sábado, 11 de junho de 2016

"Sinto uma ausência de limites"

O antropólogo Roberto DaMatta afirma enxergar relação entre o que acontece em altas esferas, como as de Brasília, e episódios mais simples, como furtos de donativos e merenda de escola. Confira, a seguir, trechos da entrevista.

Que interpretação é possível fazer sobre os três episódios ocorridos no Estado?Estamos vivendo um momento de assombro. Na primeira página do jornal, aparecem esses fatos degradantes, que são roubar escolas ou quem está fazendo caridade, ao lado da fotografia dos ladrões que estão na Câmara Federal. Fica complicado.

O senhor vê relação entre o que acontece nas altas esferas, como o Congresso, e episódios mais simples, como os registrados no Rio Grande do Sul?
Sem dúvida, porque elas estão no mesmo caldo cultural. É uma ausência de direção. Estamos vivendo um estado de anomia. Esse estado de anomia na política é óbvio. Estamos perdendo no Brasil o senso comum.

Como é que se dá a relação entre esses episódios de diferentes esferas?
Quem vive em sociedade vive numa rede. Quando falamos em moralidade, estamos falando de uma teia de relações. Se você mexer em um ponto dessa rede, afeta a rede inteira. Veja que no Brasil, hoje, estamos com dois presidentes da República. É brincadeira! O japonês da Polícia Federal é preso como contrabandista. Dá vontade de se suicidar!

Fazendo um paralelo, no caso do roubo dos computadores da escola parece haver o envolvimento de um policial.
Assistimos a uma desilusão com códigos importantes de convivência humana, sobretudo quando se trata de instituições críticas para a sociedade, como aconteceu em Porto Alegre. Você vai assaltar escola? Bandido, pra mim, assalta banco, joalheria, mas não escola. Sinto uma ausência de limites.

É razoável esperar que mesmo bandidos tenham algum parâmetro ético e poupem escolas ou donativos para necessitados?

O que se espera é que aconteça alguma coisa com esses bandidos. O que não pode acontecer é um mês depois esse mesmo bandido cometer um crime igual, que é o que a gente vê no jornal.

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