

O país onde a realidade é inacreditável esmerou-se em 72 horas, de 6ª feira a domingo (5 a 7 de outubro de 2018). O Brasil comemorou 30 anos da Constituição que implantou a democracia. Realizou eleições em que o tema foi a fragilidade da mesma democracia. Escolheu como únicas opções para fortalecê-la por meio de reformas (que exigem consenso) os maiores campeões em rejeição.
É mais do que hora de aqueles que sonharam e construíram o período democrático confessem seus erros e assumam seus fracassos.
Nós, os constituintes de 1988, erramos porque legislamos para trás. Tudo o que fosse oposto à ditadura, nós aprovamos como bom ou necessário. Para cada acerto em favor da sociedade e de mecanismos de controle do Estado, constitucionalizamos a fragilização do setor público e sua submissão às corporações.
Enfraquecemos o setor público, confundindo o Estado autoritário (que mais do que nunca é necessário abominar) com o Estado ineficiente e corrompível, também ele inimigo da democracia.
Nós, os democratas, permitimos que a expressão máxima do regime das liberdades –eleições, partidos e Congresso Nacional– fossem em grande parte transformados em estabelecimentos comerciais entregues a frequentadores contumazes das páginas policiais. E a eles conferimos imunidade.
Nós, a alternativa respeitável da social-democracia, transformamos o que poderia ter sido um grande, sério e confiável partido nacional –o PSDB– em um camarim para a disputa de vaidades paulistas. Silenciosas diante da corrupção. Covardes diante do governo Temer a ponto de este ter feito o governo Dilma sumir do debate eleitoral dois anos depois de seu histórico fracasso, como se nunca tivesse existido.
Nós, a alternativa de uma esquerda moderna e séria, condenamos o que parecia ser um partido popular e transformador –o PT– a tornar-se o maior gerador de corrupção da história do país. E, pior: acabamos construindo um biombo de esquerda para a mais velha e reacionária das práticas –um caudilhismo que também o país ainda não tinha vivido.
Nós, os liberais, por oportunismo ou medo, abandonamos a pauta conservadora pela agenda do ódio. Passamos gradualmente a construir um caminho de rejeição à primeira das regras democráticas: o respeito à diversidade, o prazer na pluralidade e a convivência com as minorias.
Fizemos pior. Fechamos os olhos à inaceitável proliferação e ao poder de algumas igrejas que, na verdade, são estabelecimentos comerciais. Mais recentemente, concluímos a obra conservadora fazendo com que o país voltasse a conhecer e discutir o nome de militares.
Nós, os que trabalhamos ou dependemos do Direito, tivemos muito medo de dizer que caberia ao menos preservar o Judiciário, diante das crises dos partidos, do Congresso e do Executivo.
Situado a metros do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a harmonia dos Poderes aconselhava solidariedade no pior. E igualou-se no descrédito.
Passamos os 30 anos comemorados na 6ª feira construindo o resultado de ontem. Não faltarão agora os que buscarão na miséria de grande parte dos brasileiros (sem emprego e saúde) e na insegurança da outra parte (diante da violência e da falta de eficiência dos governos) a explicação para o que aconteceu. Como se deles fosse a responsabilidade pelo dia de ontem.
Será mais um –e o pior erro de quem é democrata. Os brasileiros, de forma repetitiva, quase monótona, aprovam a democracia, exigem a liberdade, mas querem governos que funcionem gerando o básico. Voltam-se ao populismo em busca de comida. Ou deslizam para o autoritarismo em busca de segurança.
Já sabemos o que esperar de quem vencer nesse 2º turno. E não parece nada bom. Mas o que esperar de quem perdeu ontem, foi humilhado pelas urnas e condenado pelos 30 últimos anos, não importa o partido?
Há um sabor extremamente amargo deixado por esse domingo para todos que tenham bom senso. Cabe agora esperar que as três próximas semanas, de forma quase milagrosa, desmintam os maus presságios. E cabe cobrar com veemência que os expulsos da vida política ontem façam com atraso o reconhecimento do quanto erraram, surdos diante de um sentimento que se explodiu ontem e que vinha sendo construído lentamente ao longo desses últimos anos.

Antônio Britto
Antônio Britto Filho, 66 anos, é jornalista, executivo e político brasileiro. Foi deputado federal, ministro da Previdência Social e governador do Estado do Rio Grande do Sul. Atualmente é presidente do Conselho Consultivo da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa).

7 comentários:

  1. A Constituinte de 88 foi talhada para uma casta de políticos que foram brindados com a oportunidade de inventar um mundo próprio, onde seu poder seria perene e sua moral inquestionável. Hoje, estamos elegendo um Presidente que poderia ser um simples veneno para matar ratos. É tudo que queremos, matar ratos e vê-los apodrecer. E, aí sim, pensarmos em um novo Brasil, livre para escolher e decidir. Nosso futuro parece ter caminho difícil e árduo para reencontrar a decência e o compromisso de fazer do pais um lugar onde filhos e netos não pensem todos os dias em como abandona-lo. Vamos em frente!

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    1. -
      Os ratos que estão no poder foram eleitos por nós, os camundongos que vivemos a reclamar. Somos, em maior ou menor nivel, pequenos ratos à espera de que um pedaço de queijo "caia do ceu"...
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    Não ha o que chorar.
    Somos o(s) povo(s) que somos. Praticamente cinco continentes num só.
    Um povo mal formado e deformado.
    Constituído historicamente com o que de pior havia na Europa em cruzamento sociológico com a fragilidade indígena e africana.
    Faltam ainda séculos para a depuração e sedimentação.
    Isto é, se houver uma revolução educacional.
    Caso contrário, milênios.
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  3. Belos comentários, mas dão o tom da época: anônimos. Bando de covardes, que nos levaram onde estamos.

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  4. Aqui se faz e aqui se paga. Só a experiência pode gerar cultura, a arte de bem viver. Vale para um, vale para um povo inteiro.

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  5. Muito do que se fala, sao perolas jogadas aos porcos, nao consigo verificar, um BRASILEIRO COM MUITO ORGULHO, nos ultimos 33 anos!!!

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  6. Não há muito o que lamentar com a Constituição Federal de 1988, na sua redação original. Equivoca-se quem critica negativamente a Lei Maior. O grande problema existente hoje foi causado por diversas emendas, entre eles o de tributos dirigidos a estados e municípios, que foram desviados para a União. Os governadores e prefeitos estavam satisfeitos em 1988. Se há algo que precisa ser alterado na Constituição original, e que continua em vigor até hoje, além da revogação de determinadas emendas, é a retirada de imunidades parlamentares e de demais autoridades.

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