terça-feira, 16 de outubro de 2018

As máquinas de campanha de Bolsonaro pelo WhatsApp


Principal arma da campanha de Jair Bolsonaro (PSL), o WhatsApp tem municiado uma bem-sucedida máquina online que sustenta a candidatura do militar reformado no mundo offline. Com apenas nove segundos de TV, o líder nas pesquisas conseguiu arrematar 49,2 milhões de votos no primeiro turno, inverter a lógica tradicional das disputas eleitorais e criar a sua própria narrativa política a partir de um aplicativo de celular.

Militante digital bem antes de entrar na corrida ao Palácio do Planalto, Bolsonaro conta com uma rede virtual tão poderosa quanto barata. Liderada pelos seus filhos, pensada por uma empresa especializada e disseminada pelos apoiadores, a estratégia alimenta a internet com informações sobre a campanha e, claro, muito antipetismo. Além da propaganda, pelo baixo controle ainda característico do meio digital, as redes acabam recebendo de tudo – de dados fidedignos e críticas à imprensa até dúvidas infundadas sobre as urnas eletrônicas e mentiras camufladas de notícias.

Vereador do Rio, o filho Carlos Bolsonaro (PSC) sempre foi o principal responsável pelos vídeos de edição simples e linguagem coloquial do pai. Durante a campanha, ganhou reforço: uma empresa de inteligência digital com sede em seis cidades do país que distribui conteúdo para cerca de 1,5 mil grupos de WhatsApp. A partir do primeiro envio, os materiais são compartilhados de maneira espontânea entre os apoiadores, estimulados a compartilhá-los.

Apesar do plano coordenado, o sucesso está relacionado ao voluntarismo de simpatizantes do deputado federal espalhados pelo país. Para o professor da Universidade de São Paulo (USP) Márcio Ribeiro, um dos responsáveis pelo projeto “Monitor do debate político no meio digital”, as regras do aplicativo sinalizam o componente orgânico da campanha online – por limitar em 256 o número de participantes por “fórum”, o WhatsApp depende do engajamento de seus usuários para que as mensagens circulem.

– É uma dinâmica muito diferente da TV, na qual, em uma tacada só, quem conseguiu apoio dos partidos de centro ficou com a maior parte do tempo. Nas redes sociais, esse movimento é orgânico. Não está claro o quanto há de coordenação. Aparentemente, estamos vendo um processo de baixo para cima: as pessoas se convenceram de defender Bolsonaro e estão voluntariamente fazendo propaganda para ele – analisa Ribeiro.

De início, a estratégia “oficial” do time digital consistiu na criação de grupos de WhatsApp por Estado. Dali, passaram a distribuir conteúdos diários aos apoiadores, vorazes compartilhadores de imagens, vídeos e memes de Bolsonaro. Ao que tudo indica, o limite de integrantes imposto pela ferramenta fez multiplicarem-se os grupos de WhatsApp.

Nem mesmo a campanha do capitão pode precisar quantos existem: pela criptografia, o aplicativo tem monitoramento complexo e controle dificultado. Uma integrante da campanha da candidata a senadora Carmen Flores (PSL), palanque de primeira hora de Bolsonaro no Rio Grande do Sul, por exemplo, calcula que existam 50 grupos ativos somente na Região Metropolitana. Mas a própria apoiadora considera a estimativa acanhada.

Revolução no marketing político e espaço de disseminação de mentiras
Segundo estudo do pesquisador Maurício Moura, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, o conteúdo pró-Bolsonaro espraiou-se para 40 mil grupos de WhatsApp nos dias mais movimentados da campanha, sobretudo, nas duas semanas pré-votação. Em um dia “normal”, chegou a 15 mil.

Moura é um dos brasileiros que busca mapear o impacto do dispositivo no debate eleitoral do país. Fundador da Ideia Big Data, empresa de pesquisas de opinião pelo celular, acompanha 800 mil brasileiros que disponibilizam voluntariamente os seus dados. Resultados parciais mostram simbiose entre a estratégia em rede e o compartilhamento de notícias falsas:

— O WhatsApp funciona de maneira espontânea, sem impulsionamentos e algoritmos. Antes do início da campanha, a única que tinha uma estrutura orgânica, ativa e contundente era a equipe de Bolsonaro. Os seus seguidores criaram um hábito de compartilhamento que multiplicou o conteúdo. O lado bom é que conseguiram derrubar todos os clichês eleitorais em relação ao marketing político. O ruim é que perdeu-se o controle do conteúdo. Aí, as fake news ganharam uma dimensão nunca antes vista.

Fóruns informais alavancam alcance
Distantes do núcleo da estratégia digital oficial de Jair Bolsonaro (PSL), há brasileiros responsáveis pelos próprios grupos de simpatizantes do capitão reformado do Exército. O empreiteiro Vitor Souza, 48 anos, entrou no início do ano passado em um desses fóruns, batizado de “Mito”, quando um conhecido de Brasília o incluiu.

Depois de um aborrecimento com amigos por causa das repetidas discussões sobre política, criou os seus próprios grupos: “Eleitores de Bolsonaro” (256 participantes), “Bolsonaro 17” (240) e “Bolsonaro RS” (190). Ele ainda figura como administrador em outros cinco.

Dado seu protagonismo, Souza foi incluído no grupo “Central de Informações”, do qual participam somente administradores de fóruns numerosos, em uma espécie de comando informal. Por ali, unificam os assuntos a serem divulgados e definem as estratégias de campanha — passado o primeiro turno, por exemplo, a ordem era que parassem de difamar nordestinos.

— Criamos uma rede para desmistificar as fake news a respeito do Bolsonaro – argumenta Souza.

Para pesquisadores do tema, o efeito WhatsApp também respingou na eleição para o Legislativo. Sem acesso ao fundo partidário, campanhas econômicas conseguiram divulgação espontânea pelo aplicativo. Eleito para a Assembleia com 102 mil votos, o estreante Ruy Irigaray (PSL) contou com o apoio voluntário de 30 pessoas. Segundo o produtor de eventos Márcio Ferreira, 39 anos, os “marqueteiros” informais criaram entre 280 e 300 grupos:

— Antigamente, tinha dinheiro para ir à TV, ao rádio. Hoje, não. A maioria da galera que está entrando na política não tem dinheiro. Aí, aproveita a ferramenta do WhatsApp, que, como é gratuita, acaba dando um “up” na divulgação do trabalho deles.

Monitoramento para excluir simpatizantes do adversário
Entre as tarefas de Ferreira, está o monitoramento de eventuais “infiltrados” – quem declara voto em Fernando Haddad (PT) ou digita “Lula Livre” acaba removido de imediato. Devido à dinâmica que chega a ultrapassar mil mensagens por dia, precisou selecionar conhecidos “de confiança” e promovê-los a administradores para controlar as discussões.

Muitos grupos são públicos. Para participar, basta entrar por meio de links divulgados na internet. Um site reúne os endereços de 150 fóruns de WhatsApp — o clique garante o recebimento diário de vídeos, imagens e memes prontos para viralizar, assim como um tanto de notícias falsas de origem desconhecida.

— A capacidade de encaminhar mensagens e criar grupos relativamente grandes coloca o WhatsApp em um lugar ambíguo: um espaço de comunicação privada onde é muito fácil e barato transmitir desinformação — pontua Márcio Ribeiro, pesquisador da USP.

Desenvolvido pelo professor Fabrício Benevenuto, do departamento de Ciência da Computação daUniversidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o “Monitor de WhatsApp” vem acompanhando 350 grupos de discussão política no aplicativo – a maioria, pró-Bolsonaro. Pela ferramenta, os pesquisadores coletam imagens, vídeos, áudios e mensagens para analisar o ainda incompreendido fenômeno das fake news.

– Esses grupos públicos são uma forma de espiar, por uma fresta, o que está acontecendo no WhatsApp. São a porta de entrada para as notícias falsas: neles, estão pessoas engajadas em ajudar seus candidatos e que participam para espalhar o que realmente acreditam – diz Benevenuto.

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