Cláudia Woellner Pereira – tradutora e redatora
No fim de fevereiro de 2022 estive à mesa, frente a frente, com um cidadão de Londres de origem ucraniana.
Havia estourado a Guerra da Ucrânia (melhor: a Guerra da Rússia contra a Ucrânia) e aquele homem, de índole fria, equilibrada, com uma mente superafiada - pela cultura, formação e profissão -, acostumado a análises de tendências, de cenários políticos e econômicos, explodiu em lágrimas: "Quão rápido dividiram o povo! São só ideias! Estamos afundando num lamaçal de ideias!".
As lágrimas eram pelos pais dele, que poderiam, a qualquer momento, compor as estatísticas de mortos. Pela perda de amigos e conhecidos. Pela destruição de patrimônios históricos e culturais, de lugares que eram seus, que pertenciam às suas memórias de infância e adolescência.
Até pouco tempo antes da guerra, russos e ucranianos não se viam como "russos" e "ucranianos". Eram irmãos, vizinhos, parceiros de trabalho. Transitavam livremente em territórios russos e ucranianos como se fosse um só país. Uma mesma família tinha pessoas residentes lá e cá.
Antes do primeiro bombardeio físico russo, os ataques foram sendo realizados no campo cognitivo, minando a percepção de irmandade entre russos e ucranianos. Numa velocidade espantosa, aqueles que se viam como iguais posicionaram-se armados na frente “russa” e na frente “ucraniana”.
Janeiro de 2023, Brasil, repito com a mesma dor: "Quão rápido se dividiu o povo!".
Direita, esquerda. Fascista, antifascista. Democrático, antidemocrático...
O povo brasileiro vem sendo retalhado em categorias adversárias capazes de se denunciarem como se fossem criminosas. E nem temos a certeza de que todos conhecem em profundidade os rótulos que estão sendo disparados e pregados nos semblantes alheios.
Lamaçal de ideias.
Terreno perigoso, minado.
O sistema de alerta precisa ser acionado em nossas mentes para que não afundemos. Não somos inimigos. Onde está o verdadeiro inimigo?
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