Artigo, especial, Dagoberto Godoy - Jair Messias ainda pode vencer

O autor é ex-presidente da Fiergs, advogado, engenheiro e escritor.

É um caso exemplar da velha máxima: “a união faz a força”. Nenhuma marca política sobrevive por muito tempo quando seus principais portadores passam a disputar entre si a herança que deveriam preservar. O bolsonarismo nasceu da liderança pessoal de Jair Bolsonaro, consolidou-se como movimento nacional e transformou-se numa força eleitoral capaz de mobilizar milhões de brasileiros. Mas essa força, justamente por depender tanto de símbolos, lealdades e identificação emocional, pode ser enfraquecida quando a própria família transmite ao eleitorado a impressão de divisão, improviso e disputa interna.

Talvez ainda haja tempo de resgatar a marca e a candidatura. Para isso, contudo, Jair Bolsonaro precisaria sair da posição acuada em que se encontra diante de Alexandre de Moraes e reassumir, no plano político e familiar, o papel de liderança que sempre exerceu sobre sua base. Se não pode ser candidato, ainda pode ser o grande ordenador do campo que criou. Sua missão, nesse momento, não seria apenas denunciar adversários ou reagir a ataques, mas organizar a sucessão, pacificar os seus e impedir que a força acumulada ao longo dos anos se disperse em ressentimentos domésticos.

A disputa entre o filho e a mulher, se conduzida publicamente, corrói a autoridade moral do grupo. O eleitor comum pode tolerar divergências estratégicas, mas não costuma perdoar a sensação de descontrole. Uma família política que pretende governar o país precisa, antes, demonstrar capacidade de governar a si mesma. Quando a divergência interna se transforma em espetáculo, o adversário nem precisa atacar: basta assistir.

A solução, portanto, não está em escolher um vencedor dentro da família, mas em transformar a competição interna em ação coordenada. Michelle possui carisma próprio, forte apelo junto ao eleitorado conservador e capacidade de comunicação com segmentos que nem sempre se identificam diretamente com a linguagem mais dura da política tradicional. Flávio, por sua vez, tem mandato, experiência parlamentar, sobrenome, estrutura partidária e condição mais imediata de ocupar o espaço eleitoral deixado pelo pai. Em vez de se anularem, esses ativos deveriam se complementar.

Caberia a Jair Bolsonaro reunir essas forças em torno de uma estratégia comum. Michelle poderia ampliar a base afetiva e social do movimento; Flávio poderia assumir a linha institucional da candidatura; os demais aliados deveriam funcionar como sustentação, não como focos paralelos de intriga. Sem essa coordenação, cada gesto isolado passa a ser interpretado como sinal de racha. Com ela, a família voltaria a transmitir a imagem de comando, disciplina e destino compartilhado.

A grande questão é que Jair Bolsonaro talvez ainda seja, mesmo fora da urna, o único capaz de produzir essa unidade. A sua liderança não depende apenas de cargo ou candidatura formal. Depende da autoridade simbólica que conserva sobre uma parcela expressiva do eleitorado. Se usar essa autoridade para pacificar a família, ordenar a sucessão e transformar ambições concorrentes em papéis complementares, poderá fazer aquilo que líderes fortes fazem nos momentos decisivos: vencer politicamente mesmo sem disputar pessoalmente a eleição.

Em outras palavras, Bolsonaro ainda pode ganhar a eleição sem ser ele mesmo candidato. Mas, para isso, precisa compreender que a batalha principal já não se trava apenas contra seus adversários externos. Trava-se também dentro do próprio campo que ele criou. E é justamente aí que a possibilidade de vitória começa pela unidade.


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