República do Supremo que pode tudo

por Folha de São Paulo 

“Para um ministro do Supremo Tribunal Federal, tudo. Para os demais cidadãos, a lei —tal como amplamente interpretada por um ministro do Supremo. Cristaliza-se no Brasil um regime anômalo de prevalência de dez indivíduos sobre o restante da sociedade.


Como se vê pelas decisões de Alexandre de Moraes, a latitude de um juiz da corte quando os seus próprios interesses estão em jogo é máxima. Fulmina-se a regra que exige do magistrado afastamento de casos em que ele conste como vítima potencial.


Sob sigilo decretam-se prisões, censuras e intimações sem a devida provocação da Procuradoria. Quem critica o arbítrio corre o risco de cair nas garras do Grande Inquisidor. Advogados não têm acesso aos autos.


Burocracias do Estado são obrigadas a ajoelhar-se diante da toga agigantada. A atividade policial sujeita-se a intervenções esdrúxulas, como a que por um período escudou de investigação material apreendido sobre a máfia que atuava no Banco Master.


A intimidação da Receita Federal levará servidores a adotarem a regra tácita de não abrirem procedimentos administrativos quando detectarem inconsistências fiscais relacionadas aos supremos magistrados. Afinal, o resultado mais brando poderá ser o afastamento sumário da função, com um rastreador no tornozelo.


Ameaça parecida paira sobre o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o instrumento mais eficaz do país para detectar transações atípicas, de que as atividades ilícitas amiúde se valem. Num golpe solitário de caneta, Moraes esvaziou o órgão.


Não há o que controle um ministro do Supremo que se ponha a subverter a institucionalidade para se proteger e atingir supostos adversários. Ele não depende da petição de partes para agir sobre virtualmente tudo o que deseje.


A submissão das decisões individuais aos pares, imperativo dos tribunais, passou a ser na prática facultativa. Um ministro pode atuar como o demiurgo que desfaz e reescreve as leis e manda soltar, prender, calar, pagar e não pagar. A revisão do plenário, quando ocorre, não raro se depara com fatos consumados e danos irreparáveis.


Mesmo o contrapeso do colegiado esbarrou no corporativismo quando dois de seus membros passaram a ter as condutas questionadas no escândalo do Master. O encastelamento funciona como estímulo para que ministros reforcem as decisões singulares visando à autoproteção.


Esvai-se a esperança de que comecem dentro do Supremo os ajustes para desbastá-lo dos superpoderes estranhos à República. Os ministros mostram-se incapazes de adotar um mero código de comportamentos óbvios, que já deveriam ser moeda corrente.


É inevitável que caminhe no Congresso uma reforma para recolocar o STF em seu lugar constitucional.”

https://x.com/i/status/2039175765510500418

 

Jornalistas do Valor destrincham e analisam impactos do caso do Banco Master

Casa Branca investe contra práticas comerciais abusivas do Brasil

A mídia brasieira tradicional e de internet repercute com força os termos das oito páginasdo relatório do USTR (escritório de representação comercial da Casa Branca), que trata do Brasil e ataca com força a prática de tarifas altas, o Pix e as ameaças aos mercados digitais.

A Casa Branca mira particularamente o Pix, projetos de lei que buscam regulamentar redes sociais,  a "taxa das blusinhas" como barreiras impostas pelo Brasil aos interesses americanos no comércio exterior, lentidão no registro de patentes e problemas na área de propriedade intelectual, as tarifas para importação de etanol, restrições sanitárias para a carne de porco americana e cotas para produções audiovisuais nacionais (a chamada "cota de tela").

São questões já mencionados no âmbito da Seção 301, investigação conduzida pelo USTR que entra em sua reta final nos próximos meses e pode resultar em tarifas específicas contra produtos brasileiros.

Leia o que diz a CNN sobre o relatório.

"O governo brasileiro impõe uma taxa linear de 60% para todas as encomendas expressas importadas pelo processo de Desembaraço Aduaneiro Simplificado", afirma um trecho do relatório, acrescentando que o limite é de US$ 100 mil dólares/ano por importador. "Além disso, a Receita Federal estabelece um valor máximo de US$ 10 mil para exportações e US$ 3 mil para importações", diz o USTR.O documento também aponta que o Banco Central "criou, detém, opera e regula o pix, uma plataforma de pagamentos instantâneos’’. E que partes interessadas dos Estados Unidos ‘’expressaram preocupações de que o BC conceda tratamento preferencial ao pix, que prejudica os fornecedores de serviços de pagamentos eletrônicos dos EUA’’.

Outro alvo da Casa Branca é o PL 4.675, projeto de lei enviado pelo Palácio do Planalto ao Congresso Nacional em setembro de 2025, que amplia os poderes do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) na regulação econômica de plataformas digitais e para evitar práticas anticoncorrenciais no setor. O projeto cria a figura de agentes econômicos com "relevância sistêmica" em mercados digitais, com faturamento superior a R$ 5 bilhões anuais no Brasil ou R$ 50 bilhões globalmente."Uma vez designadas, as empresas poderiam enfrentar uma série de obrigações 'ex ante', incluindo restrições sobre determinadas práticas comerciais e mandatos de interoperabilidade", afirma um trecho do relatório.Para o USTR, há risco de que empresas americanas sejam "desproporcionalmente" afetadas e sejam multadas pelo Cade em até 20% do faturamento global.

O governo americano também critica o patamar tarifário aplicado pelo Brasil sobre produtos importados como um todo. Em 2024, segundo o relatório, a alíquota média do Brasil foi de 12,5% para bens industriais e de 9% para bens agrícolas. Conforme o documento, isso representa um patamar "relativamente alto" para um "amplo leque" de setores, como automóveis, autopeças, eletrônicos, químicos, plásticos, aço, máquinas e equipamentos, têxteis.

Ainda de acordo com o USTR, há divergência frequente entre as tarifas consolidadas (registradas na Organização Mundial do Comércio) e às efetivamente aplicadas, gerando incerteza para exportadores dos Estados Unidos.