O 3 a 0 não ilude: a Escócia exigirá uma Seleção muito mais intensa do que a vista contra o Haiti.
A vitória por 3 a 0 sobre o Haiti, na noite de ontem, na Filadélfia, pela segunda rodada da Copa do Mundo FIFA 2026, deveria trazer tranquilidade para a torcida brasileira. Afinal, o placar foi confortável, Mateus Cunha marcou duas vezes, Vini Jr. deixou o seu e o Brasil somou mais três pontos. Mas quem assistiu ao jogo com atenção sabe que o resultado esconde problemas preocupantes.
Confesso que saí mais preocupado do que após aquele primeiro tempo tenebroso diante do Marrocos. E isso porque o Haiti está muito longe de representar um adversário de alto nível. Trata-se de uma seleção praticamente amadora para os padrões de uma Copa do Mundo. Seu principal jogador é o meia-atacante Jean-Ricner Bellegarde, do Wolverhampton Wanderers, clube que fez uma campanha desastrosa na Inglaterra e acabou rebaixado para a segunda divisão.
No primeiro tempo, o Brasil até conseguiu criar. A estratégia foi simples: lançamentos diretos para o trio ofensivo. Funcionou em parte. As oportunidades apareceram aos montes, mas também foram desperdiçadas em quantidade semelhante. Raphinha, mais uma vez, teve atuação decepcionante, acumulando erros técnicos e decisões equivocadas.
Por outro lado, Vinicius Júnior assumiu definitivamente o papel de protagonista da Seleção. Hoje, não há dúvida de que ele é a principal estrela do time. Já Mateus Cunha mostrou novamente que precisa ser titular. A comparação com Igor Thiago é quase injusta. A diferença entre ambos lembra a distância entre uma Ferrari e um Lada Niva. Movimentação, velocidade, inteligência e capacidade de definição colocam Cunha em outro patamar.
O problema apareceu no segundo tempo. Com a vantagem construída, o Brasil simplesmente sentou sobre o resultado. O Haiti passou a gostar do jogo, criou oportunidades e obrigou Alisson a trabalhar intensamente. Aliás, o goleiro foi um dos melhores em campo, talvez em sua melhor atuação pela Seleção nos últimos anos. Isso, por si só, já deveria servir de alerta. Quando o goleiro precisa ser destaque contra o Haiti, algo está errado.
A partida também reforçou uma impressão que esta Copa vem deixando cada vez mais clara: Marquinhos, Casemiro e Raphinha não deveriam mais ser titulares absolutos. O futebol moderno exige intensidade, imposição física e velocidade. Esses atributos têm sido decisivos neste Mundial. O trio, por diferentes razões, parece estar um passo atrás do ritmo exigido pela competição.
Por isso, as entradas de Danilo Santos, Ryan e Endrick tornam-se fundamentais. São jogadores capazes de oferecer energia, aceleração e agressividade ofensiva. Se o Brasil pretende sonhar com algo além da fase de grupos, será necessário renovar a espinha dorsal da equipe e apostar em quem pode entregar mais dinamismo.
Que ninguém se deixe enganar pelo placar. Não foi o 3 a 0 que resolveu os problemas da Seleção. Muito pelo contrário. O resultado mascara deficiências que podem custar caro nas fases decisivas.
O próximo desafio diante da Escócia promete ser bem diferente. Os escoceses defendem-se com extrema organização, montam linhas compactas e transformam cada jogo em um verdadeiro ferrolho. Para superar essa retranca, o Brasil precisará exatamente daquilo que faltou em vários momentos contra o Haiti: intensidade, força física, movimentação constante e velocidade.
O "Mister" precisa reavaliar alguns conceitos antes que seja tarde. Copa do Mundo não perdoa teimosia. E a impressão deixada na Filadélfia é que, apesar da vitória, a Seleção ainda está longe de convencer.
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