terça-feira, 12 de junho de 2018

Artigo, Hélio Gurovitz, 1 - Trump, Kim, Moon e o Nobel da paz


Inimaginável até fevereiro passado, o encontro histórico entre Donald Trump e Kim Jong-un pôs fim à dúvida que persistia para o início de negociações rumo à paz duradoura na Península Coreana. Os dois são, ao lado do sul-coreano Moon Jae-in, candidatos naturais ao Nobel da Paz deste ano.

Tem pouco significado imediato o comunicado assinado hoje em Cingapura. Natural que, nesta fase, o resultado produzido ainda seja vago e pobre em detalhes. O importante é que, doravante, está criada a ponte entre Kim e Trump. “Ele confia em mim, eu confio nele”, afirmou Trump após a reunião. A confiança mútua entre os líderes dos dois lados é a melhor garantia de que as negociações podem trazer frutos.

Trata-se de um momento tão histórico quanto foram a viagem de Richard Nixon à China, em 1972, ou os acordos entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, em 1986 e 1987. Em ambos os casos, a relação pessoal criada entre os líderes dos dois países fez deslanchar negociações que ambos os lados julgavam improváveis, até impossíveis, e resultaram numa nova configuração geopolítica do planeta.

Até que ponto o diálogo entre Trump e Kim poderá trazer resultado semelhante? Impossível saber a esta altura. Mas o primeiro passo foi dado. Trump cedeu ao aceitar que a realidade da desnuclearização exige uma abordagem gradual. Kim, ao adotar como meta inequívoca o fim das armas nucleares na Península Coreana. Em troca, obteve uma garantia implícita de que ficará no poder.

“O presidente Trump se comprometeu a fornecer garantias de segurança à Coreia do Norte, e o líder Kim Jong-un reafirmou seu compromisso firme e inabalável com a desnuclearização completa da Península Coreana”, afirma o comunicado assinado pelos dois.

As questões que persistem depois do encontro dizem respeito aos detalhes. Quando estão em jogo negociações nucleares, é claro que detalhes são essenciais e podem por tudo a perder. Kim reafirmou as palavras empregadas na declaração de Panmunjom, assinada com a Coreia do Sul em abril, em que se compromete a “trabalhar rumo à desnuclearização completa da Península Coreana”.

É uma formulação vaga, que não estabelece prazos e lhe permite manter armas nucleares como forma de pressão pelo tempo que julgar necessário. Está bem distante da meta do assessor de Segurança Nacional John Bolton, que usa como exemplo o caso da Líbia. Em 2003, o ditador Muammar Khaddafi aceitou despachar todo o material atômico e seu arsenal de armas químicas para ser desmantelado fora do país.

Para os norte-coreanos, a Líbia é a prova de que os americanos não são 100% confiáveis. Depois de aceitar se desvencilhar do programa nuclear, foi atacada em 2011, e Khaddafi, deposto. Outro exemplo usado para desacreditar os americanos é o acordo com o Irã, rompido por Trump há pouco mais de um mês.

Mas a Coreia do Norte está em situação bem distinta. Para começar, já dispõe de bombas atômicas – estimativas falam em até 60 – e de mísses para lançá-las sobre território americano. Há, segundo a Rand Corporation, entre 40 e 100 instalações nucleares no país (no mínimo o triplo que o Irã tinha antes do acordo com o governo Barack Obama). A desnuclearização completa não será alcançada em menos de dez ou quinze anos, diz um relatório da Universidade Stanford.

O principal risco é que qualquer documento negociado agora pelos dois lados seja fraco nas garantias de desnuclearização total. Manter algo como dez bombas atômicas, cujo desmantelamento estaria sujeito a alguma condição improvável, seria uma vitória para Kim.

Os incentivos para que Trump faça concessões são óbvios – e Kim foi astuto ao perceber isso. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra, os Estados Unidos têm um presidente disposto a recuar nas intervenções internacionais. Um eventual acordo envolverá redução na força de 28 mil soldados mantidos na Coreia Do Sul. Os norte-coreanos poderiam impôr a retirada deles como condição ao desarmamento.

O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, almeja a aproximação com o país vizinho como oportunidade econômica. Vê a reunificação como meta tangível, que justificaria riscos. O Japão, ao contrário, observa a negociação com receio, ou mesmo angústia. É essencial, para os japoneses, que o desarmento inclua não apenas os mísseis de longa distância que alcançam Chicago ou Washington, mas também os de curta, que chegam a Tóquio ou Kyoto.

A maior forma de pressão que Trump tem em mãos são as duríssimas sanções econômicas impostas contra a Coreia do Norte desde o fracasso das últimas negociações em 2006. A abertura no setor agrícola, industrial e de serviços é urgente para combater a fome e a pobreza endêmica. Investimentos e a integração ao mercado financeiro global representariam outra vitória para Kim.

Duas dificuldades poderão emperrar as conversas. Primeiro, as visões diferentes sobre os objetivos a alcançar. Não há possibilidade de Kim aceitar abrir mão de todas as suas armas sem a garantia de sobrevivência de seu regime tirânico não apenas dos Estados Unidos – mas também da China, a grande ausente das negociações.

Para o governo de Seul, e mesmo para Tóquio, a meta implícita é a reunificação. Para a China, esse cenário é intolerável. Pequim jamais aceitará tropas americanas perto de suas fronteiras – e mantém Kim sob controle remoto. A expectativa americana é desligar a conexão que liga Pyongyang a Pequim para redesenhar a geopolítica na região.

Entra em jogo então a segunda dificuldade: a personalidade imprevisível dos dois líderes. É sintomático que, ao longo de todo o balé de reaproximação, Kim tenha parecido o mais adulto. Personalidades têm importância crucial nas iniciativas diplomáticas. O temperamento de Trump é tudo menos estável. Qualquer explosão no Twitter, rompendo as conversas ao menor pretexto, significará não um recuo à situação anterior, mas um risco ainda maior.


Por enquanto, Trump e Kim parecem afinados. Há interesses comuns. A química pessoal poderá resultar num acordo sem precedentes. A China representa a maior incógnita. Mas não dá para comparar a situação atual à do início do ano, quando se temia uma guerra nuclear. Se o motivo da aproximação for maior que apenas um Nobel para satisfazer ao ego de ambos, o mundo estará mais seguro. E não há, por sinal, mal algum em conceder o Nobel a Trump, Kim e Moon. Eles merecem!

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