sexta-feira, 21 de junho de 2019

Artigo, Mário Rosa, Poder360 - Volta o filme: como é que é? Grampos agora vêm do céu?


Sabe o que mais me surpreende em todas essas mensagens do Intercept? Não, não são conteúdos pra lá de reveladores. O que é de espantar é a ética pendular adotada por alguns jornalistas e órgãos de imprensa e arautos da moralidade diante do fato: sim, alguns se travestem de um súbito e implacável espírito legalista.

Acho espetacular! Só não é coerente. Pois em muitos outros casos do passado, a imprensa se lambuzou com conteúdos de origem cri-mi-no-sa e… fez isso corretamente! Pois o fez em nome do interesse público. Com isso não quero dizer que o ministro Sergio Moro não mereça toda a solidariedade e o respeito, sobretudo por tudo de bom que a Lava Jato fez pelo Brasil, especialmente no tocante ao quesito corajoso do combate à corrupção. Mas… por favor, colegas, arautos, a liberdade de expressão permite tudo, permite inclusive incoerências. Mas a História está aí. Desculpem.

Ora, alguém se esquece da “Tele Gangue”, o escândalo que abalou o segundo governo Fernando Henrique Cardoso? Eram só gravações clandestinas. Só e apenas isso. Feitas contra as maiores autoridades da República. E… toda a imprensa, todinha, se esbaldou nela sem dó nem piedade. Sem contar a compra de votos para a reeleição de FHC. Gravações de um tal de Senhor X. Eram provas do ponto de vista jurídico inquestionáveis? Talvez sim, talvez não. E o essencial: eram relevantes? Eram. E era o que importava.

E o Mensalão? Sim, ele mesmo. O primeiro abalo moral do petismo.  Mostrava uma filmagem de um funcionário de quinto escalão dos correios, Maurício Marinho, recebendo 5 mil reais. Gravação legal? Ora pois! Mas foi veiculada e se a internet existisse naquela época com a força de hoje poderíamos dizer que “viralizou”.

Agora mesmo, com Neymar: todo mundo se preocupou em dar uma olhadinha na legislação para saber se aquelas imagens amplamente difundidas em reportagens e portais eram compatíveis com as leis e os princípios digitais? E o que dizer de todos, to-dos, todinhos, sem exceção, absolutamente todos, os escândalos dos últimos anos?

Ora, senhoras leitoras, senhores leitores, toda vez que vocês esbarram com o chamado “furo” de uma investigação o que está acontecendo ali quase sempre tem também um outro nome: ilegalidade. Quer ver? Alguma emissora ou jornal ficou choramingando as horas e horas de vazamento i-le-gal sobre a contabilidade do senador Flávio Bolsonaro? Não! E não fizeram isso porque não estavam cometendo crime nenhum. Crime estava cometendo, e cometeu, a autoridade que quebrou a inviolabilidade do segredo de justiça.

Os jornalistas que obtiveram a informação, mesmo que de fonte i-le-gal, fizeram… jornalismo. E eu não vi matérias nas mesmas emissoras e nos mesmos jornais que publicaram esses fatos se autoquestionando por estarem cumprindo sua missão com a sociedade: trazerem fatos relevantes ao público, fazendo, assim, jornalismo. E o que dizer da própria Lava Jato? Não falo em relação ao PT ou em relação ao ex-presidente Lula não. Falo em relação a todos os investigados.

Ora, foi o maior festival mundial de vazamentos de informações, dados bancários, áudios, documentos, contas no Brasil e no exterior de que já se teve notícia. E tudo isso virou notícia. E, assim como a operação Mãos Limpas, essa imprensa sempre afiada e inundada por denúncias tóxicas enauseou a sociedade e deu forças para que a investigação avançasse.

E agora vem-se falar de origem criminosa dos conteúdos? Com todo o respeito: todos os vazamentos dos últimos anos foram criminosos e se justificaram no fiapo moral de sua relevância para a sociedade. E entender os critérios de funcionamento dessa que é a mais importante operação de combate à corrupção da história do Brasil não é uma justificativa para além do razoável?

Discutir origens nesse caso, sem que jamais se tenha discutido em todos os outros, é apenas um subterfúgio para não discutir o caso e suas revelações. Por que a Lava Jato, tão ciente dessa barbaridade agora, não se levantou com o mesmo vigor em todos esses e outros casos do passado?

Ou todos os áudios e vídeos da JBS que vazaram vieram a público de maneira absolutamente legal? Claro que não! E ainda assim serviriam para estraçalhar próceres de diversos partidos. Lembra da gravação do Aécio? Do Temer? Da foto dos milhões atribuídos ao Geddel? De todas as delações premiadas amplamente difundidas, em vídeo? Das horas de filmagens falando horrores de todos os políticos?

Pois é: nada daquilo podia estar nas telas, nos jornais ou nas rádios, nos portais. Era cri-me, ilegal. E de onde surge agora o Supremo Tribunal Federal da Ética Jornalística para atuar e atuar num caso só? A imprensa estava fazendo jornalismo, como é jornalismo colocar para a sociedade segredos dos poderosos, mesmo que da Lava Jato.

Os criminosos é que devem ser punidos e não a imprensa se autoquestionar, sobretudo isoladamente, seletivamente. Ah, sim: e o famoso “cheque do Fiat Elba”, o fragmento tão festejado da hoje bolorenta CPI do caso PC Farias? Foi a “prova” de que o então presidente Collor mantinha laços com as contas fantasmas de PC Farias. Não me lembro de ninguém falar que a origem daquele vazamento era um crime. E era, pois se tratava de documento sob segredo de Justiça.

Sabe qual é o problema das moralidades de ocasião? A História. Essa menina travessa que desmascara e põe a nu as contradições e imposturas.

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