domingo, 15 de outubro de 2017

Artigo, Leo Iolovitch - O fim do comunismo e o Memorial a Prestes em Porto Alegre

O texto a seguir foi escrito por Leo Iolovicht em1991 e foi publicado no livro "O sapato do Pirada, 1995. Nele o escritor gaúcho previa: "Por tudo isso, talvez se apele ao Oscar Niemeyer (é claro que seria ele, sempre ele) para fazer um "Memorial ao Comunismo".O ideal seria construir ali na av. João Pessoa, ao lado do templo Positivista, para se cultuar a memória do Comunismo.Um enorme casarão vermelho seria ótimo". 26 depois, Iolovitch acertou a previsão. Errou apenas o local, porque o memorial vai ser inaugurado junto ao Parque da Harmonia.

Abaixo o texto, que é da época da queda do regime da URSS.

O FIM DO COMUNISMO
Os recentes acontecimentos na União Soviética determinaram o fim do comunismo.
Quase todos concordam com esta conclusão. O que parece difícil é entender ou tentar explicar este fenômeno.
Afinal, o Comunismo era algo importantíssimo no Mundo. Milhões de pessoas viviam sob o regime Comunista. Este quadro tinha uma aparente durabilidade, parecia algo sólido, estável e que permaneceria durante séculos. Os comunistas eram ardorosos defensores de suas idéias, todos nós conhecemos diversos de seus seguidores, entre os quais se incluiam algumas pessoas bastante respeitáveis. A pretensão dos comunistas era expandir o regime e, para eles, o Mundo só seria bom, quando todos os países fossem comunistas.
Aí, de repente, ploft. Acabou !
Desmoronou igual a um castelo de areia.
A revolta das populações,que viviam sob o regime, contra o sistema, foi de tal ordem, que não deixou dúvidas, quanto ao repúdio a este tipo de governo.
E agora ? Algo tão importante e tão presente em nosso cotidiano deixa de existir. Como poderemos explicar aos nossos filhos, daqui a cinco ou dez anos, o que era o Comunismo? Nós quando jovens nos inspirávamos na bonita e romântica figura do "Che" Guevara. Será que surgirão sucedâneos para as novas gerações ? Com certeza não serão os " band leaders" de grupos de rock. Pois o romantismo irracional do "Che", morrendo esfaimado, lutando numa guerrilha impopular, num país estranho, em nome de uma idéia e da igualdade, tinha um apelo fantástico. Sua frase que prega a dureza, sem perder a ternura, era um hino para nossa juventude sonhadora.
Porém, se ele estivesse vivo, veria a revolução cubana transformada numa das últimas ditaduras da Terra. Os tempos modernos não deixam mais espaço para heróis como antigamente...
E aqueles senhores bonachões?
Alguns tão bem formados intelectualmente. Tão seguros em suas convicções. Reagiam com desprezo, quando se criticavam as ditaduras dos países comunistas, dizendo que era coisa da propaganda imperialista.
Onde estarão eles ?
A revista Seleções era considerada o porta voz reacionário do capitalismo internacional, porque costumava denunciar os horrores das ditaduras comunistas. Hoje, tudo leva a crer que ela tinha razão.
E lá se foi o Comunismo.
Com ele vai também um pouco de nós, que vivemos este período. Fica uma estranha sensação de envelhecer mais rapidamente.
Por isso, quando alguém mais jovem nos perguntar, no futuro, pelo Comunismo, a explicação deverá ser algo semelhante, ao que acontecia quando perguntávamos aos nossos pais sobre o Positivismo...
Augusto Comte, Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, "Ordem e Progresso", aquele estranho templo ali na av. João Pessoa, tudo são evocações do Positivismo. Uma corrente do pensamento que dominou o nosso Estado no início do século. Que foi importantíssima naquela época, hoje não passa de um amontoado de lembranças esparsas e bizarras. Quem diria?
Com o Comunismo será a mesma coisa ?
Livros da Editorial Vitória, obras completas de Marx & Engels, bandeiras vermelhas, visitas ao túmulo de Marx em Londres, o Materialismo Histórico, o Realismo Socialista,
discos com a Internacional, fotos de churrascos em homenagem ao Jorge Amado e ao Prestes, souvenirs dos Congressos Internacionais da Paz, posters de Rosa de Luxemburgo , tudo é passado.
Mas não jogue fora. Nem precisa esconder. Felizmente o DOPS e outras criações monstruosas do regime autoritário também não existem mais. Não há mais condições para ditaduras, sejam de que tipo for.
Mas qual será a utilidade futura deste espólio, supostamente ideológico?
Poderão vir a ser solicitadas em gincanas, como raridades, ou no Brique pode ser criado um mercado de trocas; algo assim como:
"Troco uma coleção encadernada da Seleções pelas obras completas de Stalin. Ou uma camiseta do Partidão por um par, mesmo usado, de tênis Nike. Ou, ainda, um LP do Taiguara por qualquer coisa ou coisa nenhuma."
Por tudo isso, talvez se apele ao Oscar Niemeyer (é claro que seria ele, sempre ele) para fazer um "Memorial ao Comunismo".O ideal seria construir ali na av. João Pessoa, ao lado do templo Positivista, para se cultuar a memória do Comunismo.Um enorme casarão vermelho seria ótimo. Encerrando esta Sessão Nostalgia sobre o finado Comunismo fica a derradeira constatação :
Lá na Disneyworld. No World Showcase,o espaço das nações do Epcot Center, será construída uma bela e grandiosa reprodução da Praça Vermelha, do Kremlin e todo seu interessante conjunto arquitetônico. E o que é mais extraordinário, face à manifesta rejeição dos moscovitas, os restos mortais de Lênin seriam retirados da capital russa . A solução seria transferi-los para a Flórida.
O Mausoléu de Lênin na Disneyworld, com visitação paga e direito a um passeio na "Montanha Russa" seria a suprema derrota do Comunismo. Mas na velocidade em que os fatos estão acontecendo não seria de duvidar.
Mesmo belas idéias, quando se valem da força, terminam assim...
Afinal, a história e a vida costumam ser implacáveis com a mentira e a opressão.
Com todos os seus defeitos não existe regime melhor que a democracia.
O patético fim do Comunismo pode surpreender alguns. Mas não seria de estranhar que viesse a ocorrer. Não poderia dar certo um movimento, sedizente popular, cuja palavra de ordem era: "Uni-vos!"
Desculpe-nos Karl.
A teoria na prática não deu certo.
Velho de barba branca agora só: Papai Noel.
PS.
Esta crônica foi escrita em agosto de 1991, quando o regime comunista na antiga União Soviética estava quase terminando.

Os fatos vieram a confirmar as previsões. Cabendo destacar um aspecto curioso. Em julho de 1992, visitando o Hard Rock Café, em Orlando na Flórida, encontrei ao lado dos painéis dedicadas a imagens e objetos de Elvis Presley, John Lennon, James Dean e outros ídolos da juventude americana, uma parede inteira com fotos e posters de Lênin...

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