- O autor é advogado, escritor e engenheiro, ex-presidente da Fiergs e ex-representante do Brasil na OIT.
O fim da escala 6x1 toca uma aspiração legítima: trabalhar menos, descansar mais, conviver mais, estudar mais, viver melhor. Poucos se opõem, em tese, a esse propósito. A questão difícil está menos no objetivo do que no modo de alcançá-lo.
Análise recente do professor José Pastore — para mim, a maior autoridade em relações do trabalho no Brasil — desloca o debate do plano moral para o plano institucional. Ele observa que a redução da jornada já vem ocorrendo por negociação coletiva: dados do Salariômetro indicam que 81% dos acordos e convenções tratam de jornada, com média praticada de 38,4 horas semanais, inferior às 40 horas prometidas pelo regime 5x2. Ou seja, o caminho da redução existe e já opera, ajustado às realidades de cada setor.
É justamente esse mecanismo que a proposta ameaça enfraquecer ao pretender substituir a negociação por uma imposição constitucional uniforme, com transição curta e revogação de normas coletivas em vigor. O problema, portanto, não está na ideia de trabalhar menos, mas em trocar a construção pactuada por um comando geral, aplicado indistintamente a atividades profundamente diferentes.
O Brasil tem uma estrutura produtiva desigual. Uma grande empresa de tecnologia, uma rede varejista, uma padaria de bairro, um hospital e uma pequena oficina não reorganizam jornadas com a mesma facilidade. A negociação coletiva permite calibrar soluções conforme o setor, a região, o tamanho da empresa e a natureza da atividade. A imposição legal rígida, ao contrário, tende a deslocar o problema para onde há menor capacidade de absorvê-lo.
Há ainda um ponto quase ausente na retórica dos que querem acabar com a escala 6x1: a informalidade. A taxa de informalidade chegou a 37,5% no trimestre de novembro de 2025 a janeiro de 2026, o equivalente a 38,5 milhões de trabalhadores informais. Ou seja, mais de um terço dos ocupados brasileiros já vive fora da proteção plena da legislação trabalhista.
Uma reforma que alcança apenas o emprego formal pode agradar quem está dentro, mas ser irrelevante — ou até prejudicial — para quem está fora. Se o custo da formalização subir abruptamente, parte das empresas poderá reduzir vagas formais, terceirizar de modo precário ou recorrer a arranjos informais. O trabalhador que se pretendia proteger pode acabar tendo de trocar uma jornada excessiva por uma ocupação desprotegida.
O problema brasileiro não é trabalhar muito: é conviver com baixa produtividade e informalidade elevada. A pergunta, portanto, não é se trabalhar menos é desejável. Em muitos casos, é. A pergunta é se o Brasil deve abandonar o caminho flexível da negociação coletiva — que já vem reduzindo jornadas — para adotar uma fórmula única, constitucionalizada e de difícil adaptação. Sem essa cautela, a boa intenção corre o risco de se converter em mais uma promessa generosa que, como alerta o professor Pastore, pode voltar como bumerangue sobre os mesmos trabalhadores que dizia proteger.
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