O governo Lula revogou o decreto que incluía as hidrovias do Tapajós, Tocantins e Madeira no Programa Nacional de Desestatização.
A justificativa oficial é o “diálogo com os povos indígenas”. Mas o que faltou foi diálogo antes. Se havia impacto sobre comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, essa conversa precisava ter ocorrido previamente. Consulta prévia não é detalhe formal. É condição básica para qualquer projeto de infraestrutura na Amazônia.
Nenhum governo sério anuncia concessão de estrutura estratégica sem estudos ambientais consolidados, negociação antecipada e sustentação política mínima, conversando com todos, inclusive e principalmente com os povos indígenas. O governo Lula fala em protagonismo climático, em liderança ambiental internacional, em compromisso com a agenda sustentável. Mas, na prática, demonstra falta de coordenação e ausência de planejamento quando precisa transformar discurso em ação concreta.
Publica o decreto. Não constrói base política. Não antecipa conflito. Sente o desgaste. E recua. Isso é amadorismo convertido em método.
E o mais grave: os próprios números do governo mostram o tamanho do erro. Segundo dados divulgados pelo Ministério de Portos e Aeroportos e pelo Plano Nacional de Logística, o chamado Arco Norte, que depende diretamente dessas hidrovias, já responde por mais de 35% das exportações brasileiras de soja e milho. A meta oficial é elevar esse percentual para acima de 40% nos próximos anos.
A hidrovia do Madeira movimenta cerca de 25 milhões de toneladas por ano. A do Tapajós, entre 15 e 20 milhões de toneladas anuais, sendo rota estratégica para o escoamento da produção do Mato Grosso. O próprio governo afirma que a ampliação da navegação pode reduzir em até 20% o custo logístico em relação às rotas tradicionais do Sudeste.
Além disso, o transporte hidroviário emite até 60% menos CO₂ por tonelada transportada quando comparado ao transporte rodoviário, argumento frequentemente usado pelo próprio governo Lula ao defender uma matriz logística mais sustentável. O Plano Nacional de Logística prevê ampliar a participação das hidrovias de cerca de 13% da matriz de transportes para algo entre 20% e 25% até 2035, reduzindo a dependência do modal rodoviário, que hoje supera 60%.
São números oficiais. São metas anunciadas pelo próprio governo. Diante desses dados, o recuo se torna ainda mais absurdo.
Se as hidrovias são estratégicas para reduzir custo Brasil, fortalecer a balança comercial, integrar o Norte ao restante do país e diminuir emissões, como pode o próprio governo abandonar o projeto no primeiro impasse político? Se as hidrovias são estratégicas para integrar o Norte ao restante do país e fortalecer a logística nacional, o governo deveria ter estruturado o projeto com técnica, segurança jurídica e diálogo consistente. Se não havia segurança política para avançar, não deveria ter iniciado o processo.
O recuo transmite instabilidade decisória. Investidores observam. O setor produtivo recalcula risco. Comunidades percebem que a pressão substitui o planejamento prévio. Não se trata de desconsiderar direitos indígenas ou a preservação ambiental. Trata-se de exigir seriedade na condução de projetos estruturais.
Revela que o governo Lula reage aos fatos em vez de conduzi-los.
O episódio expõe um governo mais preocupado em administrar desgaste imediato do que em sustentar decisões estratégicas de longo prazo. Quando o cálculo eleitoral passa a orientar a infraestrutura do país, o resultado é paralisia, insegurança e improviso. O Brasil precisa de planejamento, não de movimentos táticos para agradar circunstâncias momentâneas.
Esse caso é mais um exemplo da ausência de um projeto consistente de desenvolvimento nacional sustentável do governo Lula.
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