quarta-feira, 27 de março de 2019

Entrevista, Gustavo Grisa, economista - A aprovação do orçamento impositivo é reação do fisiologismo do Congresso


Para o economista Gustavo Grisa, da Agência Futuro, que está hoje em Brasília, a aprovação do orçamento impositivo também é reação do "sistema" fisiológico e de privilégios de Brasília diante da dificuldade do governo em encaminhar as reformas.

P-O que significa a aprovação do orçamento impositivo?
G-A aprovação do orçamento impositivo pela Câmara representa uma sinalização da dificuldade e complexidade em levar adiante reformas, mesmo que essas sejam praticamente consenso no mercado e condição necessária para o País retomar o prumo. E demonstra, pela votação massiva, um consenso que não tem Partido, não tem direita, esquerda, mas que significa a manutenção do "sistema" político-fisiológico de pulverização de favores, emendas, pouca responsabilidade fiscal.

P- A aprovação do orçamento impositivo é um retrocesso no processo de reformas?
 G-O Ministério da Economia e outros membros do Governo fazem um grande esforço para aprovar e levar adiante reformas importantes, como blindar a contratação de indicações políticas sem qualificação em cargos-chave no governo, extinguir cargos e realmente reconfigurar a estrutura de governo. No entanto, outras áreas do mesmo governo erram de alvo ao privilegiar uma pauta conservadora de costumes, política externa de símbolos e imposição de ideias em vez de esforçar-se mais na pauta de reformas, modernização e de enfrentamento inteligente ao sistema de privilégios nos Três Poderes, com muitas ramificações, à esquerda, centro, ou direita, que é realmente o adversário mais forte da modernização do País. Dessa forma, deixa de angariar apoios para uma pauta de união, de convergência, e não de divisão. O orçamento impositivo demonstra que este sistema político e de privilégios tem dificuldade em fazer concessões a reformas deste e de qualquer outro governo, se não houver convergência de ações e uma demonstração de articulação e direção. Diante de sinal de fraqueza do Executivo, o "sistema" faz a festa. Sempre foi assim.

P- O que acontece se a reforma da Previdência não for aprovada?
G- Qualquer reforma da Previdência é importante que seja aprovada, para melhorar as contas públicas e dar fôlego para o governo e um sinal positivo para o País. A discussão de detalhes e a resistência de setores representa a defesa de interesses, mas, na prática, é sabido que haverão necessariamente outros pacotes de reforma em anos seguintes. Portanto, discutir muito uma reforma que não será definitiva é a tentativa, totalmente fora da realidade, de manter privilégios e não reconhecer as mudanças da sociedade. As contas públicas do Brasil não fecham, uma pauta de reformas em todos esses próximos anos é inevitável. Mesmo que haja um problema de e articulação, a tendência é que alguma reforma seja aprovada, mesmo que seja o modelo antigo, apresentado no governo Temer. Senão, seria muita irresponsabilidade que sequer o "sistema" aguentaria. O País ainda está quase parado, não há muito espaço para mais irresponsabilidade, os mais sensatos em todas as áreas sabem disso.
P- A análise de cenários feita ao final do ano continua valendo?
G- Totalmente, ela foi feita para todo o ano. Os cenários estão se configurando, mas não se definem antes do final do primeiro semestre.

Um comentário:

  1. Essa é uma análise bem realista da situação. Falta fazer o dever de casa. O Governo não pode apenas fazer o que deve, tem que se esforçar mais. Onde está o líder?

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