O autor é jornalista, Porto Alegre.
Empate expõe erros de Ancelotti, atuação decepcionante dos veteranos e a inexplicável ausência de Endrick em um time sem poder de fogo.
A estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo FIFA 2026 deixou um gosto amargo para quem esperava ver o velho Brasil competitivo, agressivo e protagonista. O empate em 1 a 1 contra Marrocos não foi apenas um resultado ruim. Foi uma atuação preocupante, sem personalidade, sem intensidade e, principalmente, sem a mentalidade de uma seleção que entra em campo para conquistar o hexacampeonato.
Os primeiros 20 minutos foram um choque para o torcedor brasileiro. Marrocos dominou completamente o jogo, controlou as ações, pressionou a saída de bola e abriu o placar com naturalidade. Foi um domínio raramente visto contra o Brasil em uma Copa do Mundo. Em determinados momentos, parecia que a seleção africana era a favorita da partida.
O empate brasileiro surgiu em uma jogada individual de Vini Jr., um dos poucos jogadores capazes de desequilibrar. Mas a igualdade no marcador mascarou um problema maior: o Brasil não jogava bem.
No segundo tempo, a partida caiu drasticamente de intensidade. Marrocos sentiu o desgaste físico, enquanto o Brasil parecia satisfeito em administrar o empate. Faltou coragem, faltou ambição e sobrou respeito. Respeitar o adversário é obrigatório. Ter medo dele é inadmissível para uma seleção pentacampeã mundial.
E nesse cenário, o principal responsável pela atuação decepcionante foi Carlo Ancelotti. O treinador escalou mal a equipe, montou um meio-campo lento e previsível e, quando teve a oportunidade de corrigir os erros durante a partida, conseguiu piorar ainda mais o desempenho com substituições questionáveis.
Individualmente, vários jogadores ficaram muito abaixo do esperado. Casemiro demonstrou lentidão, falta de ritmo e dificuldade para acompanhar a velocidade do jogo. Igor Thiago simplesmente não mostrou credenciais para justificar sua convocação. Ibanez teve dificuldades defensivas, Lucas Paquetá pouco produziu e Raphinha foi a síntese da inoperância ofensiva brasileira: inerte, inodoro e insípido durante praticamente toda a partida.
Marrocos não assustou. O que assustou foi o próprio Brasil.
A pergunta que fica é simples: por que Endrick continua fora?
O jovem atacante é, hoje, o jogador brasileiro com maior instinto goleador. Tem velocidade, personalidade, força física e não demonstra medo de grandes desafios. Enquanto a seleção procura desesperadamente alguém que ataque o espaço e finalize com agressividade, seu principal artilheiro potencial permanece no banco.
Também é hora de começar uma renovação mais profunda. Marquinhos, embora tenha uma trajetória respeitável na seleção, talvez já não ofereça a mesma segurança de outros tempos. O Brasil precisa considerar alternativas mais jovens, rápidas e fortes fisicamente. Nomes como Danilo Santos e Ryan mostram que existe uma nova geração pedindo passagem.
A sensação deixada pela estreia é de uma seleção acomodada, excessivamente burocrática e emocionalmente distante da dimensão do torneio que está disputando. Estamos falando de Copa do Mundo, não de amistoso internacional ou jogo de preparação.
Após a partida, Ancelotti afirmou que o time estava nervoso. A explicação soa insuficiente. Cerca de 80% dos jogadores presentes já disputaram a Copa do Catar em 2022. Nervosismo pode explicar alguns erros individuais, mas não justifica falta de intensidade, ausência de imposição física e uma postura excessivamente conservadora diante de um adversário que claramente acreditou mais na vitória.
O Brasil precisa entender rapidamente que Copa do Mundo não perdoa equipes que entram em campo esperando que a camisa resolva os problemas. A história ajuda, mas não ganha partidas. O talento existe, mas precisa ser acompanhado de coragem, organização e espírito competitivo.
A boa notícia é que ainda há tempo para corrigir a rota. A má notícia é que o futebol apresentado contra Marrocos foi digno de alerta máximo. Se o Brasil continuar jogando dessa forma, respeitando demais os adversários e acreditando de menos em si próprio, a caminhada rumo ao sonhado hexacampeonato pode terminar muito antes do que a torcida imagina.
Chegou a hora de colocar coração em campo. Chegou a hora de colocar raça. Chegou a hora de jogar como Brasil.
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