Artigo, Daiana Schaid, Zero Hora - Câncer de pâncreas: a nova droga e um aplauso de pé

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 Levo aos meus pacientes a certeza de que o "incurável" de ontem pode ser o "tratável" de amanhã

Por Daiana Scheid, médica oncologista da Santa Casa de Porto Alegre


Há décadas a oncologia persegue um inimigo que parecia invencível. Na tarde de 31 de maio, sentada na plenária do congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês), em Chicago, vi esse muro começar a ruir e confesso que me emocionei até as lágrimas.



O anúncio veio do estudo de fase 3 RASolute 302, e a sala, com milhares de oncologistas, levantou-se em aplauso. O motivo: pela primeira vez, um medicamento praticamente dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático já tratados, de cerca de 6,7 para 13,2 meses, e com menos efeitos colaterais do que a quimioterapia. Para quem, como eu, acompanha diariamente essas famílias na Santa Casa de Porto Alegre, esses meses não são estatística: são aniversários, formaturas, despedidas com dignidade.


Décadas de ciência básica, antes invisíveis ao público, converteram-se em esperança concreta


A droga se chama daraxonrasibe e sua engenhosidade me comove como médica. O câncer de pâncreas é movido, em mais de 90% dos casos, por mutações no gene RAS, considerado "indrogável" por décadas, porque a superfície dessa proteína não oferecia um ponto de encaixe para os remédios. A nova molécula resolve o impasse de modo astuto: o câncer de pâncreas cresce com o auxílio de uma proteína chamada KRAS, que fica permanentemente ligada, enviando sinais para a célula se multiplicar sem parar. O daraxonrasibe age bloqueando essa proteína, como se desligasse o principal "interruptor" que alimenta o crescimento tumoral. E tudo isso em um comprimido tomado em casa.


A importância ultrapassa o pâncreas. A mesma estratégia pode alcançar tumores de pulmão e de intestino também movidos pela RAS, abrindo um capítulo inteiro da medicina de precisão. Décadas de ciência básica, antes invisíveis ao público, converteram-se em esperança concreta.


Voltei de Chicago renovada. Levo aos meus pacientes não uma promessa milagrosa, mas algo mais valioso: a certeza de que a pesquisa avança e de que o "incurável" de ontem pode ser o "tratável" de amanhã.

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