quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Valorização do câmbio corta rentabilidade do exportador (Editorial)

O bom desempenho da balança comercial vem chamando a atenção ao longo do ano e é um dos principais fatores que explica o surpreendente ajuste das contas externas, que vai sair de um déficit de 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 para um superávit estimado em 1% do PIB neste ano. Em setembro, a balança comercial registrou superávit de US$ 3,8 bilhões, o melhor em dez anos para o mês. No acumulado do ano, o superávit chega US$ 36,17 bilhões, o maior da série histórica. Há várias indicações, porém, de que os ventos estão mudando. A balança continuará no azul, positiva, mas deve deixar para trás os resultados superlativos.
Inicialmente, o desempenho extraordinário foi creditado à redução das importações, causada por um fator negativo, o segundo ano consecutivo de recessão econômica. Mas nota-se uma ligeira desaceleração no recuo das importações. De janeiro a setembro, as importações totalizaram US$ 103,19 bilhões, com queda de 23,9% em comparação com igual período de 2015; em agosto, a queda acumulada no ano era de 25,5%. A perspectiva é que as exportações aumentem à medida que a economia reagir. Reforça esse argumento a desaceleração já notada da queda da importação de bens intermediários, que foi de 2,3% em setembro, categoria que engloba componentes da produção industrial.
Colaborou também para balança comercial a melhora das exportações, que somam US$ 139,36 bilhões no ano, com queda de 4,6% em comparação com igual período do ano anterior. O destaque são os produtos industrializados, cujas vendas externas aumentaram 3% em setembro, com variação de 0,1% no ano, puxadas pelos bens semimanufaturados, uma vez que os manufaturados caíram 3,1% em setembro e 1,4% no ano. Nos produtos básicos, as exportações dependem do comportamento de preços de commodities e da demanda internacional, que segue fraca.
Desse lado da balança, o que preocupa, porém, é o câmbio, cuja apreciação nos últimos meses, em ambiente de volatilidade acentuada, compromete a competitividade dos produtos brasileiros. Quando o câmbio está mais desvalorizado, como em 2015 e início deste ano, o exportador reduz o preço da exportação em dólar para atrair o comprador. A estratégia pressiona para baixo a rentabilidade, mas possibilita aumento no volume de exportação, muitas vezes compensador. Além disso, ajuda em um momento em que a demanda interna desaquecida torna difícil para a indústria manter um nível mínimo de produção e os estoques ajustados.
A apreciação do real nos últimos meses tirou do exportador a flexibilidade para baixar preços e ganhar mercado. Estudo da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior mostra que, em agosto, a redução de preços médios foi de apenas 1,2% em comparação com 10,6% no acumulado do ano. A apreciação também prejudica a margem de ganho e a competitividade da exportação da indústria de transformação. No acumulado até agosto, período que inclui meses de forte depreciação do real no início do ano, o dólar apresenta desvalorização de 17,1% em comparação com igual período do ano passado. Mesmo assim os exportadores de manufaturados perderam 4,2% na margem de lucro. O que tirou a rentabilidade no período foi a queda de preços médios possibilitada exatamente pela depreciação da moeda nacional. Já em agosto, com a apreciação cambial nominal de 8,7%, a rentabilidade da indústria caiu 15,3% em relação a igual mês de 2015.
Na indústria extrativa, a forte queda de preços e a alta de 8,8% no custo de produção neutralizaram o efeito benéfico que a desvalorização do trouxe para o lucro do setor.
A perspectiva é que o câmbio não continue a impulsionar as exportações daqui para frente. Dados trimestrais mostram a desaceleração do volume embarcado de manufaturados, que cresceu 13,7% no último trimestre de 2015 em comparação com igual período de 2014, 12,3% de janeiro a março deste ano e 9,2% no segundo trimestre, sempre na mesma base de comparação. Apesar da iminente alta dos juros americanos, o programa de repatriação de recursos e o retorno da confiança a partir da aprovação de medidas fiscais como a PEC 241 devem contribuir para valorizar o real. O BC reduziu a previsão do superávit comercial deste ano de US$ 50 bilhões para US$ 49 bilhões; e o Ministério da Indústria trabalha com US$ 45 bilhões a US$ 50 bilhões

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