Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.
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É manjada a fábula do escorpião que, para atravessar um rio, pediu ajuda a um sapo, garantindo-lhe que o não ia ferroar, porque, em tal caso, iam morrer ambos. Mas, iniciada a travessia, espetou-lhe o ferrão letal no lombo. E a moral é que ninguém foge à própria natureza: cedo ou tarde, as inclinações naturais se manifestam.
A história dos homens está cheia de exemplos. O que parece contradição é, muitas vezes, somente a manifestação da natureza. Houve quem achasse estranho que o ex-deputado Beto Albuquerque descambasse para grosserias de grêmio estudantil, mostrando que, para ele, adversários são inimigos e o embate político é um vale tudo. Tanto mais esdrúxulo por ser ele um senhor com 63 anos de idade e 40 na militância partidária. Mas é a sua natureza política! Um dia, tinha que se manifestar.
Segundo o Correio do Povo, Albuquerque, parecendo personagem de Zorra Total (aquele lixo da Globo) chegou ao requinte de chamar o Dep. Marcel Van Hattem (Novo-RS, candidato ao Senado) de "Van Rato". E o governador Eduardo Leite (PSD-RS) de "Dudu Light". Afirmou que o Dep. Luciano Zucco (PL-Rs, candidato a governador) "não tem condições de enfrentar debates verdadeiros, não tem conteúdo, é um despreparado".
E no mesmo tom de vulgaridade, atacou a imagem de dois governadores que foram eleitos e reeleitos e têm suas administrações com ampla aprovação de quem mais importa: o povo. Ele reduziu Ronaldo Caiado (de Goiás) a "lambedor de botas". E Romeu Zema (de Minas Gerais) ele descreveu como "maltrapilho, mal-intencionado, inculto e despreparado".
Não se trata aqui da pessoa, mas do político Beto Albuquerque, que, como se vê, não trai a própria natureza: ele é socialista. E está no DNA do socialismo resolver dissensos "fora das quatro linhas". É o "vale tudo" preconizado pelo "filósofo" comunista György Lukács (1885-1971), para quem a classe revolucionária não deve obedecer à lei, mas apenas seguir as circunstâncias da luta de classe. (Isso pode até soar anacrônico, mas é a mentalidade arcaica dos socialistas do Brasil e da América Latina, que parecem não assimilar que já caiu, há muito, o muro de Berlim.)
O que Lukács diz, pois, (e socialistas aplicam) é que não existe lei a ser respeitada: vale só o que o partido decide. Na prática, isso é a lei do mais forte. E aí está o objetivo revolucionário: que o partido seja o "mais forte" e esmague a oposição para impor sua ditadura. Isso hoje é feito menos pela força e mais pela captura das consciências, nos moldes do que ensinou Gramsci. E os campos mais estratégicos para esse fim são a sala de aula e a mídia, que acabam afetando as demais instituições.
É necessário remover um preconceito, segundo o qual o socialismo é um comunismo mais humano. Tolice! À parte de diferenças mais retóricas do que fáticas, um e outro visam a instituir um Estado totalitário. No fim, eles são iguais! E tudo mais é conversa mole.
As pessoas em geral, aliás, ignoram o que seja o totalitarismo. E as que têm alguma noção a respeito (poucas) não querem, absolutamente, viver num regime totalitário - exceto a parasitária classe dirigente, isto é, os donos do partido. De sã consciência, o que as pessoas querem é viver com liberdade e abundância, uma combinação impossível no totalitarismo.
Volto ao político. Beto Albuquerque sempre pareceu ter a habilidade que o povo chama de "comer o mingau pelas beiradas", parecendo mais moderado que seus pares do PT e do PSOL. Mas em essência, ele é igual, como se vê por sua falta de compostura. Sua natureza, antes controlada, agora falou mais alto. Ou alguma vez ele atacou com tanta virulência elementos da esquerda de notório envolvimento em graves delitos? O que ele faz é o de sempre: atacar a imagem dos outros e criar uma cortina de fumaça para ocultar as "contradições" da sua turma.
Mas, a que vem o veneno de Albuquerque? De suas pretensões pessoais não há informações. Pensará em candidatar-se? O que se sabe é que ele apoia uma "concertação" (língua deles) que envolve candidaturas ao governo do Rio Grande do Sul, Senado e Presidência da República, gente agressiva para a qual os adversários são inimigos e o embate político é um vale tudo. Quer dizer, ele tomou partido por uma trupe revolucionária.
A chapa que ele apoia tem Juliana Brizola (PDT), candidata a governadora e a tomar bola nas costas: o vice, Edgar Pretto (PT), brigão escolado, queria ser cabeça de chapa, mas foi obrigado por ordens superiores a ser apenas vice. (Quem é escorpião e quem é sapo nessa história?) E há ainda Pimenta (PT) e Manuela (PSOL) para o Senado: todos eles seguem a mesma cartilha. Na propaganda eleitoral, vão parecer muito fraternos. E talvez (talvez!) Beto Albuquerque, (PSB), engajado, faça o papel de atacar os adversários, enquanto fica para os outros a tarefa de teatralizar uma harmonia que só existe na ficção.
O Tema não é só a incompetência, mas também o autoritarismo dessa turma. No que pode dar? Crie escorpiões, mas não espere que eles produzam mel.
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