segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Entrevista, Gustavo Grisa - Nos últimos oito anos, deu tudo errado para o RS

Entrevista - Gustavo Grisa : “Nos últimos 8 anos, deu tudo errado para o RS”.

O editor pediu para o economista Gustavo Grisa, autor do livro RS - Sem Medo do Futuro, analisar a repercussão da capa da Revista Veja da última semana. Grisa é sócio da consultoria Agência Futuro, consultor de projetos de desenvolvimento  e inovação de políticas públicas em todo o Brasil. Dentre outros destaques, alertou, em 2013, para a crise econômica que estava se instalando no País.

P - Em 2009, o Sr. já em seu livro alertava que, em dez anos, se um conjunto de iniciativas estratégicas não acontecessem, o Estado se encontraria em uma situação extremamente crítica. Chegamos lá? É o fundo do poço?

G - Infelizmente, sim. O que acontece confirma o pior cenário que pudéssemos imaginar há cerca de uma década atrás, quando estávamos em meados de um governo que propunha uma agenda reformista, e havia uma cultura de que o RS poderia seguir uma agenda pragmática e efetiva para o seu futuro.

P - Como avalia a situação do Estado? O que é causa, e o que é consequência?

As dificuldades não são desculpa para o descompasso estratégico. Em primeiro lugar, é possível, se pesquisarmos, encontrarmos matérias do final da década de 1970 alertando para a “crise das finanças gaúchas”.  A palavra-chave, como já disse diversas vezes, é procrastinação. Desde o Plano Sayad, em 1985, que planos são elaborados e deixados para implementar amanhã, em uma preguiça que mantém os corporativismos intocados e perpetua mediocridades.

Se some a isso um “deslocamento” crescente do eixo cultural-econômico-estratégico do País, ao Porto Alegre não mais se configurar em um polo regional de nível nacional. O Sul do Brasil virou multipolo. Se some a isso uma política nacional durantes os governos Lula e Dilma que foram muito desfavoráveis aos Estados mais industrializados.

P - Onde fica a responsabilidade dos governadores?

G - Aos que dizem que governos do Estado e a gestão política não fazem diferença, peço para analisarem o fracasso dos três últimos governos que passaram no Estado, inclusive o atual, e que já herdaram essa trajetória difícil.  O governo Yeda trouxe uma agenda correta, adequada para o momento, mas falhou em implementar, construir apoios, articular um legado - suas ações foram descontinuadas; o governo Tarso era confuso do ponto de vista temático e de prioridades, e fazia apologia do “déficit spending”, ou seja, de uma visão de que o Estado pode e até deve gastar mais do que arrecada. E exerceu essa visão, agravando a situação financeira. O de Sartori é marcado pela inércia, por um vácuo e por um antimarketing do Estado sem precedentes, ao vir a público admitir a falência do Estado e a inexistência de uma estratégia articulada. 

 P - Mas é a crise financeira que paralisa o Estado?

G - É a convivência de um grande problema de gestão, e um grande problema econômico. E os dois são retroalimentantes, ou seja, causa e consequência um do outro. Um exemplo claro é a nossa educação: não conseguimos mais saltos de produtividade, e temos até uma deterioração da consciência política devido à falta de qualidade na nossa educação, fruto claro da falta de investimentos e sucateamento da educação pública no Estado nos últimos 40 anos.  Temos uma geração que hoje são os recursos humanos do Estado que recebeu uma educação já muito deficiente, e atualmente, a coisa está piorando, em vez de melhorar.  Aí estouram as instituições, a segurança pública...

P - O que é possível fazer, ou reverter?

G - Acho que devemos ser mais pragmáticos, e menos sonhadores nesse aspecto. Estamos ainda longe de um cenário de terra arrasada total. Se o Estado entrasse em um ciclo de um ou dois governos mais efetivos em conseguir debelar ou reverter a crise financeira e criar maior atratividade econômica, o RS ainda tem força de reação.  É uma crise de liderança, é uma crise de convergência, e há uma mudança geracional que ainda não aconteceu. Ainda somos governados por quadros que advém da época da ditadura militar. E nossa classe empresarial tradicional tem sido dizimada pela baixa competitividade do Estado, o que leva à venda de ativos,  em vez de empresários de peso temos “famílias ricas” e um esvaziamento da inteligência e influência do RS. Mas há como recuperar.

P- Qual o caminho?


G - Principalmente, criar melhores alternativas de liderança, melhorar o nível dos debates, e votar melhor. Parar de compactuar com propostas que trazem “mais do mesmo” ou mero populismo genérico, pois esse mundo está mudando há mais de 20 anos e existem, sim, muitas possibilidades de inovações institucionais se houver governança e qualificação para tal. Mas precisamos parar de fugir dos remédios mais amargos e do medo de enfrentar corporações.

2 comentários:

  1. Lindo ! Mas falou muito e não disse nada ...

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  2. Disse tudo.
    Quando surgem notícias de ajustes em planos de carreiras de categorias não é porque este ou aquele governante não gostam dos servidores. É porque estes planos são obsoletos e aumentam os gastos em demasia sem um devido aumento da contraprestação.
    Quando forma implementados vivíamos outra realidade e o objetivo de várias vantagens era atrair um número elevado de pessoas qualificadas.
    O mesmo pode ser dito com relação a previdência pública.
    Deveria ser igual ao setor privado e quem quiser ganhar mais que faça uma política complementar.
    Os servidores ainda não entenderam que quanto mais se aprofundar o gasto com pessoal maior a chance de não receber em dia o seu vencimento.
    Temos que tomar medidas duras do contrário não haverá amanhã e nem mesmo as aposentadorias serão pagas.
    Isso sim seria o caos.
    Também está na hora do Poder Judiciário, MP, Legislativo e TCE descer do seu pedestal e brigar por estas reformas cortando penduricalhos que não subsistem nem mesmo em países desenvolvidos.
    De nada adianta ingressar com demandas e conceder liminares para pagar em dia o que não tem.
    Chega de hipocrisia.
    Quem achar pouco ganhar o subsídio se acha que merece ganhar mais que vá pra iniciativa privada.

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