sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Artigo, David Coimbra, Zero Hora - O pedido de aumento da ministra

O pedido de aumento da ministra escrava
Segundo ela, está sendo difícil “comer, beber e calçar”

O francês Alexandre Dumas Pai se gabava de ter escrito mil livros. Exagero. Na verdade, escreveu só uns 350.
Já seu conterrâneo Georges Simenon, criador do Inspetor Maigret, foi autor de nada menos do que 450 romances. Simenon tinha um método de escrita brutal: trancava-se em seu gabinete e atacava a máquina datilográfica com fúria sagrada, suando como se fosse um volante cobrindo os laterais, perdendo até um quilo por dia. Chegava a escrever 80 páginas em uma única jornada de trabalho. Certa vez, Alfred Hitchcock ligou para ele. A secretária atendeu e disse que Simenon não poderia falar, porque estava começando a escrever um romance. Hitch respondeu:
– Tudo bem, eu espero na linha até ele terminar.
Agora, o campeão dos campeões, o escritor mais prolífico da história é... um brasileiro! Chama-se Ryoki Inoue. Como você deve ter desconfiado, ele tem ascendência japonesa, mas é tão brasileiro quanto pão de queijo com guaraná. Ryoki fez com os livros o que Pelé fez com os gols: mais de mil. E o melhor: em geral, eles são bem vendidos.
Se você não conhece Ryoki é porque ele escreveu quase sempre debaixo de pseudônimos. De qualquer forma, é certo que você já viu seus livros: são aqueles pequenos romances policiais, de faroeste ou de espionagem, que, nos anos 1980 e 1990, podiam ser encontrados em qualquer banca de revista. Como Ryoki achava que um brasileiro de nome japonês não teria credibilidade ao escrever uma história que se passa no Velho Oeste americano, ele inventava nomes em inglês, tipo James Monroe, e botava para vender. E vendia, e vende ainda.
Depois de reclamar que o Brasil "não está sendo justo" com ela, jurou que trabalha "de segunda a segunda". Como Luislinda encontrou tempo para cometer 207 páginas em seu bem sustentado pedido de aumento?

Pensei nesses escritores prolíficos por causa da nossa ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois. Hoje nós a entrevistamos no Timeline, da Gaúcha, a propósito de uma polêmica envolvendo seu salário. Ocorre que a ministra é desembargadora aposentada, o que lhe rende R$ 30 mil mensais. O salário de ministro é de R$ 33 mil. Mas, como ela não pode ganhar mais do que o teto do funcionalismo, fica com R$ 3 mil dos ganhos do ministério, mais os R$ 30 mil da aposentadoria. Ou seja: R$ 33 mil. Luislinda acha pouco, por isso apresentou uma petição ao governo para receber os dois salários, o que daria mais de R$ 60 mil. Na petição, a ministra comparou sua situação com o trabalho escravo. Na entrevista que nos concedeu, perguntou, comoventemente:
– Como vou comer, beber e calçar?
Responda-me você: como alguém vai comer, beber e calçar ganhando R$ 33 mil?
Revoltante.
Mas não foi isso que me levou a escrever sobre a ministra, até porque parece que ela desistiu do pleito. O que me motivou foi o fato de que a petição que ela redigiu tem 207 páginas.
Você já pensou em escrever 200 páginas para pedir aumento de salário? Fica a dica.
Agora calcule: Luislinda assumiu em fevereiro deste ano. Suponho que ela deva ter se escandalizado com o salário ao ver o primeiro contracheque, em março. De lá para cá, são oito meses. Dá para escrever 207 páginas em oito meses, eu mesmo já escrevi um livro dessas dimensões em 40 dias. Mas eu fazia quase que só isso. Luislinda é ministra, imagino que tenha lá suas tarefas. Inclusive, no Timeline, depois de reclamar que o Brasil "não está sendo justo" com ela, jurou que trabalha "de segunda a segunda". Não tem nem o fim de semana de folga...

Sendo assim, como Luislinda encontrou tempo para cometer 207 páginas em seu bem sustentado pedido de aumento? Trata-se de um fenômeno de produção. O Simenon de saias. O Dumas de Brasília. O novo Ryoki. Esse Temer sabe escolher um ministro!

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