Titulo original - Entre um gole e outro, a memória viva de Kadão
Por Felipe Vieira
Algumas amizades sobrevivem ao tempo porque são cultivadas em rituais simples. Uma mesa de bar. Uma noite de conversa. Um grupo de amigos que se encontra sempre no mesmo dia da semana, faça chuva ou faça sol.
É assim, todas as quintas-feiras, que a Confraria do Alemão se reúne em Porto Alegre. Um grupo de jornalistas e amigos que decidiu preservar algo cada vez mais raro na vida adulta: o hábito de sentar, conversar, rir e relembrar histórias.
Dessas noites nasceu um livro. Depois outro. E agora chega o terceiro volume.
No próximo dia 19 de março, será lançado “Entre um Gole e Outro – Volume 3”, uma edição especial dedicada a um personagem que fazia parte da alma desses encontros: o fotógrafo Ricardo Chaves, o Kadão.
Kadão nos deixou em abril do ano passado, mas permanece presente na memória afetiva de todos que cruzaram o seu caminho. Não apenas pelo talento extraordinário como repórter fotográfico, mas pela figura generosa, espirituosa e profundamente humana que era.
A confraria, que se reúne no Bar do Alexandre, no bairro Menino Deus, decidiu transformar o terceiro livro em uma homenagem coletiva. O resultado é uma obra construída a muitas mãos e muitas lembranças.
O livro reúne depoimentos de amigos da confraria, familiares, colegas de redação e admiradores do trabalho de Kadão. Também traz fotografias marcantes de sua carreira e histórias de grandes coberturas jornalísticas que ajudaram a contar o Brasil e o mundo através de imagens.
Não é pouca coisa.
Kadão trabalhou em alguns dos mais importantes veículos do país. Passou pelo Jornal do Brasil, pelas revistas Veja e IstoÉ, pelo Estadão e foi chefe de fotografia da Zero Hora, onde construiu uma trajetória respeitada e admirada.
Seu último trabalho foi como editor da coluna Almanaque Gaúcho, na Zero Hora. Em 2017, lançou o livro “A Força do Tempo: Histórias de um Repórter Fotográfico Brasileiro”, vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura, publicado pela Editora Libretos. Na obra, revisita quase quatro décadas de fotojornalismo, reunindo 144 retratos de figuras da política e da cultura brasileira, além de bastidores marcantes da profissão — de um tempo em que fotos eram reveladas em banheiros de hotel e o telex ainda pulsava nas redações, até coberturas históricas como Olimpíadas, Copas do Mundo e episódios decisivos da história recente do país.
Agora, a nova obra presta tributo não apenas ao profissional brilhante, mas ao homem que era capaz de transformar qualquer mesa em uma roda de histórias.
O prefácio é de Leonardo Hoffmann, filho de Assis Hoffmann, que foi um dos incentivadores de Kadão no início da carreira. A impressão da obra foi viabilizada por ele. A edição é da Bá Editora, de Mari Bertoluci, com projeto gráfico de Antonio Luzardo e revisão de Cássia Zanon.
Há ainda um gesto que diz muito sobre o espírito da homenagem: toda a venda dos exemplares será destinada ao Asilo Padre Cacique, instituição que Kadão ajudava em vida.
Entre os amigos que escrevem e recordam histórias, aparece algo maior que a própria obra: a celebração da amizade.
Eu mesmo guardo lembranças muito especiais do Kadão.
Algumas delas aconteceram longe das quintas-feiras da confraria do Bar do Alexandre. Sempre admirei aqueles encontros, afinal, ali estavam muitos amigos queridos, mas infelizmente participei poucas vezes. Quando morava em Porto Alegre, muitas vezes eu ainda estava na televisão no horário em que eles se reuniam. Depois que me mudei para São Paulo, essas aparições se tornaram ainda mais raras.
Mas isso não impediu que eu construísse minhas próprias memórias com o Kadão.
Muitas delas nasceram em outra mesa igualmente marcante da cidade: o Il Gattopardo, restaurante icônico de Porto Alegre comandado pela jornalista Eleonora Rizzo. Ali também se reunia um grupo de amigos em torno de outra tradição que nos aproximava: a confraria do charuto.
Era uma confraria improvável e deliciosa, formada por gente das mais diferentes áreas, advogados, médicos, jornalistas, empresários, fotógrafos. Kadão, claro, sempre presente.
Entre baforadas de charuto e goles de uísque, surgiam conversas que avançavam noite adentro, sem pressa e sem roteiro. Kadão tinha o raro talento de transformar qualquer lembrança em narrativa. Falava de viagens, de fotografia, de coberturas memoráveis, de encontros inesperados pelo mundo.
Tinha sempre uma história boa na manga e uma maneira muito própria de contá-la, como se cada episódio fosse uma fotografia revelada ali, diante de todos.
E talvez seja exatamente isso que explica a força de um livro como este.
Porque algumas pessoas não desaparecem quando partem.
Elas permanecem nas histórias que continuam sendo contadas nas mesas onde a amizade resiste ao tempo.
Kadão pertence a essa rara categoria de pessoas que continuam presentes, não apenas nas fotografias que fez, mas nas memórias que ajudou a construir. E enquanto houver uma mesa, um gole e uma boa história sendo contada, de alguma forma ele continuará ali, entre amigos.
Serviço
O lançamento do livro “Entre um Gole e Outro – Volume 3: Um tributo ao Kadão” acontece no dia 19 de março, a partir das 18h até o último gole, no Bar do Alexandre, localizado na Rua Saldanha Marinho, 132, esquina com Gonçalves Dias, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre.
Os exemplares podem ser reservados pelo Instagram @revistaba ou pelo e-mail marianaabertolucci@gmail.com
Toda a renda obtida com a venda do livro será revertida para o Asilo Padre Cacique, instituição tradicional da capital gaúcha que Kadão apoiava em vida.
@felipevieirajornalista
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