domingo, 10 de março de 2019

Artigo, Alon Feuerwerker - O que é, na essência, a contradição entre “o olavismo” e “os militares”


É erro político acreditar que alguém conseguirá tutelar um presidente da República recém-instalado e com a popularidade essencialmente preservada. Outro equívoco é imaginar que o presidente, por isso, pode fazer o que dá na telha. Ele decide, mas dentro de limites definidos, em última instância, pela correlação de forças no governo, nos demais poderes e na sociedade.

Costumam levar vantagem nas disputas internas do poder os núcleos mais organizados, disciplinados e dotados de clareza estratégica. E, sempre, mais conectados aos grupos de pressão social influentes. Outro detalhe: é comum a polarização em início de governo ser intestina ao próprio governo. Pois a oposição não carrega expectativa de poder.

O que acontece na administração Bolsonaro? Quadros provenientes das Forças Armadas estão, no popular, comendo pelas beiradas e ganhando espaço. “Os militares” vai propositalmente entre aspas no título desta análise. Não há no Planalto um “Partido Militar” atuando com comando centralizado e hierarquia, paralelamente ao presidente da República.

O bolsonarismo enxerga-se como uma revolução. E toda revolução costuma trazer duas tendências, que em certo momento entram em choque mortal: 1) a revolução precisa e quer expandir-se e 2) o novo poder, para consolidar-se e governar, precisa expurgar seus elementos mais “radicais”. E alguma hora precisa fazer a velha superestrutura trabalhar para o novo status quo.

A crise entre “o olavismo” e “os militares” é indicação de que a segunda tendência vai aos poucos prevalecendo sobre a primeira, e o processo nunca é linear ou indolor. Mas costuma ser irreversível. Num paralelo histórico que talvez desagrade ao bolsonarismo, este parece estar transitando da “revolução permanente” para o “bolsonarismo num só país”.

Não é casual que o choque mais visível e agudo apareça na política externa. O governo precisa decidir se a prioridade é 1) alinhar-se a - ou seguir a diretriz de - uma “internacional trumpista” ou 2) adotar para valer a linha de “o Brasil primeiro”. E isso vem sendo exposto na crise venezuelana. Como já vinha dando as caras em outros temas externos.

O desfecho ideal para o bolsonarismo na Venezuela seria uma “Revolução dos Cravos” de sinal trocado. A cúpula militar degolar o governo bolivariano sem derramamento de sangue, e promover rapidamente a transição pacífica para um regime constitucional alinhado ao “Ocidente”. Mas a coisa não parece estar tão à mão, ainda que cautela analítica em situações voláteis seja bom.

Se tal saída não rolar, até onde o Brasil está disposto a ir na colaboração com o “regime change” em Caracas? A questão, de ordem prática, talvez seja o foco mais emblemático da tensão entre as duas tendências. Que algumas vezes é explicada como oposição entre alas “adulta” e “infantil”, ou “racional” e “irracional”. São descrições insuficientes.

Uns parecem acreditar que a sobrevivência do bolsonarismo depende centralmente de livrar a América do Sul de qualquer núcleo de poder relacionado aos partidos do Foro de São Paulo. Outros talvez achem que é melhor cuidar de consolidar o poder por aqui mesmo, a arriscar um conflito de consequências políticas - regionais e internas - potencialmente desestabilizadoras.

Ambas as correntes têm argumentos. A favor da segunda, há duas coisas que governos precisam pensar muitas vezes antes de fazer: convocar um plebiscito e começar uma guerra. #FicaaDica.

3 comentários:

  1. Isso e' um artigo de opiniao.
    Mas se formos analisar ,realmente precisam ser expurgados os elementos radicais.
    Mas por incrível que pareça "radicais" são os militares.
    Eles estão sim,dentro do governo Bolsonaro,com uma onda contra-revolucionaria,isso e' radicalismo.
    Não e' uma questão ,no governo,de pesos e contra-pesos.
    Tinha-se um projeto de governo que Bolsonaro apresentou aos brasileiros.
    A população elegeu esse projeto através de Bolsonaro,e' um projeto sim revolucionário,fazer na política tudo de diferente ao que foi feito até agora,defendendo alguns propósitos básicos.
    Os militares não assumem essa visão.
    Não sou aluno de Olavo de Carvalho,não sou seguidor,tenho várias críticas a ele,mas ele tem uma visão global que carece a muitos de nós brasileiros.
    Está parecendo que aquela informação
    que surgiu há um mês,sobre tutela militar,possa estar se desenrolando.
    Para os sensatos,que me incluo,veremos se é isso ou simplesmente como o artigo diz a eliminação de elementos radicais no governo que tem essa visao do Olavo.
    Agora, está sendo o governo mais estranho até aqui no Brasil.

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  2. Se dizes que os militares são radicais, precisas apontar quais atos concretos dos militares que estão no governo. Caso contrário é somente mera opinião.
    Quanto ao radicalismo precisas ser imparcial de relatar o radicalismo dos governos do PT, que expulsaram seus próprios correligionários por terem opiniões críticas dentro do partido, a Heloisa Helena e tantos outros são exemplo.

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