O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem elevado o tom e sido recorrente nas críticas a Donald Trump e ao governo norte-americano nas últimas semanas. As intervenções militares da Casa Branca em outros países são o principal tema das manifestações de Lula, mas outros pontos de atrito, como o recente caso da expulsão de um delegado da Polícia Federal (PF) dos EUA e a pressão da Casa Branca contra o Pix, são ingredientes que colaboram para azedar ainda mais a relação entre Brasília e Washington.
Parece que o presidente até veria como uma oportunidade alguma nova sanção contra o Brasil
É nítido que há cálculo eleitoral na postura de maior contundência contra Trump. Foi após a Casa Branca atingir o Brasil com um tarifaço despropositado e tentar se imiscuir em assuntos internos do país, por interferência da família Bolsonaro, que o presidente brasileiro recuperou pontos de popularidade no ano passado. O discurso da soberania nacional contra a tentativa de coação e ingerência externa deu resultado, mas em seguida a melhora na avaliação pessoal de Lula e do governo esmaeceu.
A estratégia de Lula traz riscos ao país. Bater em Donald Trump hoje parece fácil. O presidente dos EUA é cada vez mais contestado pela própria população norte-americana, semeia antipatias inclusive entre líderes de países considerados aliados históricos e hoje está ocupado em tentar uma saída para o atoleiro da guerra no Irã. O esperado encontro entre Lula e Trump na Casa Branca, após surgir uma "química" entre os dois, talvez nem ocorra mais. Mas boa parte de sua administração ainda tem olhos para a América Latina e o Brasil.
Seguem em curso, por exemplo, as investigações contra o país abertas no ano passado, relacionadas à Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. O Brasil é acusado de práticas anticompetitivas que alegadamente prejudicariam a economia norte-americana e empresas dos EUA. São relacionadas ao Pix, ao etanol, ao comércio de produtos falsificados e ao desmatamento ilegal, entre outras questões. Em março, os EUA abriram nova apuração contra o país e outras nações pela Seção 301 para averiguar se o uso de trabalho forçado também não se configuraria em competição desleal. O governo brasileiro já apresentou suas defesas, as negociações prosseguem, mas é ingenuidade contar que apenas argumentos racionais serão suficientes para impedir retaliações norte-americanas. Elas podem vir na forma de novas tarifas, restrições à importação de produtos brasileiros e paralisação de benefícios comerciais.
A retórica do presidente brasileiro, com ou sem fundo de razão, pode contribuir para a má vontade dos colaboradores da Casa Branca que, por motivação ideológica, gostariam de fustigar o governo petista. Mas parece que Lula até veria como uma oportunidade alguma nova sanção dos EUA contra o Brasil. Seria a chance de voltar a empunhar a bandeira da soberania nacional e, por tabela, tentar reforçar a imagem da família Bolsonaro de subserviente à Casa Branca. Usando uma metáfora do futebol, bem ao gosto de Lula, é como se ele estivesse cavando uma falta para tirar proveito no jogo. Um revide poderia até ser um trunfo eleitoral, mas o custo recairia de alguma forma sobre a economia brasileira ou ao menos sobre alguns setores.
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