Editorial, RBS - Pressão por CPI do Master é jogo de cena

O editor transcreve este editorial publicado no jornal Zero Hora deste sábado. Seu conteúdo é correto e exemplar. Só se engana quem quer.

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Nenhum dos principais grupos políticos quer, de verdade, uma comissão de inquérito sobre os malfeitos que envolvem o banco

Não passa de jogo de cena a recente pressão sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, pela abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o escândalo do Banco Master e as conexões de seu dono, Daniel Vorcaro, com luminares da República. A estridência das cobranças por uma investigação no Congresso é diretamente proporcional à certeza de que ela não será instalada. É tudo da boca para fora, parte da disputa constante entre os principais grupos políticos por fazer com que sua versão dos acontecimentos prevaleça na guerrilha travada por meio das redes sociais.

O mais indicado é deixar a investigação para a Polícia Federal (PF), que, com um trabalho técnico, segue avançando

A instalação de uma CPI do Master não interessa ao governo ou à oposição. Tampouco ao centrão, grupo que escudou a ascensão meteórica do banco e do banqueiro e tem caciques enrolados com as negociatas de Vorcaro. É uma hipótese que a cúpula do Congresso, nas figuras de Alcolumbre e do presidente da Câmara, Hugo Motta, se esforça para evitar. O próprio Alcolumbre tem episódios a explicar, como o fato de um apadrinhado seu ter sido o responsável pelo fundo de pensão do Amapá ter aplicado R$ 400 milhões em papéis do Master, dinheiro perdido com a liquidação do banco.

Na quinta-feira, na sessão conjunta do Congresso, parlamentares petistas e o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, fizeram pronunciamentos inflamados instando Alcolumbre a ler os requerimentos para a criação da CPI. Pura desfaçatez, para não deixar o grupo adversário vocalizar sozinho o discurso fácil de que não tem o que temer.

Flávio Bolsonaro, após a descoberta de sua relação próxima com Vorcaro e do pedido de dinheiro para o filme sobre o seu pai, Jair Bolsonaro, passou imediatamente a se dizer defensor da CPI. Trata-se apenas de uma estratégia para sair das cordas e municiar a militância no embate virtual. O senador não era entusiasta da investigação do caso. O jornal O Estado de S.Paulo mostrou na quinta-feira que Flávio assinou apenas dois dos cinco requerimentos existentes para abrir uma comissão de inquérito. O acordo que garantiu a derrubada do veto ao PL da Dosimetria envolvia reforçar o empenho para enterrar a CPI do Master.

Os parlamentares governistas, da mesma forma, jogam para a torcida. O PT baiano, em especial, tem vínculos com o Master e com o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Nenhum dos principais grupos políticos quer, de verdade, uma CPI sobre os malfeitos que envolvem o banco. Em maior ou menor grau, todos têm satisfações a dar sobre episódios obscuros. Cabe lembrar ainda a máxima de que se sabe como uma CPI começa, mas nunca como termina, nem quais revelações podem vir à tona, exploradas de forma política. É uma equação de resultado incerto que depende de qual espectro domine a comissão e posições como presidência e relatoria.

A aproximação do período eleitoral é outro complicador. Eleva os riscos de a CPI se converter em palco de bate-bocas estéreis e se resumir à busca obstinada de um lado para atingir o outro, sem espaço para apurações que seriam bem-vindas se fossem sérias. O mais indicado é deixar a investigação para a Polícia Federal (PF), que, com um trabalho técnico, segue avançando na tarefa de destrinchar o maior escândalo financeiro da história do país e de revelar os agentes públicos que facilitaram as fraudes e delas se serviram.