Artigo, Renato Sant'Ana - Ouvinte


           Quem ouve rádio, como este escriba, escuta muita besteira. Bem, a frase está mais errada que certa. Mas esclareço depois.
          Como de hábito, ao café da manhã, o rádio estava ligado. Num programa "interativo", como são todos hoje em dia, isto é, que conta com a participação ativa dos ouvintes. Daí o apresentador leu no ar a mensagem remetida por um de seus interativistas costumeiros, que dizia: "Será que alguém que tenha um neurônio funcionando ainda acredita que este 'bananão' tem jeito?". Explico. Era o lugar comum de maldizer o Brasil, o nosso amado "bananão". Já não importa o objeto de sua revolta
          Fiquei pensando. Ora, todos os dias, por toda parte, alguém fala que este país não tem mais jeito. Será? A esse costume esdrúxulo (brasileiro falando mal do brasileiro) eu sempre reajo, nem que seja silenciosamente. É que teimo em achar motivo para ter esperança. Mas serão racionais os meus motivos? (Com mais de um neurônio funcionando...)
          Outro hábito que tenho (nesse caso, meio involuntário) é o de andar a pé pela cidade, o que implica permanente contato com a fauna humana - às vezes, agradável; às vezes, sem graça; outras tantas, de entristecer. Fato é que, cotidianamente, sou testemunha das mais genuínas demonstrações de afabilidade, de bonomia e de flagrante "consideração pelo outro" (qualidade inestimável), assim como igualmente presencio indisfarçáveis demonstrações de grosseria, prepotência, desrespeito e "falta de consideração pelo outro" (debilidade tão comum quanto censurável).
          Em suma, a todo tempo observo as "contradições humanas". Acho que farei melhor se disser "as nossas contradições!". E ficaria eu de fora?
          Aliás, cometeria um erro se imaginasse que a população está segmentadamente dividida entre bons, médios e maus. Ainda que se encontre um instrumento para classificar condutas, e as pessoas possam ser rotuladas, mais exato será afirmar que em todos nós há um rol de características contraditórias. Quem é que nunca tem o seu momento de maldade? E quem jamais se enternece à presença de outrem? Tudo bem, os psicopatas estão fora dessa!
          Como se vê, a frase lá de cima está mesmo mais errada que certa. Porque não é quem ouve rádio que escuta muita besteira, mas é quem interage com pessoas. Mais amplo. Simplificando um pouco, dizer bobagens é eventualidade de quem fala! Qual é o sábio que nunca disse uma tolice? Mas, também, qual é a boca ingênua que jamais pronunciou uma verdade?
          Errado está igualmente, pois, o pessimismo do nosso interativista. Há um equívoco ou, no mínimo, uma grande imprecisão em sentenciar o brasileiro como um povo perdido e sem futuro, incapaz de construir o país decente que ainda não temos.
          Não, como qualquer população de Homo sapiens, o brasileiro é, isto sim, um grande poço de contradições. Tem defeitos notórios, é certo. Mas, com boa vontade, é fácil ver qualidades nessa gente sem disciplina, barulhenta (que fala alto demais), frívola e um tanto impertinente, porque, acima de tudo, tem um imenso potencial de generosidade, o que não é pouca coisa.
          Não me estou opondo aos que pensam que o país de nossos sonhos será edificado somente pelos bisnetos de nossa geração. Talvez vá ser mesmo assim! Entretanto, vamos pôr a mão na consciência e perguntar: quando esses bisnetos, lá do futuro olharem para o passado (que é o nosso presente), o que é que vão enxergar? Será que vão concluir que os seus bisavós só legaram pessimismo, atitudes negativas, descrenças e queixumes? Será que não nos vão acusar de uma tremenda preguiça de pôr mãos à obra e fazer um presente melhor?
          Não vou negar que também eu, amiúde, fico pessimista. Vezes há em que sou nocauteado pelo desânimo. Mas trato de sair das cordas e caminhar de novo para o centro do ringue. E se não posso brandir o estandarte do otimismo na cara do oponente, ao menos me apresento armado de esperança. E sigo acreditando em que, sim, somos capazes de fazer do Brasil um país auspicioso. e, depois de tudo, a quem interessa o nosso desânimo?
Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.



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