Ao ouvir a expressão "a Canarinho", todo mundo pensa na gloriosa seleção brasileira de futebol. Mas nem todo mundo sabe que o belíssimo uniforme oficial da seleção - camisa amarela com detalhes verdes, calção azul e meias brancas -, motivo do apelido "Canarinho", foi desenhado por um garoto de 18 anos. Em 1953, um jornal carioca, o Correio da Manhã, fez um concurso nacional para criar um uniforme em substituição ao usado na copa de 1950 (de triste lembrança). E Aldyr Schlee (1934-2018), natural de Jaguarão, RS, aos 18 anos, venceu o concurso.
O garoto Aldyr (torcedor do Xavante) viria a ser um jornalista várias vezes premiado, empreendedor, professor universitário e escritor. Mas, embora não gostasse, foi sempre mais lembrado por causa da "Canarinho".
Se tem um símbolo nacional que une os brasileiros, é a camisa desenhada por Aldyr Schlee. Mas, de uns bons anos para cá, há uma divisão. É que o "ódio do bem" pegou implicância com quem usa verde e amarelo. Esse é o contexto em que surgiu uma desconfiança, que exponho aqui.
Eu não estava ligado. De repente, gritou na tela um entusiasmo um tanto exagerado com o uniforme azul, recém-criado para a seleção. Suspeito...
Vale lembrar que a seleção tem uma camisa reserva, doutra cor. Em 1958, na final, a Suécia, dona da casa, usou amarelo e o Brasil teve de usar azul, seu uniforme reserva. Deu certo! Fomos campeões! E é o uniforme reserva que acaba de ganhar um novo design. É questão de patrocínio. O novo uniforme traz o logotipo da Jordan Brand, que pertence à Nike, a qual patrocina a seleção brasileira desde 1996.
Nisto, acendeu um sinal vermelho! Por que tanta exaltação? Se fosse do patrocinador, teria lógica. Mas o exagero tinha outra fonte.
A TV Globo, que, às vezes, comunica mais com caras e bocas do que com palavras, anunciou com ar ufanista que "o Brasil vai usar roupa nova no evento mais aguardado do ano". E assim descreveu o novo uniforme: "Uma identidade renovada e uma estampa baseada na fauna brasileira, o azul veio acompanhado de tons de preto. É mais uma transformação numa camisa que já teve várias inspirações ao longo do tempo."
"Este lançamento simboliza a união entre duas referências globais [Nike e seleção brasileira] que compartilham ousadia, inovação e paixão pelo esporte. (...) Estamos orgulhosos desse momento e confiantes de que este manto representará, dentro e fora de campo, a energia e a grandeza da nossa seleção", disse Samir Xaud, presidente da CBF.
"Jordan Brand e a nossa seleção se unirem é mais do que futebol, é cultura e grandeza juntas", disse um sociólogo, ou antropólogo, não sei, xará de um brasileiro que joga no Real Madri: Vinícius Júnior.
Lá por 2014 ficou notório que o brasileiro se reconciliava com as cores nacionais. Não foi o futebol, mas a indignação que começou a unir nossa gente. A população ia para as ruas vestindo verde e amarelo ou levando a Bandeira Nacional. E certos blogs, bem remunerados com "patrocínios" de empresas estatais, empenhavam-se em ridicularizar a indignação do povo, que ardia como brasa às notícias da Lava Jato. E a cor amarela era, sim, alvo do deboche de quem queria o povo quietinho.
Em 2018, multiplicou-se o amarelo nas ruas. E os tais blogs, reagindo com ódio, falavam de "gente com a camisa da CBF!". E na polarização meio louca do país ficou assim: o amarelo é dos indignados com a corrupção. Outra cor é dos idiotas úteis e, sobretudo, dos que apoiam a corrupção.
E agora, como eu sou meio paranoico, fico desconfiado dos exageros com que foi alardeado o novo uniforme reserva da seleção. Mas não acredito que cogitem dar, na malandragem, mais visibilidade ao azul do uniforme reserva e menos ao "Manto Canarinho". E se tiverem atrevimento bastante para fazê-lo, o resultado será aumentar a antipatia, que já é grande, pela indigna "frente do atraso nacional", da qual a Globo (que me fez o favor de alertar) é destacada colaboradora.
Espero que 2026 conte outra história, que o Brasil se vista de verde e amarelo, que a confiança do povo seja restaurada e a desconfiança desta crônica possa ser descartada e esquecida.
A seleção é Canarinho, não é Azulinho!
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