Felipe Vieira é jornalista.
Ao longo de 65 anos de atividade profissional, Políbio Braga construiu uma das trajetórias mais longevas e influentes do jornalismo gaúcho. Começou a trabalhar aos 17 anos e, desde então, acompanhou praticamente todas as grandes transformações políticas, econômicas e sociais do Rio Grande do Sul e do Brasil.
Sua carreira passou por algumas das mais importantes redações do país. Trabalhou nos jornais Diário Catarinense, Correio da Manhã, Última Hora, Gazeta Mercantil, Zero Hora, Correio do Povo e Jornal do Comércio, além das revistas Veja e Exame. Também teve presença marcante no rádio e na televisão, participando de programas na RBS, Band, TV Pampa e TV Guaíba.
Mas sua atuação nunca se limitou aos veículos em que trabalhou. Ao longo das décadas, consolidou um estilo próprio, marcado pela busca permanente por informações de bastidores, pela cobertura política e econômica e pela disposição de expor opiniões sem receio de contrariar consensos.
Talvez por isso tenha conseguido atravessar diferentes épocas da comunicação mantendo relevância. Quando a internet ainda era vista com desconfiança por muitos profissionais da imprensa tradicional, Políbio apostou no ambiente digital. O blog que leva seu nome tornou-se uma referência diária para leitores interessados em política, economia, administração pública e nos movimentos que antecedem os acontecimentos mais importantes da vida pública gaúcha e nacional.
Mais do que acompanhar os fatos, ele participou de muitos deles. Sua experiência ultrapassou as redações. Políbio Braga exerceu funções públicas importantes, ocupando as secretarias municipais da Fazenda e da Indústria e Comércio de Porto Alegre, além da chefia da Casa Civil do Governo do Estado. A vivência dentro da administração pública ampliou sua compreensão sobre os mecanismos do poder e ajudou a moldar o olhar crítico que caracteriza sua produção jornalística.
Mais do que observador da história, Políbio Braga também foi personagem de um dos períodos mais difíceis da vida política brasileira. Durante a ditadura militar, foi preso em 16 estados por razões políticas e encarcerado no Presídio do Ahú, em Curitiba, experiência que marcou profundamente sua formação pessoal e profissional.
Décadas mais tarde, revisitaria aquele período no livro Ahú – Diários de Uma Prisão Política, obra em que relata o cotidiano dos presos políticos, os interrogatórios, as incertezas e o ambiente de tensão vivido por quem se opunha ao regime. Em páginas construídas a partir de suas lembranças e registros da época, o jornalista recupera episódios que ajudam a compreender não apenas sua trajetória pessoal, mas também um capítulo importante da história brasileira.
A passagem pelo cárcere ajuda a compreender por que a defesa da liberdade de expressão, do direito à divergência e do livre debate de ideias se tornaram temas permanentes em sua trajetória. Para alguém que experimentou na própria vida as consequências da restrição das liberdades individuais, a defesa desses valores nunca foi apenas uma posição teórica. Tornou-se parte inseparável de sua história.
Ao refletir sobre sua longa caminhada profissional, Políbio costuma demonstrar a serenidade de quem conhece os desafios de uma carreira construída ao longo de décadas. “Não tenho nada do que me arrepender até hoje. A gente erra para depois acertar”, afirmou recentemente.
A frase sintetiza uma trajetória marcada pela disposição de assumir posições e enfrentar debates. Ele próprio se define como um “destemido”, tanto no jornalismo quanto na vida pública. Ao recordar sua atuação profissional, destacou uma convicção que o acompanha desde o início da carreira: “Sempre busquei a verdade dos fatos. Nunca evitei o contraditório diante dos que mentem descaradamente”.
Sua visão sobre o papel da imprensa também ajuda a compreender sua permanência no debate público. Para Políbio, o jornalista não deve ser um simples observador dos acontecimentos. Deve interpretar os fatos, confrontar versões e oferecer ao leitor elementos para a formação de sua própria opinião. “A médio e longo prazos, a verdade se estabelece. A mentira não permanece”, costuma afirmar.
É justamente essa trajetória que será reconhecida nesta sexta-feira, 26 de junho, às 11h, quando Políbio Braga receberá o Troféu Liberdade, distinção concedida anualmente pelo deputado estadual Rodrigo Lorenzoni a personalidades gaúchas que prestam relevantes serviços à causa da liberdade.
A cerimônia ocorrerá no Salão Júlio de Castilhos, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Mais do que reconhecer uma carreira profissional, a homenagem busca destacar valores que marcaram a atuação do jornalista ao longo de mais de seis décadas: independência, coragem para defender suas convicções e compromisso com a livre circulação de ideias.
Em tempos de polarização, desinformação e questionamentos sobre os limites da liberdade de expressão, a homenagem ganha um significado que ultrapassa a figura do homenageado. Ela remete a um princípio fundamental do jornalismo: a defesa do direito de informar, investigar, questionar e expressar opiniões sem medo.
Políbio Braga pertence a uma geração de jornalistas que aprendeu a profissão nas ruas, nas redações e no contato direto com as fontes. Ao longo dos anos, acompanhou governos, crises econômicas, eleições, transformações tecnológicas e mudanças profundas no próprio jornalismo. Adaptou-se aos novos meios sem abandonar a essência do ofício: buscar informação e compartilhá-la com seus leitores.
Por isso, mais do que uma homenagem individual, o Troféu Liberdade representa o reconhecimento a uma vida dedicada à comunicação e à defesa de um dos valores mais importantes da democracia.
Num país em que a liberdade de expressão frequentemente é colocada à prova, homenagear Políbio Braga é também lembrar que o jornalismo só cumpre sua missão quando existe espaço para a pluralidade, o contraditório e o livre debate de ideias.
E poucas trajetórias simbolizam isso de forma tão clara quanto a dele.
SERVIÇO:
Entrega do Troféu Liberdade a Políbio Braga
Data: 26 de junho de 2026 (sexta-feira)
Horário: 11h
Local: Salão Júlio de Castilhos – Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul
Endereço: Praça Marechal Deodoro (Praça da Matriz), Centro Histórico, Porto Alegre
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