quinta-feira, 19 de maio de 2022

Artigo, Paulo Polzonoff Jr., Gazeta do Povo - Ah, se fosse o casamento do Bolsonaro…

Hoje (18) o ex-presidente, ex-presidiário e ex-condenado Lula e a socióloga Janja trocam alianças naquele que promete ser o evento político-romântico do ano. Casamento de rico, de gente que não precisa se preocupar com essa coisa de levantar cedo na quinta-feira. Duzentos privilegiados, em vários sentidos, terão a oportunidade de comer e beber do bom e do melhor, esquecendo-se momentaneamente de que são “a voz dos despossuídos”, tirando a fantasia de justiceiros sociais e se refestelando no que a vida burguesa tem de mais caro e cafona.

Tem um pessoal aí em polvorosa. Fala-se no triunfo do amor da esquerda sobre o ódio da direita. Os mais idólatras celebram a forma física do noivo e a consciência social da noiva. Uns mais afoitos temem que o casamento possa vir a ser interrompido por oficiais de justiça que há tempos tentam notificar a futura sra. Lula por dívidas do tempo em que ela não sonhava em se tornar primeira-dama.

Como teoricamente acontece numa prisão de segurança máxima, celulares estão proibidos. Assim os convidados (e os noivos) poderão se dar ao luxo (mais um!) de serem eles mesmos, sem se preocuparem com a reação da opinião pública. E sem darem trabalho a uma já assoberbada equipe de relações públicas empenhada em limpar a imagem dos esquerdistas.

A ostentação que cerca as núpcias do casal Janja e Lula (Jaula) ganhou contornos epicuristas. Nas conversas, os devotos do petista trazem no bolso do paletó Ermenegildo Zegna um saquinho com vários mas, poréns, contudos, entretantos e todavias a serem prontamente usados para justificar um detalhe na prataria ou, mais provavelmente, uma fala tresloucada do noivo. Que, depois de uma ou duas doses de oncinha, com certeza transformará o casório num comício.

A milésima segunda noite

Se os noivos fossem outros, ah, como a cobertura do evento seria diferente! Sei que mencionei o presidente Jair Bolsonaro lá no título, mas não precisamos ir tão longe. Bastava ser o casamento de qualquer pessoa que não estivesse associada à elite petista ou à extrema-esquerda que vai ter que pedir dinheiro ao papai para alugar um terno.

Não fosse o casamento do Pai dos Pobres 2.0, certamente algum editor teria a brilhante ideia de enviar um repórter com aspirações literárias para acompanhar o casamento de um casalzinho pobre na favela ou no interior do Piauí. “João e Maria, ao contrário dos ricaços que lotaram Espaço Bisutti...”, escreveria o repórter logo na primeira frase, sem pudor de fazer da luta de classes seus estandarte.

Sem falar no batalhão que se dedicaria a investigar a vida pregressa de cada um dos convidados, expondo detalhes do comportamento deles e invariavelmente os retratando como bichos-papões. “A socialite Amelinha Figueroa se recusa a cumprimentar o porteiro”. Ou: “O industrial Adolfo Furz, que tem esse nome em homenagem a Hitler...”. Ou ainda: “Na safra passada, o magnata do agronegócio Francisco Bento usou agrotóxicos o suficiente para encher milhões de piscinas olímpicas”.

Daí viriam as considerações histórico-antropológicas sobre a festa. A prataria forjada em indústrias que usam mão de obra infantil. As flores do buquê colhidas por bisnetos de escravos colombianos. “Todos os convidados portavam armas de grosso calibre, escondidas em coldre de couro de coala e sob ternos cortados por alfaiates que, nas horas vagas, se dedicam a botar fogo na Amazônia”, escreveria o repórter, já pensando em inscrever a obra-prima em algum desses prêmios de jornalismo literário. Ou, quem sabe, até um Jabuti!

Por fim, viriam análises mais amplas. "Entenda como o casamento de Bolsonaro mexe com o seu bolso”. Ou: “Militares tramam golpe durante brinde em casamento de Bolsonaro”. Ou ainda: “Ministro do Meio Ambiente se engasga com canapé de pão com leite condensado enquanto a Amazônia arde em chamas”. E por aí vai.



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