Uma reportagem recente do The New York Times acendeu o debate sobre medicamentos amplamente utilizados que estariam sendo investigados por possível associação com declínio cognitivo e aumento do risco de demência em idosos. Sobre este caso, o docente da Faculdade São Leopoldo Mandic Araras, Dr. Gustavo Alves, explica o que realmente dizem os estudos sobre remédios populares como antialérgicos, calmantes e medicamentos para refluxo, além dos cuidados necessários para evitar interpretações alarmistas. O especialista comenta os principais riscos do uso prolongado dessas medicações, a diferença entre associação e causa comprovada e por que a interrupção sem orientação médica pode ser perigosa, especialmente entre idosos. O Dr. Gustavo também está disponível para entrevistas, caso tenham interesse em aprofundar o tema.
Estudos ligam remédios populares ao declínio cognitivo em idosos
Antialérgicos, calmantes e remédios para refluxo estão entre as medicações analisadas por estudos internacionais sobre memória e envelhecimento cerebral
O jornal amearicano cita quatro classes de remédios investigadas por estudos científicos: antialérgicos com ação anticolinérgica, antipsicóticos, benzodiazepínicos e inibidores de bomba de prótons, usados para refluxo e gastrite.
A repercussão provocou apreensão entre pacientes e familiares, especialmente idosos. Mas, segundo o Dr. Gustavo Alves, especialista em neurociência, docente do curso de medicina da Faculdade São Leopoldo Mandic Araras e pesquisador na USP e Unicamp, é preciso cuidado para não transformar associação científica em sentença definitiva.
“Até o momento, não existe nenhum medicamento comprovadamente capaz de causar demência diretamente. O que os estudos mostram é uma possível associação entre algumas medicações e o aumento do risco de comprometimento cognitivo leve, que pode preceder quadros demenciais”, explica.
A própria reportagem do jornal americano ressalta que grande parte das pesquisas disponíveis é observacional, ou seja, identifica correlações, mas não necessariamente uma relação de causa e efeito. Entre os medicamentos apontados estão os antialérgicos de primeira geração, como prometazina e dexclorfeniramina, conhecidos por sua ação anticolinérgica. Essas substâncias interferem na acetilcolina, neurotransmissor importante para memória e atenção.
“Esses medicamentos podem provocar sonolência, lentificação cognitiva e prejuízo de memória, principalmente em idosos e em uso contínuo. Mas isso não significa automaticamente que irão provocar Alzheimer”, esclarece Gustavo Alves.
Outro grupo citado são os benzodiazepínicos, como clonazepam e diazepam. Segundo o especialista, o problema maior está no uso prolongado e em medicamentos de meia-vida longa, que aumentam sedação, risco de quedas e perda funcional. “O benzodiazepínico pode favorecer declínio cognitivo em idosos vulneráveis porque reduz estado de alerta e funcionalidade. Isso é diferente de afirmar que ele cause demência diretamente”, pontua.
A reportagem também menciona os antipsicóticos, frequentemente utilizados em quadros psiquiátricos e até em pacientes com demência para controle comportamental. Estudos sugerem associação com piora cognitiva e aumento de mortalidade em idosos dementes.
“Existe uma diferença importante entre antipsicóticos de primeira e segunda geração, tanto no mecanismo de ação quanto nos efeitos cognitivos. Essa análise precisa ser muito individualizada”, afirma o especialista.
Já os inibidores de bomba de prótons, como omeprazol e pantoprazol, aparecem em estudos com resultados conflitantes. Uma das hipóteses discutidas é que o uso prolongado possa reduzir a absorção de vitamina B12, deficiência que pode causar sintomas cognitivos potencialmente reversíveis.
Para o Dr. Gustavo, o principal risco neste momento é a interpretação precipitada das manchetes: “Muita gente já pensa em suspender medicações importantes por medo. Isso pode ser extremamente perigoso. Toda avaliação precisa considerar dose, tempo de uso, idade, doenças associadas e necessidade clínica.”
O especialista reforça que envelhecimento cerebral é multifatorial e envolve genética, estilo de vida, doenças cardiovasculares, sono, sedentarismo e saúde mental. “A discussão é válida e importante. Precisamos falar sobre uso racional de medicamentos, especialmente em idosos. Mas sem alarmismo e sem desinformação”, finaliza o especialista.