terça-feira, 21 de novembro de 2017

Artigo, Tito Guarniere - William Waack não é racista

Artigo, Tito Guarniere - William Waack não é racista
O episódio de "racismo" do jornalista William Waack encerra várias lições, nenhuma para ser tomada como exemplo. O menos culpado de toda essa onda é o jornalista. Tenhamos paciência: não é possível que uma expressão dita em privado (embora gravada), há um ano atrás, em determinada circunstância, sem a intenção de ofender ninguém, se transforme em um caso de racismo.
O muito de que se pode inculpar Waack é de um desabafo, desses que nós fazemos todos os dias no trânsito, talvez com outras palavras, quando alguém dá uma fechada no nosso carro, quando manifestações de protesto impedem a nossa livre locomoção, quando ferem nossos ouvidos com a buzina estridente, quando temos de aturar o nosso próprio mau humor e o dos outros.
Contam-se todos os dias, em todos os ambientes, piadas de preto, loura burra, japonês, português, judeu (como Waack), gringo americano, gringo argentino e gringo italiano. Se a gente levar na ponta da faca, se estivermos tomados de uma má vontade doentia, de um pessimismo mórbido, são atos de racismo, muito piores do que aquele atribuído a William Waack. Mas se formos apenas normais, então entraremos no jogo e daremos risada. É parte saudável de nós acharmos graça de nossas mancadas, misérias e fraquezas. E quem - digam com sinceridade -, quem já não riu de uma piada de baiano, de gaúcho, de barriga-verde? E somos racistas por ouvi-las sem reagir e ainda rindo à solta?
E Waack, como sabemos agora, é daqueles que faz humor sobre si mesmo, sua idade, suas olheiras. Racistas não riem de si mesmos. Rir de si mesmo é sinal seguro de equilíbrio e sanidade.
E no entanto, a expressão dita em momento de raiva, ou por pura ironia, transformou Waack em uma espécie de monstro racista, enxovalhado impiedosamente nas redes sociais. A não ser uns poucos, ninguém olhou o conjunto da obra, os 40 anos de carreira de um dos jornalistas mais completos e competentes do país, feita de retidão, honestidade e profissionalismo. Massacraram-no sem comiseração, em uma das campanhas mais sujas que já houve por aqui.
A maior parte dos ataques foi de gente que não gostava do jornalista, de sua independência e visão de mundo. O fato é que Waack não pertence à grei comum do jornalismo brasileiro, que faz o fácil , que se compraz com a versão barata, que publica matérias com a profundidade de uma poça d’água. O que não lhe perdoam é o sucesso, a inteligência, o domínio pleno do seu ofício. A revista Veja lhe dedicou matéria de capa que mal disfarça o prazer pelo "erro" de Waack.
Talvez a independência de Waack estivesse incomodando a Globo, hoje em dia tão empenhada em se mostrar politicamente correta, porta-voz de minorias exaltadas, excludentes, que, para o fim de impôr seus valores, destilam fel, desancam, desmerecem e listam no rol de inimigos todos aqueles que não se filiam aos seus sindicatos, não aderem incondicionalmente às suas causas.
A Globo, a velha Globo, ao suspender e tornar pública a suspensão de Waack, porque tudo "indicava" que ele cometeu um ato de racismo, escreveu uma página pouco edificante na sua história.


titoguarniere@terrra.com.br

5 comentários:

  1. a honra, o carater, sucesso e o bem fazer, incomoda muitas pessoas

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  2. Independente do profissional, o gesto não deixa de demonstrar o lado racista.
    Foi racismo, sim.

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  3. Concordo plenamente com a teoria escrita, mas sinto muito, o mundo real é assim. Se na internet eu - que não sou ninguém - tenho cuidado com o que eu escrevo... uma figura publica em volta de cameras tem a responsabilidade de viver no pavor e cuidar 100%.
    Não gostou? Eu também não gosto. Gostar é pre-requisito para aceitar?

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