As suspeitas sobre Nogueira eram conhecidas, mas as revelações sobre as vantagens que o senador supostamente recebia em troca são impactantes
Sabia-se desde a primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro do ano passado, que o escândalo das fraudes do Banco Master tinha o potencial de sacudir a República. Essa percepção derivava da vasta rede de relações conhecidas do dono da instituição, Daniel Vorcaro, com figurões dos três poderes. Um dos nomes sempre citados era o do senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do seu partido e chefe da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro. Parecia ser uma questão apenas de tempo para que Nogueira fosse alvo de uma etapa específica da investigação da Polícia Federal (PF), o que enfim aconteceu nesta quinta-feira (7). Como a teia de influências montada por Vorcaro era extensa e os indícios de malfeitos com participação de agentes públicos pululam, aguarda-se que em breve os brasileiros conheçam em detalhes como outros medalhões agiram para beneficiar os negócios escusos do banco e o que supostamente ganhavam pelos serviços inconfessáveis prestados.
O grande desafio, sem dúvida, será mostrar que ministros do STF não são cidadãos acima da lei e também terão seus atos e negócios nebulosos examinados sem condescendência
A suspeita mais evidente sobre Nogueira envolvia a chamada "emenda Master". Era uma proposta indecorosa do senador para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante, feita sob medida para os interesses do banco, que assim poderia continuar a ofertar seus CDBs arriscados sem que a fragilidade financeira da instituição inibisse os investidores. Caso o Master quebrasse, o FGC poderia cobrir depósitos maiores. Segundo a PF, o texto da emenda foi formulado pela assessoria do banco e entregue a Nogueira. O senador foi adiante com a proposta, que causou estupefação ao ser apresentada.
As suspeitas sobre Nogueira eram conhecidas, mas as revelações sobre as vantagens que o senador supostamente recebia em troca são impactantes. Conforme a PF, incluiriam repasses mensais de R$ 300 mil ou mais, uso gratuito de imóvel de alto padrão, pagamento de viagens internacionais de luxo e hospedagens e aquisição de participação societária que valeria R$ 13 milhões por R$ 1 milhão. É como se Nogueira tivesse privatizado o mandato para Vorcaro. Os indícios são fortes, é verdade, mas não pode ser esquecido que o senador é formalmente apenas suspeito e tem direito ao devido processo legal, com amplo espaço para se defender.
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