sábado, 7 de maio de 2022

Atletas surdos e uma imprensa muda, por Renato Sant'Ana

        O mutismo de uma imprensa que se sente livre para recusar-se a ouvir a realidade e para escolher a notícia que lhe convém é das maiores ameaças à democracia, colaborando com a expansão do autoritarismo.

    

        Interessará à mídia? A cidade de Caxias do Sul, RS, está sediando a 24ª Surdolimpíada de Verão (Summer Deaflympics). Entre dirigentes, comissões técnicas e atletas surdos, esse megaevento reúne mais de cinco mil pessoas de 77 países para disputar, de 1º a 15 de maio, 20 modalidades olímpicas no masculino e 18 no feminino.


        A surdolimpíada, evento multidesportivo internacional organizado pelo Comitê Internacional de Esportes para Surdos (ICSD - International Committee of Sports for the Deaf) e, nesta edição, pela Sociedade dos Surdos de Caxias do Sul, com apoio da prefeitura municipal, é uma competição mais antiga que a chamada "paralimpíada", que reúne atletas com diversos tipos de deficiência, exceto a deficiência auditiva.


        A surdolimpíada, que, ao surgir, era chamada de "jogos silenciosos", ocorreu por primeira vez em Paris em 1924, sendo o primeiro evento esportivo para pessoas com deficiência. Desde então, salvo ao tempo da Segunda Guerra Mundial, aconteceu regularmente a cada quatro anos.


        Aliás, o Brasil é o primeiro país da América Latina a sediar o evento. E está representado, em Caxias, por uma delegação de 199 atletas (110 homens e 89 mulheres), sua maior participação até hoje.


        Mas um aspecto deixa intrigado quem tem mais de dois neurônios ativos na cachola: a pouca cobertura da imprensa. Por que é que um evento de tal magnitude, tão rico em conteúdo humano, recebe menos atenção que, por exemplo, o patético Big Brother Brasil?


        Em 2016, o Rio de Janeiro sediou a paralimpíada com ampla divulgação da imprensa. O que explicará que, agora, um evento no mínimo tão relevante quanto o de 2016 seja desleixado pela mesma imprensa?


        Registre-se que a cerimônia de abertura dos jogos, em 01/05/22, além do que por si só representaria, reservou uma eloquente mensagem de amor e paz à humanidade com o mais fervoroso, mais emocionado, mais acolhedor aplauso à delegação da sofrida Ucrânia. A quantos chegou essa mensagem?


        Que divulgação deram os moços do politicamente correto que dominam a crônica esportiva de Porto Alegre, que se acham grandes humanistas, que gostam de falar de diversidade e trombeteiam bandeiras identitárias?


        Registre-se ainda que a 24ª Surdolimpíada de Verão tem apoio do governo federal, que se fez representar na cerimônia de abertura pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro, pelo ministro da Cidadania, Ronaldo Bento e pelo secretário nacional do Paradesporto da Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania, Antônio Guedes.


        Talvez os moços da imprensa, para patentear o quanto são isentos, tenham preferido ficar distantes de um evento apoiado pelo governo...



Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.

E-mail: sentinela.rs@outlook.com


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