Dica do editor - Nesta coluna do The Washington Post, Mônica Romano diz que fumou maconha durante 20 anos e se deu mal

O artigo de opinião escrito por Mônica Romano e publicado neste domingo no The Washington Post (o editor acaba de ler) traz reflexões profundas sobre as quase duas décadas de uso diário de cannabis que começaram na sua adolescência.

O relato destaca quatro grandes lições que ela gostaria de ter compreendido aos 13 anos de idade:1

1. A automedicação não resolve problemas reais. A cannabis acalmava a ansiedade temporariamente. O uso impedia o aprendizado de mecanismos reais de enfrentamento. A confiança que ela achava que pegava emprestado da droga era apenas adiada. 

2. O medo inicial se transformou em paranoia crônica na vida adulta. O uso diário gerava pensamentos obsessivos e insegurança social extrema. Especialistas alertam que o início precoce (12-14 anos) altera o desenvolvimento cerebral. Há riscos elevados de psicose, depressão crônica e esquizofrenia. 

3. Ondas implacáveis de bronquite surgiram no final dos seus 20 anos. Ela chegou a tossir sangue devido ao impacto do fumo contínuo. Estudos recentes apontam perdas no desenvolvimento da memória e atenção em adolescentes. 

4. A ilusão de que seria fácil parar
Mônica manteve o hábito mesmo após se formar na faculdade e se tornar mãe.A única pausa longa ocorreu estritamente durante a sua gravidez. O vício se provou muito mais difícil de quebrar do que ela imaginava na juventude.

A autora conclui pontuando que o uso pesado na adolescência molda negativamente a identidade, as oportunidades e a forma como o indivíduo lida com as próprias emoções. 




Artigo, A democracia da Faria Lima fechou para balanço

 Em 2022, bancos, industriais e entidades empresariais apresentaram-se como guardiões do Estado de Direito. Assinaram manifestos e repetiram que democra cia, independência entre os Poderes e respeito às instituições eram valores ine gociáveis. A Febraban aderiu ao documento articulado pela Fiesp, “Em Defesa da Democracia e da Justiça”. Naquele momento, a Faria Lima encontrou voz, palco e vocabulário cívico. Quatro anos depois, o compromisso enfrenta um teste menos confortável. Alexan dre de Moraes proibiu Flávio Bolsonaro de visitar o pai por 90 dias. Em seguida, sus pendeu por 30 dias as demais visitas sociais externas a Jair Bolsonaro. A medida con tra Flávio atravessa o primeiro turno e impede que um pré-candidato à Presidência encontre o próprio pai durante praticamente toda a campanha. Tudo começou com a divulgação de uma carta em que Jair Bolsonaro manifestava apoio político ao filho. A partir dela, uma decisão individual rompeu temporaria mente o convívio familiar, alcançou pessoas que não participaram da publicação e ampliou o controle judicial sobre manifestações atribuídas ao ex-presidente. Não é preciso ser bolsonarista para reconhecer que o episódio ultrapassa uma disputa pro cessual. Há uma questão institucional evidente diante do país. E isso pesa. É justamente agora, porém, que os democratas corporativos de 2022 parecem ter perdido a fala. Até o fechamento deste artigo, não havia sido localizada manifestação pública da Fiesp ou da Febraban sobre a extensão da medida, seus efeitos familiares ou sua interferência no calendário eleitoral. As entidades que tratavam tensões com o Judiciário como emergência democrática não demonstraram igual inquietação quando a excepcionalidade partiu do próprio Judiciário e atingiu Jair Bolsonaro. O silêncio não prova concordância, medo ou cumplicidade. Revela, no mínimo, uma escolha de prioridades. Quando tarifas, impostos e ameaças a contratos entram em cena, notas públicas surgem com rapidez. Quando um pai é impedido de receber os filhos e um presidenciável é afastado de sua principal referência política durante a campanha, instala-se a cautela institucional. A Faria Lima não precisava declarar apoio a Bolsonaro. Bastava fazer aquilo que dizia defender: sustentar que nenhum Poder está acima do escrutínio público e que garantias não podem variar conforme a popularidade do atingido. A OAB mos trou que isso era possível ao invocar prerrogativas profissionais sem absolver o ex-presidente, atacar o Supremo ou aderir à candidatura. Defendeu um princípio, não um personagem. Fiesp e Febraban poderiam fazer o mesmo. Poderiam perguntar se separar pai e filho por 90 dias era compatível com os valores que proclamaram. Poderiam lem brar que decisões judiciais devem ser cumpridas sem transformar obediência em silêncio reverencial e que independência entre os Poderes não significa imunidade à crítica. Preferiram, até aqui, a discrição. A pergunta não é se banqueiros e empresários gostam de Jair Bolsonaro. É se acre ditam na democracia que anunciaram ao país em 2022. Princípios só merecem esse nome quando valem também para adversários, condenados e figuras impopulares. Quando dependem do alvo, tornam-se instrumentos de ocasião. Democracia com hedge ideológico não é compromisso institucional. É posição de carteira. E, quando o possível excesso não ameaça lucros nem aparece na planilha de risco, a democracia da Faria Lima fecha para balanço

Artigo, especial, Facundo Cerúleo - A copa e a cara do Brasil

O saudoso jornalista e escritor Walter Galvani dizia que as seleções de futebol espelham características do povo que representam. A seleção da Itália (que anda sumida), por exemplo, teria o temperamento sanguíneo e a alegria barulhenta dos italianos. A uruguaia, com a alma charrua do seu povo, mostraria uma garra feroz e o espírito de jamais desistir da luta. A da Espanha mostraria a coragem atrevida e a persistência de um povo que, além de jogar bola, não teme os touros.

Para Galvani, a seleção brasileira tinha, então, a ginga, a alegria, o improviso mais criativo e uma certa malemolência, ou seja, o jeito bem brasileiro de tocar a vida.

Escrevo de memória. Não sei se Walter Galvani chegou a publicar essas apreciações que ele expressou numa conversa entre amigos na década de 1990 e que me pareceram instigantes. E imagino o que ele diria hoje ao observar o desempenho de nossa seleção.

Onde foi parar a ginga, a alegria, o improviso mais criativo e até uma certa malemolência, que, no passado, fez da seleção brasileira a mais admirada do mundo?

A copa de 2026 mostrou muita coisa. Vimos seleções de menor envergadura técnica mostrarem uma sinergia, uma entrega e um entusiasmo que não se viu na seleção brasileira. Quem não vibrou com a seleção de Cabo Verde? Para quem não sabe, Cabo Verde tem pouco mais de meio milhão de pessoas.

E não dá raiva, ver a Argentina jogar? A média de idade de sua equipe é bem superior à de nossa seleção. Que entrega! Que virilidade! (Nem sei se não estou usando uma expressão politicamente incorreta...) A catimba dos argentinos entrou em campo como sempre: copa do mundo, Libertadores, amistosos, qualquer jogo. Pode-se gostar ou não, mas não se pode falar que eles não dão o sangue pela equipe ou, mais exato, por sua pátria.

Já o Brasil foi um fracasso - fracasso, porque era de se esperar mais. E isso tem muitas causas. Nossos clubes já não formam jogadores para seus plantéis, mas para vender aos estrangeiros. E os atletas saem do país muito jovens e, lá fora, são amestrados para jogar um futebol de força, de transição, de correria, sem as características que faziam do nosso futebol o melhor do mundo. Eles não têm mais as nossas raízes. Em 1970, todos os jogadores da seleção jogavam em clubes brasileiros. Hoje como é? Antes, era comum que alguns clubes formassem a base da seleção e os jogadores se conhecessem do dia a dia. Hoje eles se conhecem pela TV, vendo os jogos uns dos outros. Em breves linhas é isso. Só que é preciso descobrir a causa dessas causas...

Mas eu lembrei Walter Galvani e fiquei pensando se ele perceberia certas coincidências. Será que ele diria que a seleção de hoje é um retrato do Brasil? Essa seria uma análise para o antropólogo Roberto DaMatta. Mas, vá lá. Nos últimos 45 anos, o brasileiro vem sendo amestrado para berrar por seus direitos sem a contrapartida de responsabilidade. Diariamente, nas escolas, principalmente nas faculdades, nas entrelinhas da imprensa e no discurso de políticos populistas, o que se propõe é que as pessoas esperem que "alguém faça alguma coisa". Quem empreende é acusado de só sugar o sangue dos outros. Tem até "figurinha empoderada" que acha muito natural "roubar" celular para tomar uma cervejinha... Parecerão ideias desconexas? Tudo isso leva a uma passividade burra e irresponsável. O resultado no dia a dia é desaparecer a ginga, a alegria, o improviso criativo e até aquela malemolência tão simpática, embora improdutiva se falamos de dar providências de garantir a subsistência.

Quem são os nossos jogadores? Com o cuidado de evitar generalizações, sobretudo por não conhecer de perto nenhum dos atletas, vale registrar o que muitas pessoas apontam. Durante a copa, nos dias de folga, jogadores de outras seleções estavam focados, inclusive estudando o adversário da rodada seguinte. Enquanto isso, alguns dos nossos andavam no shopping em busca de relógios de luxo e tolices afins. Nem todos funcionavam do mesmo jeito, mas não se via, no geral, a energia nem a inconformidade se a coisa ia mal. Ninguém mostrando destacada liderança! Uma passividade que não poderia redundar em vitória. Analistas do futebol vêm dizendo que muitos dos nossos não mostram na seleção a qualidade com que jogam nos seus clubes. E falta, para muitos, compensar limitações com esforço, com empenho, garra, ousadia, com grandeza de espírito. O Brasil perde no "mental", fator que hoje torna todo mundo, ao menos, competitivo.

Será exato esse quadro? Será que Galvani o veria como um retrato dessa pasmaceira para a qual estamos sendo empurrados há décadas?

Por fim, uma curiosidade. Uma análise patrimonial, coisa que, aliás, não importa, mostraria que o grupo de 2026 é o mais rico de todos os tempos. Tudo bem! Se o mercado paga alto pelo talento dos atletas, eles seriam idiotas se recusassem. A questão é que o futebol se espalha para além das quatro linhas. Há todo um entorno, um ambiente que infla o ego dos fracos de espírito, os que pensam mais em ser celebridade do que noutra coisa. Há muita gente interessada no negócio, aplaudindo e reforçando a ostentação. E tudo isso compõe a força (ou a fraqueza) de um grupo. O que esperar de milionários com mentalidade de bolsa família?

O ambiente do futebol, a mentalidade prevalente no país, a atitude do povo brasileiro, ou seja, a passividade da maioria que se deixa conduzir por uma minoria oportunista, tudo isso compõe a cara do Brasil atual.

Como sair dessa? Enquanto o brasileiro não compreender que a iniciativa pessoal é o mais importante e enquanto persistir a tola expectativa de que "alguém tem que fazer alguma coisa", seguiremos andando para trás. Inclusive no futebol. Sem título. Sem copa. Sem brilho. Sem graça.


Concessões form repelidas

 O governo Lula, PT, aceitou discutir a abertura do mercado para produtos americanos, incluindo etanol e tecnologia da informação, na tentativa de evitar as sobretaxas do governo dos EUA, mas fez isto tarde demais e sem sucesso, tudo porque o Brasil impôs limites e se recusou a negociar temas como o sistema de pagamentos Pix.

Apesar das concessões em cerca de 300 produtos, a Casa Branca manteve a aplicação da tarifa de 25% sobre exportações brasileiras a partir de 22 de julho.

O que o Brasil ofereceu
 Pela primeira vez, o governo ofertou uma redução de tarifas de importação para a entrada de máquinas, equipamentos e produtos de tecnologia da informação dos EUA. Também concordou em discutir o mercado de etanol, desde que os americanos reduzissem as tarifas sobre o açúcar brasileiro.

Linhas vermelhas (O que o Brasil recusou):
O Palácio do Planalto manteve o Pix, regras de regulação de plataformas digitais e minerais críticos fora das negociações, classificando as exigências americanas sobre esses pontos como inaceitáveis.