Há filmes que estouram no cinema e desaparecem. Outros passam quase despercebidos nas bilheterias — e ganham força anos depois, quando encontram o público certo. Foi exatamente assim que aconteceu comigo ao assistir Miss Sloane — lançado no Brasil como Armas na Mesa — hoje disponÃvel no streaming do Prime Video.
Não vi na época do lançamento. Não fez grande sucesso comercial. Mas visto agora, com o distanciamento do tempo e a maturidade do debate polÃtico contemporâneo, o impacto é outro. É um filme que cresce — e muito.
Jessica Chastain constrói uma personagem que não pede simpatia. Ela impõe respeito. Elizabeth Sloane é uma lobista que vive no limite da estratégia, da ética e da exaustão. Seu mantra é simples: para vencer, é preciso estar sempre um passo à frente. Não um discurso à frente. Um passo.
E é aà que o filme deixa de ser apenas entretenimento e se torna reflexão.
Miss Sloane não é baseado em fatos reais. Mas é profundamente verossÃmil. Quem acompanha polÃtica sabe que as grandes decisões raramente nascem no plenário. Elas são moldadas antes — em escritórios discretos, reuniões estratégicas, jantares privados, memorandos cuidadosamente redigidos.
O filme revela esse subsolo institucional onde interesses econômicos e ideológicos disputam influência. Não há caricaturas. Não há vilões de desenho animado.
Há profissionais competentes defendendo causas opostas, cada um convencido da própria legitimidade. E isso é o que torna tudo mais inquietante.
O tema não é exclusivo deste longa. O cinema já explorou o universo do lobby sob diferentes ângulos. Em Thank You for Smoking, a sátira afiada mostra como a retórica molda a opinião pública no lobby do cigarro.
Em The Insider, vemos os bastidores da indústria do tabaco e o peso das pressões corporativas.
Dark Waters aborda a influência empresarial no setor quÃmico e seus impactos na saúde pública. E Dallas Buyers Club, ainda que não trate de lobby tradicional, expõe as tensões entre indústria farmacêutica, regulação e acesso a medicamentos.
Cada um revela uma face distinta da mesma engrenagem: a disputa organizada por influência.
Mas Miss Sloane se diferencia porque mergulha na técnica. No cálculo. Na engenharia polÃtica. Não é sobre escândalo. É sobre método. É sobre compreender que, em Washington, quem reage já perdeu.
O suspense nasce da inteligência e do realismo. Da capacidade de antecipar movimentos. Elizabeth Sloane trabalha como um enxadrista em ritmo calculado. E o filme nos obriga a perguntar: até onde vale tudo para vencer? Existe vitória quando o custo é pessoal, emocional e moral?
Assistido hoje, o longa parece ainda mais atual.
Vivemos uma era de polarização, de debates intensos sobre regulação, armas, saúde, tecnologia. O lobby continua sendo parte estrutural da democracia americana — e, de formas distintas, de qualquer sistema polÃtico moderno.
O filme não condena nem absolve. Ele expõe. E ao expor, incomoda.
Talvez por isso não tenha sido um sucesso imediato de bilheteria. É denso. Exige atenção. Não entrega conforto.
Porém, visto no tempo certo, é um daqueles filmes que ficam na cabeça. E nos lembram que, no jogo do poder, não basta estar certo. É preciso estar um passo à frente.
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Felipe Vieira
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