Editorial, Estadão - A judicialização do debate eleitoral

Decisão de Moraes de autorizar inquérito contra Flávio Bolsonaro por suposta calúnia contra Lula serve de alerta para o perigo da intromissão do Judiciário no debate público

A pedido do governo, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes mandou instaurar um inquérito para apurar um suposto crime de calúnia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Às vésperas da campanha oficial, a temerária decisão de Moraes serve de alerta para o perigo da intromissão do Judiciário no debate público. Não há democracia no mundo que resista à tutela dos eleitores por juízes que se veem como curadores do discurso político.

Aos fatos. No início de janeiro, Flávio fez uma postagem no X associando a prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro a futuros reveses para Lula. No texto, o senador fluminense afirmava que o petista seria “delatado” por Maduro, supostamente às autoridades dos EUA que o capturaram, e relacionava o episódio ao “fim do Foro de São Paulo”, além de aludir a supostos vínculos de Lula com o tráfico internacional de drogas, esquemas de lavagem de dinheiro e apoio a ditaduras de esquerda.

Sem dúvida, são imputações muito sérias. Ademais, feitas em uma mídia social de amplo alcance. Mas nada que destoe da agressividade típica das disputas eleitorais de nossa história recente, sobretudo as mais acirradas. O próprio Lula já fez acusações gravíssimas contra adversários em eleições passadas, muitas das quais poderiam facilmente ser enquadradas como crimes contra a honra, e nem por isso o petista foi incomodado pelo Direito Penal. O debate eleitoral pode ser agressivo, incivilizado ou até mentiroso. E daí?

A questão principal dessa história não é a eventual tipicidade da conduta de Flávio Bolsonaro, mas o velho cacoete de setores do Judiciário, e de ministros do STF e do Tribunal Superior Eleitoral em particular, de tratar os eleitores como néscios, incapazes, portanto, de tomar decisões de forma livre e consciente a partir do que observam no comportamento, nas ideias e nas propostas daqueles que brigam pelo seu voto.

Lula – logo quem, o político mais experiente em campanhas eleitorais em atividade – não deveria ter acionado o Ministério da Justiça nem a Polícia Federal em razão da postagem do adversário. Isso é coisa de incumbente acuado, além de autoritário. A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, deveria ter fulminado a eventual ação penal no nascedouro, negando-lhe parecer favorável. O Supremo, então, nem se fala. Moraes deveria ter se contido e dado uma lição a todos os pré-candidatos: o Judiciário não será bedel do debate eleitoral.

Mas não. O ministro autorizou a abertura de um inquérito descabido e, ao fazê-lo, alimentou a suspeita não de todo desarrazoada daqueles que interpretaram sua decisão como o início de um processo que, no limite, pode tirar das urnas um dos oponentes mais fortes de Lula. Ou seja, Moraes prestou um enorme desserviço não apenas à Justiça Eleitoral, mas à democracia brasileira.

Este jornal não ignora que a liberdade de expressão não é absoluta no Estado Democrático de Direito. Tampouco defende que acusações infundadas devam circular sem qualquer possibilidade de responsabilização. Mas, no que concerne ao debate estritamente eleitoral, há de prevalecer o princípio da mínima intervenção. Fatos e versões se confrontam e se desconstroem pela própria discussão livre. E quem neste país melhor do que Lula para rebater as acusações que lhe foram feitas por Flávio Bolsonaro usando a mesma arma do adversário, o discurso?

Ao correr para debaixo da saia da Justiça, Lula, a um só tempo, deu projeção às acusações do adversário, permitiu que Moraes exibisse, mais uma vez, a estrela de xerife-geral da República e, de quebra, ainda sugeriu não confiar na capacidade do eleitorado de discernir entre o que é verossímil e o que é mero exagero retórico. É um movimento que empobrece o debate e desloca o eixo da disputa – do convencimento para a intimidação.

Mas mais preocupante é o papel assumido pelo STF. Ao admitir a abertura de um inquérito policial em contexto tão evidentemente político, Moraes reforçou a percepção geral da sociedade de que o Supremo se tornou um anexo do Palácio do Planalto. Que depois Suas Excelências não reclamem do impacto que isso terá nas urnas.

Regimes autoritários perseguem dissidentes no exterior

A repressão transnacional, prática em que regimes autoritários perseguem dissidentes, jornalistas e ativistas fora de suas próprias fronteiras, intensificou-se significativamente, com ditadores formando alianças para caçar opositores no exterior. Esta colaboração entre governos autoritários visa eliminar vozes críticas em democracias, usando táticas como vigilância digital, assédio online, ameaças a familiares e extradições forçadas. 

Aumento da Colaboração Autoritária: Regimes autoritários, particularmente na Ásia e na África, têm colaborado ativamente, impulsionados por interesses compartilhados em suprimir dissidência, com Pequim frequentemente influenciando essas ações.

Detenção e Deportação: A detenção e a deportação ilegal são os métodos mais comuns, com dezenas de incidentes documentados onde dissidentes foram enviados de volta para regimes autoritários em violação do direito internacional.

Abuso de Ferramentas Internacionais: Governos autoritários abusam de "Red Notices" (Alerta Vermelho) da Interpol para rastrear e capturar opositores no exterior, alegando falsamente crimes comuns ou terrorismo.

Alvos e Métodos: Políticos de oposição, advogados de direitos humanos, jornalistas e grupos étnicos ou religiosos minoritários, como os uigures, são os principais alvos de ameaças, perseguição e tentativas de sequestro. 

Impacto nas Democracias

Violação de Soberania: A repressão transnacional ameaça a segurança pública e a democracia em países anfitriões, com casos documentados no Canadá, Reino Unido e Alemanha.

Efeito Assustador: O objetivo é intimidar as comunidades da diáspora e garantir que opositores se sintam inseguros, mesmo em países democráticos. 

Resposta Internacional

Forças-Tarefa eCoalizões: Estão sendo criados grupos, como a "Coalizão Contra a Repressão Transnacional na Alemanha" e o "Tackling Transnational Repression in the UK Working Group", para enfrentar essas ameaças e proteger exilados.

Ações Recomendadas: Especialistas recomendam que governos democráticos adotem definições oficiais de repressão transnacional, treinem autoridades locais, imponham sanções a governos perpetradores e fortaleçam a proteção de dissidentes em seu território

 A judicialização do debate eleitoral

Decisão de Moraes de autorizar inquérito contra Flávio Bolsonaro por suposta calúnia contra Lula serve de alerta para o perigo da intromissão do Judiciário no debate público

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