Discurso – Relator da CPMI - Alfredo Gaspar
Quero saudar todos os parlamentares presentes. Passei 24 anos da minha vida perseguindo bandido. E, quando imaginei que viria para a política para deixar esse passado para trás, nunca estive tão próximo da bandidagem como estou hoje. A bandidagem que ataca, que mente, que fabrica narrativas. Mas é justamente essa bandidagem que eu sempre quis enfrentar: a bandidagem do topo da pirâmide. Porque a mentira jamais vencerá o sol da verdade.
É por isso que estamos aqui. Senhor presidente, considero um absurdo não termos hoje sentado nesta cadeira o senhor Daniel Vorcaro. Antes, porém, quero cumprimentar todos em nome de Vossa Excelência, os advogados, os depoentes e, sobretudo, o povo brasileiro.
O Brasil vive uma época que dá vontade de vomitar de manhã, de tarde e de noite. Estamos vivendo o verdadeiro bacanal da corrupção. Um momento extremamente difícil para o país. Não podemos mais ter feriado, não podemos ter intervalos, porque a cada dia que passa o cenário nacional se torna pior do que o anterior.
Eu nunca tinha ouvido falar desse cidadão chamado Vorcaro. Não sabia que ele tinha metade da República no bolso — talvez porque eu não tivesse dinheiro para aplicar ou não frequentasse as altas rodas de Brasília. Mas o que não dá para aceitar é a justificativa apresentada para não comparecer a esta CPMI: só viria depor se fosse em jatinho. Se essa moda pega, ninguém mais será ouvido neste país. Isso é uma esculhambação, e eu não aceito.
Mais grave ainda é que esse cidadão conseguiu algo que nenhum parlamentar conseguiu até hoje: reunir-se quatro vezes com o presidente da República no Palácio do Planalto fora da agenda oficial. Quatro vezes. Vá qualquer parlamentar tentar ser recebido sem agenda. Há ministros que foram recebidos menos vezes do que Vorcaro. Que prestígio é esse?
E deixo claro: não afirmo que Vorcaro tenha relação apenas com o governo atual. Não posso ser leviano. Esta CPMI precisa abrir o leque e investigar todos. Mas o fato é que o presidente da República, que não abre o Planalto para o cidadão comum, abriu suas portas quatro vezes, no escurinho do cinema institucional, para esse personagem.
Quando analisamos os consignados, precisamos entender onde nasceu essa desordem. Ela nasceu na Bahia. E ali estavam os elementos políticos que permitiram que tudo isso acontecesse, inclusive figuras conhecidas do Partido dos Trabalhadores e integrantes centrais do atual governo.
Enquanto isso, vemos manchetes constrangedoras: o dono do Banco Master pagando de humilde, mas exigindo vir prestar depoimento apenas em jatinho, enquanto tinha meio Brasil no bolso. Que país é esse? Que zona institucional é essa em que transformaram o Brasil?
E não para por aí. Surge o nome da senhora Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, talvez o ministro mais poderoso da história do Supremo Tribunal Federal. Porque, segundo alguns, salvou a democracia e, por isso, poderia tudo. Mas ninguém tem coragem de discutir um contrato de 129 milhões de reais firmado sem processo formal. Isso é imoral. Isso tem aparência de pagamento de proteção — e ninguém tem coragem de enfrentar o tema.
Como a verdade incomoda. Basta falar que imediatamente tentam interromper. Mas repito: 129 milhões de reais. E quem garante que esse dinheiro também não tenha origem nos recursos do INSS?
E vemos ainda situações envolvendo o ministro Dias Toffoli. Perdemos mais de um mês de investigação porque dados essenciais foram negados a esta CPMI, uma instância legítima e constitucional. Até hoje não temos acesso pleno às informações, e o Brasil permanece em silêncio.
Fui um dos que votaram a favor da convocação do filho do presidente da República. Mas estou cansado de menino de recado. A Polícia Federal quebrou sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha. Medidas cautelares foram adotadas, e parte desta CPMI tentou blindá-lo. Enquanto isso, a Polícia Federal avança nas investigações. O que peço é simples: que haja compartilhamento dos dados, pois é um direito legítimo desta comissão.
Repudio, com respeito institucional, a decisão do ministro André Mendonça que permitiu a ausência do senhor Vorcaro. Contudo, reconheço que o mesmo ministro corrigiu erro gravíssimo ao liberar o acesso aos dados que estavam escondidos. Deu uma no cravo e outra na ferradura.
Agora, é preciso dizer a verdade completa: aqueles que hoje criticam decisões judiciais foram os mesmos que blindaram instituições financeiras nesta CPMI. Blindaram C6, PicPay, Santander, Crefisa e diversos envolvidos. Ninguém blindou mais do que a base do governo. Não deveria existir bandido de estimação, mas é exatamente isso que estamos vendo.
O sistema financeiro está blindado, e nós temos apenas mais um mês de trabalho. Ainda há muitas pessoas a serem ouvidas. Por isso, reapresentei requerimentos para convocação dessas instituições financeiras. Vamos colocar digitais novamente e descobrir quem defende o interesse público e quem atua como empregado do sistema financeiro.
Também não posso deixar de registrar minha discordância quanto à atuação de parlamentares orientando testemunhas ligadas diretamente aos problemas investigados no caso do Banco Master. A história já mostrou o erro desse tipo de conduta, quando parlamentares tiveram que deixar CPIs após relações impróprias com investigados, como ocorreu no episódio envolvendo Marco Valério.
Se houver senador envolvido, que seja preso. Se houver deputado, que seja preso. Se houver presidente da República, banqueiro ou qualquer autoridade, que responda. A lei deve valer para todos. Reuniões e articulações por intermédio de estruturas diretamente ligadas aos investigados não são apenas ilegais — são passíveis de investigação.
Estou cansado da mentira, da hipocrisia e da blindagem institucional. Esta CPMI existe para revelar a verdade ao povo brasileiro. E é isso que nós vamos fazer.
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