segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Artigo, Luiz Felipe Pondé, Folha - Esquerda fetiche


We dont need no education (não precisamos de educação) é coisa de teenager bobo


Sempre desconfiei de artistas com pautas políticas. Continuo desconfiando: artista falando de política é puro marketing. Recentemente, tivemos um exemplo no show do Roger Waters e sua “inserção” no debate político brasileiro. Sua crítica é puro fetiche gourmet.

Artistas assim (existem vários exemplos nacionais e internacionais, mas não vou citá-los, você os conhece bem) ganham rios de dinheiro sendo “progressistas”. Trata-se de uma espécie de gourmetização da crítica política, propício a shows de rock and roll.

O mundo da arte, do audiovisual e da cultura é um dos mais violentos e antiéticos da face da Terra. Quem discordar, mente ou desconhece o assunto.

A informalidade e o “capitalismo selvagem” que regem esse campo de negócios é reconhecidamente agressivo. Jovens, e pessoas em geral, são frequentemente explorados em larga escala quando tentam entrar nesse mercado de trabalho. Além de serem mal pagos.

Seja música, seja cinema, seja teatro ou afins, muito do que os artistas criticam no mundo do “capital” à sua volta é prática comum nesses mesmos campos de negócios. Entre a vaidade e a vocação ao abuso, os artistas (não todos, é claro) são menos confiáveis do que a “velha política”.

Outro fator importante é o desconhecimento em mínima profundidade dos temas menos clichês da política contemporânea —que é uma selva densa de problemas sem soluções.

As críticas levadas a cabo por esses artistas são mais marketing profissional e pessoal deles do que propriamente conhecimento instalado sobre esses temas.

O que Waters sabe da realidade brasileira (ou mesmo de outro tópico constantemente tratado por ele, a saber, o conflito israelo-palestino) que não seja fruto da sua própria e distante bolha ideológica ou dos jargões “progressistas”? O que ele sabe que não seja fruto da construção de uma imagem de consumo associado a este mesmo vago conceito de “progressista”?

Há um pacote ideológico que alimenta o marketing de artistas há muito tempo, começando pelo “Che suave”.

O conceito de cognição política, crescente no tratamento do comportamento dos eleitores e agentes políticos em geral, cai bem aqui.

Antes de tudo, um profissional que se dedica (mesmo que, competentemente, do ponto de vista artístico) a música, dificilmente conseguirá reunir tempo e ferramentas específicas para construir um mínimo repertório para realizar uma cognição política minimamente consistente.

Projetar imagens de crianças da África em shows de rock and roll é o que há de mais banal em marketing da própria banda. Aquilo que, de certa forma, era “raiz” em artistas como John Lennon, hoje não passa de estilo “nutella” em bancas milionárias.

Voltando a cognição política, conceito que demonstra a quase incapacidade de profissionais dedicados a política em, de fato, compreender de forma minimamente consistente o mundo político contemporâneo para além do mimimi ideológico, quase nos leva ao impasse cético nas análises de temas políticos, principalmente depois que as mídias sociais trouxeram a superfície a fala de milhares de pessoas que antes eram mudas, e não passavam de objeto de fantasia idealizada por parte desses mesmos profissionais da análise política.

Parte do transtorno e da desorientação que vivemos hoje quando pensamos na democracia não advém da redução da participação popular nas opiniões políticas, mas da saturação aguda dessa mesma participação.

Estamos afogados na “soberania popular” tagarela nos últimos anos. E isso não vai mudar porque as ferramentas de comunicação tendem a dispersar cada vez mais essa tagarelice (que Alexis de Tocqueville, em 1835, já apontava no seu “Democracia na América”).

E venhamos e convenhamos, a música de Waters é grandiosa, mas dizer que “we don’t need no education...” (nós não precisamos de educação) é, como já apontou o psiquiatra inglês Theodore Dalrymple, coisa de adolescente bobo.

Resistir ao fascismo sempre foi, de fato, urgente. Mas, é bom lembrar que o fascismo sempre gostou de grandes surtos coletivos regados a palavras de ordem e multidões.

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

3 comentários:

  1. Roger Waters recebeu grana para fazer aquele papel ridículo. Triste figura. E tem mais, dinheiro roubado do povo brasileiro.

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  2. We don't need no educacion... "Education" do ponto de vista formal , com um professor que tem suas crenças pessoais e as impõe guela abaixo de jovens em formação...
    Este verso foi o mantra para o "start" da configuração da Internet... que caso o Pondé ainda não saiba é SENSACIONAL para estudar...MARAVILHOSA para pesquisar... e coloca todas as correntes de pensamento a disposição de quem tiver curiosidade verdadeira...
    Que os professores "sem asas" devam estar apavorados... é fácil de entender...
    Acabou a moleza!!!
    Ou você é um Pitágoras ...ou a meninada te faz passar vergonha!!!
    Quanto ao Roger ... ele é "um must de Cartier"... um humanista... com o avô vitimado em uma guerra e o pai em outra...
    É com estes olhos que ele fala das relações entre oprimidos por este flagelo e seus opressores ...
    O caso do Brasil a situação é complexa, difícil... para um estrangeiro... e também para um brasileiro , pois nem em nosso pior pesadelo acreditaríamos que esta turba seria capaz de tanta roubalheira... de tanta falta de vergonha na cara...
    Se eu tivesse que dar um conselho ao Pondé eu diria o seguinte:
    Manera cidadão... porque está aparecendo uma pontinha de "ciúmes brabo"...

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