Pedro Rodrigues, de nove anos, nasceu prematuro com apenas 29 semanas, e passou 37 dias internado até receber alta – sendo dez deles na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Nos primeiros meses, tudo parecia dentro do esperado: o crescimento não estava afetado e não havia sinais de alterações no desenvolvimento. Mas, por volta dos seis meses de idade, os pais perceberam que Pedro tinha dificuldade para realizar alguns movimentos comuns para a idade dele. Após uma série de exames, veio o diagnóstico de paralisia cerebral - condição que afeta o controle dos movimentos e da postura e que, segundo o Ministério da Saúde, registra cerca de 30 mil novos casos por ano no Brasil.1
Rosiane Meneguetti, mãe do Pedro, conta que, ao perceber as dificuldades do filho para realizar alguns movimentos, iniciou uma investigação com um neurologista. Após a realização de uma tomografia e uma ressonância magnética, foi identificada uma lesão no lado direito do cérebro. “Não sabemos em qual momento aconteceu a lesão. Nos exames do pré-natal e durante a internação no hospital, não foi dito nada pra gente que ele poderia ter paralisia”, relembra.
Com o diagnóstico, Pedro passou a ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar formada por fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. O tratamento tem sido essencial para estimular o equilíbrio, a coordenação e a independência nas atividades do dia a dia. “No início, ele precisava de muito apoio para se sentar. Hoje, com o uso do andador, se desloca com mais segurança e participa das brincadeiras e das atividades que gosta”, conta Rosiane.
á o pai, Adriano Rodrigues, reforça a importância de adaptar o cuidado conforme Pedro cresce. “Ele está numa fase em que entende melhor as orientações, então procuramos incluir o esporte como parte do tratamento. Isso ajuda não só na parte física, mas também na convivência com outras crianças”, explica.
Para a família, o acesso ao tratamento adequado e o acompanhamento especializado têm sido fundamentais para o desenvolvimento de Pedro. “Cada etapa traz novos aprendizados, tanto para ele quanto para nós. O tratamento faz diferença porque permite que ele participe das atividades do cotidiano com mais conforto e independência”, conclui Rosiane.
Entenda a paralisia cerebral
Considerada um grupo de distúrbios que engloba dificuldade de movimentação e rigidez muscular ou postural (espasticidade)2, a paralisia cerebral (PC) costuma resultar de uma lesão no cérebro ainda em formação – durante a gestação, parto ou na primeira infância. Entre os fatores de risco estão a falta de oxigenação no cérebro (hipóxia), prematuridade, infecções durante a gestação e traumatismos. Segundo a neuropediatra e fisiatra Carla Caldas, o diagnóstico precoce ainda é um desafio, mesmo com os avanços em neuroimagem e nas ferramentas de avaliação do desenvolvimento. “Faltam protocolos de triagem e profissionais capacitados para aplicar avaliações mais modernas”, aponta.
Os sintomas e o grau de comprometimento variam conforme a extensão e a área da lesão. A PC pode se manifestar nas formas espástica (rigidez muscular), discinética (movimentos involuntários), atáxica (problemas de equilíbrio e coordenação) ou mista, que combina mais de um tipo.3 “Alguns pacientes apresentam apenas leve desequilíbrio, enquanto outros podem ter limitações motoras graves, o que exige órteses, andador ou cadeira de rodas. Também não podemos deixar de pontuar os impactos cognitivos”, explica a neuropediatra.
Embora a condição não seja progressiva, pode afetar funcionalidades ao longo do crescimento. “A PC não progride, mas os sintomas mudam com o tempo. Sem cura, o cuidado multidisciplinar precoce e constante é essencial para promover qualidade de vida e independência”, afirma a especialista.
O tratamento deve ser contínuo e adaptado a cada fase da vida, envolvendo uma equipe multidisciplinar, tecnologias assistivas e medicamentos. “A toxina botulínica tipo A é uma das terapias para reduzir espasticidade e distonia. Quando utilizada em conjunto com o envolvimento ativo da família e do paciente, o acompanhamento do neuropediatra e do fisiatra, além do trabalho integrado da equipe multiprofissional, contribui significativamente para a melhora da amplitude dos movimentos, do conforto e da funcionalidade em atividades cotidianas, como caminhar, vestir-se e alimentar-se”, conclui Carla.
Referências
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1 BRASIL. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde (BVSMS). Unicamente PC: 06/10 – Dia Mundial da Paralisia Cerebral. Brasília: BVSMS. Disponível em: Link. Acesso em: 6 out. 2025.
2 BRASIL. Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: Link Acesso em: 03 out. 2025.
3 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: Link. Acesso em: 6 out. 2025.
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