Instalação de farmácias em supermercados pode facilitar o
acesso a medicamentos fora dos grandes centros
- Segundo a Associação Brasileira de Supermercados, em cidades
menores, onde a rede de grandes farmácias nem sempre chega, o setor
supermercadista pode suprir atuais falhas de abastecimento por ter maior
capilaridade.
Por Vladimir Goitia, Para o Valor — São Paulo
30/06/2026 - 05h04
O varejo farmacêutico continua se expandindo a passos largos
no Brasil, impulsionado por fatores como o envelhecimento da população, o
avanço de produtos como os da categoria GLP-1 (conhecidos como canetas
emagrecedoras, desenvolvidos para ajudar a regular o açúcar no sangue) e o
aumento da digitalização — a expectativa é neste ano ter expansão similar à de
2025, quando cresceu 14,9%, segundo a Associação Brasileira de Redes de
Farmácias e Drogarias (Abrafarma). Neste ano, há um novo fator no cenário: a
possibilidade de instalação de farmácias e drogarias dentro de supermercados,
agora autorizada por lei, que facilitará o acesso a medicamentos.
No entanto, a expectativa é que isso não necessariamente
traga redução dos preços — como seria de esperar, pelo aumento da concorrência.
Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma, explica que o setor já opera em um
ambiente altamente competitivo, e o consumidor tem ampla possibilidade de
comparação entre canais físicos e digitais, já que os fornecedores são os
mesmos.
“Eventuais ganhos de competitividade devem ocorrer mais pela
ampliação da eficiência operacional do que necessariamente por uma guerra de
preços”, diz ele. Apesar de o varejo alimentar brasileiro contar com pouco mais
de 439 mil lojas, por onde transitam cerca de 30 milhões de consumidores por
dia, Barreto avalia ser difícil saber quanto dessa integração (farmácias e
supermercados) pode avançar.
“Ao contrário, alguns países têm recomendado a revisão de
aberturas de outros canais em razão do aumento de intoxicações e uso indevido
de medicamentos. Há dezenas de estudos científicos que levantam uma bandeira
amarela para esse tema”, explica Barreto. O executivo ressalta, entretanto, que
a nova legislação exige agora espaço segregado, cumprimento integral das normas
sanitárias, presença permanente de um farmacêutico e rastreabilidade dos
medicamentos: “Ou seja, não se trata da simples venda de medicamentos em
supermercados, mas da instalação de uma farmácia regular dentro daquele
ambiente”.
Barreto lembra que o varejo farmacêutico reúne mais de 90
mil pontos de venda em todo o território nacional, com presença até mesmo em
cidades onde não há Unidades Básicas de Saúde (UBSs). A Abrafarma aponta que o
Brasil já possui elevada densidade de farmácias nos grandes centros urbanos.
Por isso, avalia que o potencial de expansão desse serviço em supermercados
está menos associado às capitais e mais relacionado às cidades menores, bairros
periféricos e regiões com menor cobertura. “A ampliação de canais de acesso a
medicamento é válida, desde que regulamentada por rígidos e claros padrões
sanitários e assistenciais”, pondera Barreto.
Márcio Milan, vice-presidente de relações institucionais e
administrativo da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), concorda.
Para ele, em cidades menores, onde a rede de grandes farmácias nem sempre
chega, o setor supermercadista poderá suprir atuais falhas na cadeia de
abastecimento por ter maior capilaridade.
“O objetivo é ampliar o acesso do consumidor, aumentar a
conveniência e gerar mais concorrência em benefício da população”, diz. Milan
lembra que, entre 1994 e 1995, o Brasil vivenciou a experiência de venda de
remédios em supermercados, período em que foi registrada uma queda de 35% nos
preços. “Porém, à época, somente medicamentos isentos de prescrição (MIPs)
podiam ser vendidos nesses estabelecimentos. Agora, a nova lei representa um
grande avanço ao oferecer farmácia completa dentro de supermercados, com a
presença de farmacêutico, ampliando a segurança e o acesso à saúde da
população”, acrescenta.
Supermercados como o Grupo Carrefour Brasil estão avaliando
os desdobramentos da nova legislação e as oportunidades que ela pode gerar.
“Eventuais iniciativas nessa frente serão analisadas com base em critérios
operacionais, regulatórios e de experiência do cliente, sempre respeitando as
exigências legais e sanitárias”, afirma Júlio Alves, CMO do Carrefour e Sam’s
Club. Para ele, a possibilidade de venda de medicamentos em supermercados está
alinhada ao conceito de “one stop shop” (loja de parada única, onde o
consumidor encontra ampla variedade de produtos ou serviços em um único lugar).
O grupo conta hoje com 98 drogarias das bandeiras Carrefour e Atacadão que
funcionam nas galerias de suas lojas, fora do salão de vendas.
“Em diversos mercados internacionais, esse modelo se
consolidou como forma de reunir diferentes necessidades, oferecendo mais
comodidade”, explica Alves. Na prática, o supermercado passa a incorporar uma
nova missão de compra à rotina do cliente, permitindo que ele adquira
medicamentos, vitaminas, itens de cuidado pessoal durante suas compras do dia a
dia. “No varejo, esse movimento é conhecido como ´compra por conveniência´ ou
´compra de oportunidade´. Ou seja, o consumidor que vai à loja comprar pão e
iogurte pode, na mesma visita, adquirir um antigripal ou vitamina C. Essa
modalidade tende a gerar ganhos em recorrência, aumento do tíquete médio e
ampliação da cesta de compras”, aponta Alves.
O CEO da Abrafarma considera que as perspectivas para o
varejo farmacêutico continuam positivas: “O setor farmacêutico brasileiro
continua sendo um dos segmentos mais resilientes da economia, sustentado por
fatores estruturais, como envelhecimento populacional, maior preocupação com
prevenção e ampliação da demanda por cuidados primários”, diz.
Nessa onda, a rede Pague Menos encerrou 2025 com resultados
recordes e crescimento consistente acima da média do mercado farmacêutico. A
companhia registrou R$ 16 bilhões em vendas, avanço de 18,3% em relação a 2024.
Apenas no quarto trimestre do ano passado, a receita atingiu R$ 4,3 bilhões,
com crescimento de 19,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Walace
Siffert, vice-presidente comercial da Pague Menos, explica que o desempenho foi
sustentado tanto pelo aumento de volume quanto pela evolução do tíquete médio.
Ainda em 2025, os atendimentos na rede Pague Menos cresceram
7,9%, enquanto o tíquete médio avançou 9,6%. Outro destaque, segundo Siffert,
foi o avanço do atendimento digital, que alcançou R$ 3,1 bilhões em vendas
omnichannel (integração entre canais de venda e comunicação, como lojas
físicas, site e redes sociais) em 2025, que apontou crescimento de 55%. Para
2026, as perspectivas continuam positivas, sustentadas pela continuidade da
estratégia de crescimento com rentabilidade, expansão desse ecossistema de
vendas e o fortalecimento do posicionamento da companhia como hub de saúde.
“Os resultados do primeiro trimestre demonstram essa
trajetória. A Pague Menos iniciou 2026 com receita bruta de R$ 4,1 bilhões,
crescimento de 14,4%, além de expansão de margem e crescimento de 36,1% no
Ebitda ajustado, marcando o sétimo trimestre consecutivo com avanço superior a
30% nesse indicador”, informa Siffert. Segundo ele, a companhia também continua
ampliando a participação digital, que já representa 22,2% da receita bruta
total, além de continuar investindo em serviços clínicos, vacinação e na integração
entre canais físicos e digitais.
Sobre a eventual instalação de novas unidades em
supermercados, a Pague Menos prefere não comentar sobre o tema. A empresa
também não divulga dados de investimentos ou projeções. Para 2026, Siffert
informa apenas que a companhia segue avaliando oportunidades de expansão de
forma disciplinada, especialmente em mercados estratégicos nos quais já possui
forte presença e potencial de ganho de participação.