Em 2018, quando presidi a Comissão Externa do Endividamento do Setor Agropecuário na Câmara dos Deputados, os números já eram alarmantes. Naquele momento, o volume do crédito rural brasileiro registrado no sistema financeiro já alcançava cerca de R$ 247 bilhões, com bilhões em operações renegociadas, atrasadas e inadimplentes.
Mas o que apresentávamos naquele período não era apenas um diagnóstico contábil do agro brasileiro. Era um alerta claro de que o país estava permitindo a construção de uma crise silenciosa no campo.
Na época, defendíamos medidas estruturantes para reorganizar o endividamento rural: alongamento das dívidas, revisão de garantias, crédito compatível com a realidade produtiva, fortalecimento do seguro rural e políticas permanentes de gestão de risco climático.
Alertávamos que, sem enfrentar o problema de forma séria, o endividamento poderia se tornar incontrolável.
Infelizmente, ninguém fez nada.
Os governos passaram, medidas paliativas foram anunciadas em momentos de crise, mas nenhuma solução definitiva foi construída. O problema apenas foi sendo empurrado para frente, safra após safra, seca após seca, enchente após enchente.
Agora, os números mostram que aquele alerta estava correto.
Reportagem recente da Globo Rural aponta que uma ampla renegociação das dívidas do agro poderá custar até R$ 150 bilhões para a União já em 2027. O custo para a União chega a R$ 817 bilhões ao longo dos próximos 13 anos, segundo cálculos da equipe econômica do governo.
Mas o dado mais preocupante da reportagem é outro: estimativas já indicam que o endividamento total do setor agropecuário brasileiro pode alcançar R$ 1,39 trilhão.
E há um agravante enorme nesse cenário.
Grande parte dos números conhecidos considera apenas as dívidas registradas no sistema financeiro oficial — operações bancárias, crédito rural formalizado e financiamentos controlados.
A realidade no campo é muito maior.
Existe uma gigantesca parcela de dívidas fora do sistema bancário tradicional: débitos com cooperativas, cerealistas, revendas, fornecedores de insumos, barter, tradings, distribuidoras, operações privadas e renegociações informais feitas para manter o produtor produzindo.
Essa dívida paralela é praticamente incalculável e, em muitas regiões, já representa mais da metade do endividamento total do produtor rural brasileiro.
Ou seja: o problema real é muito maior do que os números oficiais conseguem mostrar.
O Rio Grande do Sul talvez seja hoje o retrato mais dramático dessa situação. Depois de anos consecutivos de secas severas e, mais recentemente, das enchentes devastadoras, milhares de produtores perderam renda, patrimônio e capacidade de investimento. Muitos seguem produzindo apenas porque fornecedores, cerealistas e cooperativas continuam sustentando financeiramente o sistema.
O problema deixou de ser apenas do produtor rural.
Hoje, trata-se de uma ameaça econômica nacional, que atinge emprego, arrecadação, exportações, abastecimento e a própria estabilidade das comunidades do interior do Brasil.
O custo de não ter enfrentado esse tema em 2018 agora aparece de forma muito mais pesada para toda a sociedade brasileira.
Se tivéssemos construído uma política séria de reestruturação do passivo rural naquela época, o impacto atual certamente seria menor.
Mas preferiram ignorar os alertas.
O que era preocupante em 2018 tornou-se extremamente grave em 2026. E, se o país continuar tratando o endividamento agropecuário apenas como um problema momentâneo, o futuro poderá ser ainda mais difícil e imprevisível para o agro brasileiro e para toda a economia nacional.
Jeronimo Goergen
Advogado, Ex Deputado Federal, Relator da a comissão Externa do Endividamento Agropecuário
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