Seria conveniente que os postulantes às duas vagas gaúchas em disputa neste ano não fossem tão monotemáticos
Parece se consolidar a tendência de que a campanha eleitoral para o Senado tenha o Supremo Tribunal Federal (STF) e a possibilidade de impeachment de ministros da Corte como principais temas. É legítimo que o assunto apareça. Entre as atribuições da Casa está a análise de eventual afastamento de membros da instância mais importante do Judiciário brasileiro. Há integrantes do Supremo que têm explicações a dar e deveriam ter condutas formalmente investigadas. Os senadores e o Senado, porém, têm muitas outras atribuições de grande relevância. A busca pelo convencimento do eleitor pelos candidatos ficará empobrecida se centrada em excesso na pauta do STF.
Cabe também aos eleitores a responsabilidade de um olhar mais amplo para definir o voto
A Constituição diz que senadores representam os Estados, e não o povo, caso dos deputados. Por essa razão, são apenas três vagas fixas por unidade da federação, enquanto na Câmara a quantidade é maior e varia conforme a população. Os mandatos são de oito anos, e não de quatro. É preciso suportar escolhas ruins por mais tempo, portanto. E os Estados, como é o caso do Rio Grande do Sul, têm inúmeras outras prioridades que precisam da devida atenção, de preparo e atuação diligente. Ter representação qualificada é vital.
Seria conveniente que os postulantes às duas vagas gaúchas em disputa neste ano não fossem tão monotemáticos e demonstrassem interesse em se dedicar a outras pautas, da saúde à educação, da economia à segurança. São assuntos, afinal, que fazem parte da vida real. É sabido que são os prováveis candidatos ligados à direita que mais tratam da possibilidade de impeachment de ministros e são os mais críticos ao STF. Mas o próprio eleitor de viés liberal na economia ou adepto de valores conservadores deve esperar de seus possíveis escolhidos um cardápio de propostas mais variado e consistente. Não seria produtivo se, da mesma forma, os candidatos à esquerda acabassem tragados para esse debate.
Não há dúvida de que o STF tem cometido atropelos e resiste à autocontenção. Tem ainda membros envolvidos em casos nebulosos, como os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que até hoje não apresentaram explicações convincentes sobre as ligações com o Banco Master, liquidado por fraudes, e seu dono preso, Daniel Vorcaro. Outros cultivam comportamentos inadequados que abrem margem para o conflito de interesses. A consequência é uma enorme crise de confiança. Pesquisa publicada em março pelo instituto Quaest mostrou que 66% dos eleitores acham importante votar em candidatos comprometidos com o impeachment de ministros. O percentual é alto. Engloba parcelas que vão muito além dos simpatizantes do bolsonarismo. A causa acaba por ter maior apelo eleitoral.
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