Artigo, Astor Wartchow - Gambiarra vergonhosa

Gambiarra Vergonhosa
Astor Wartchow
Advogado

Fazendo jus ao histórico jeitinho brasileiro, como se fosse um “puxadinho” da casa ou uma improvisada extensão de luz, aquém da boa técnica, foi lastimável o desfecho do processo de impeachment a cargo dos senadores, isto é, ao separarem as consequências, afastamento definitivo e inelegibilidade.
Ainda não se sabe a dimensão do acordo de bastidores, nem quem são “os pais da criança”, embora evidente a liderança intelectual de Renan Calheiros e senadores petistas. E se Lewandowski não foi ativo, foi gravemente omisso.
Mais: o notório acerto entre PMDB e PT permite supor que a gambiarra possa vir a favorecer a defesa e “salvação” de seus partidários, acusados e indiciados atuais e futuros.
Esclarecendo: o processo de impeachment é um procedimento de natureza política e tem explicitamente prevista na constituição sua extensão e “punição”. O afastamento e a inelegibilidade de oito anos não são separáveis ou independentes.
De modo que o que ocorreu foi duplamente vergonhoso e desastroso, seja porque produção de parlamentares que juraram a constituição, seja porque o ato foi presidido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal.
Em determinado momento dos trabalhos, o ministro Lewandowski afirmou que o processo seria semelhante ao processo penal e ao tribunal do júri. Um absurdo.
Ao contrário do processo penal e do tribunal de júri, no impeachment não há pena de reclusão, de restrição de direitos e/ou penas alternativas, pena de detenção, não há recurso e não há hipótese de novo júri.
No impeachment não há pena. Há sanção política. Afastamento definitivo e inelegibilidade por oito anos. Previsão constitucional. Decisão do Senado e irrecorrível.
Ironicamente, presente no ato de votação o ex-presidente Collor que recebera o tratamento correto. Alias, fruto daquela época e fato há decisão do próprio STF dizendo que são inseparáveis o afastamento e a inelegibilidade.
Não bastasse a evidência deste absurdo, houve outra violação. Indiretamente mudaram a Constituição. Mas a Constituição tem exigências especiais para ser modificada.
A Constituição somente poderá ser emendada mediante proposta de um terço (no mínimo) dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal. Discutida e votada em cada casa (Câmara e Senado), em dois turnos, considerando-se aprovada se obtiver, em ambos, três quintos dos votos dos respectivos membros.
Ou seja, grosseiramente violaram (uma minoria, é verdade) a Constituição duas vezes, em poucos minutos, em rede nacional e sem nenhum pudor. Sob a presidência de um juiz do Supremo Tribunal Federal. Uma combinação lastimável.
      A invenção do dia, além de ser uma gambiarra, é de nulidade absoluta!




Prefeitura faz corpo mole e não licita exploração publicitária nas empresas de ônibus

Prefeitura faz corpo mole e não licita exploração publicitária nas empresas de ônibus

A Prefeitura de Porto Alegre é obrigada a fazer licitação para a exploração publicitária de todas as empresas de ônibus e também dos lotações.  A única empresa de ônibus de Porto Alegre que licita a propaganda que exibe em seus veículos é a Carris. As outras empresas de ônibus e lotações exibem publicidade em seus vidros traseiros, os chamados busdoors, sem licitação. A própria licitação realizada em 2015 para a renovação do transporte público da cidade prevê esta obrigatoriedade.
Desconfia-se que as eleições municipais estejam inibindo a divulgação dessa irregularidade, que pode ser confundida com algum tipo de manifestação pró ou contra determinados candidatos. Urge a necessidade de se cumprir a legislação vigente. Nem que seja para deixar um ‘recado’ ao próximo prefeito.


Segundo a licitação:
“ 7. DAS OUTRAS FONTES DE RECEITAS
7.1 São consideradas como Outras Fontes de Receita, que ao longo da CONCESSÃO serão depositadas em conta específica criada para este fim e gerida pelo PODER CONCEDENTE, revertendo em MODICIDADE tarifária:
7.1.1 Receitas oriundas da comercialização de espaços publicitários em mídia, eletrônica ou não, em ônibus, lojas, cartões, postos e equipamentos de vendas e demais instalações sob responsabilidade do PODER CONCEDENTE;
7.1.2 Receitas oriundas da exibição e distribuição de informações em sistemas de áudio e vídeo, celulares, modens, dispositivos de comunicação, totens eletrônicos ou quaisquer outros mecanismos de transmissão ou recepção, sob responsabilidade do PODER CONCEDENTE;
7.1.3 Rendimentos líquidos da aplicação financeira advindos da comercialização de créditos antecipados;
7.1.4 Rendimentos líquidos de arrecadação extratarifária; “


Artigo, Enio Meneghetti - Perdido o Poder, agora a ordem é cometer crimes nas ruas

Artigo, Enio Meneghetti - Perdido o Poder, agora a ordem é cometer crimes nas ruas

Na promoção de  arruaças, ocupações e depredações do patrimônio público e privado, sob a desculpa de protestar contra Michel Temer, a intenção é óbvia. Buscar o confronto radical e intolerante e conseguir explosões de violência. Um cadáver para chamar de seu e transformá-lo em mártir. Esse é o desejo nem tão secreto dos mentores das ações dos grupos que foram às ruas na última sexta feira, destruindo agências bancárias, lojas, propriedade pública e privada.

Espera-se que as autoridades legalmente constituídas estejam acompanhando os movimentos desses grupos extremistas que apoiam o governo Dilma e agora escolheram o “Fora Temer” – vice escolhido e eleito por eles – como o inimigo a ser combatido.

A população sabe que o processo de impeachment foi legitimo, a não ser pela vigarice do fatiamento.
As hordas que provocaram quebra-quebra e ocupações, como a do eterno braço armado do PT, o exército do Stedile, que ocupou o prédio da Receita Federal em Porto Alegre, sabem disso.

Afinal, o que tem a ver Receita Federal com MST? É  ato de pura provocação.
A esquerda brasileira não sepultou  prática do emprego da mentira e da violência política.
O que desejam, no fundo de suas mentes deturpadas, é um banho de sangue. Como não conseguirão, um cadáver já serve. Esse seria o grande prazer estético buscado por essa turma que usa da depredação e do confronto provocado contra a polícia.


Pulso firme é o único remédio contra abusos. Justiça e polícia neles.
Felizmente, Dilma Rousseff corre sério risco de ser logo processada criminalmente por tráfico de influência e tentativa de obstrução de Justiça na maracutaia de fazer Lula ministro para ajudá-lo a escapar da Justiça de I grau. Dilma sabe que também incorre em crime de responsabilidade, pela mesma razão.

As coisas estão andando. Na manhã desta segunda feira, 600 policiais federais saíram as para cumprir mandados referentes a atos ilícitos cometidos em fundos de pensão. Trata- se da operação Greenfield.
Os investigadores apuram fraudes contra FUNCEF, PETROS, PREVI e POSTALIS. São 127 mandados. Um dos alvos da PF é o ex-presidente do FUNCEF.Carlos Alberto Caser, ligado a Ricardo Berzoini e João Vaccari Neto.
Os mandados judiciais foram expedidos pela 10ª Vara Federal de Brasília.  São sete de prisão temporária, 106 de busca e apreensão e 34 de condução coercitiva nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Amazonas, além do Distrito Federal. Foi determinado também o sequestro de bens e o bloqueio de contas bancárias de 103 pessoas,  no valor aproximado de R$ 8 bilhões. Dilma deverá dizer que não sabia de nada. Nem Lula.

Para não parar por aí, Delcídio Amaral prestou depoimento à força-tarefa da Lava Jato na quinta-feira passada e declarou que Lula comandava o esquema de corrupção na Petrobras.

Delcídio afirmou que Lula cuidou pessoalmente do rateio político de diretorias da Petrobras. Envolvia-se na divisão dos postos e na escolha dos nomes indicados pelos partidos. Disse ainda que Lula tinha pleno conhecimento de que os partidos aliados a seu governo usavam as diretorias da estatal para cobrar propinas de empreiteiras e fornecedores da Petrobras. Tratava-se, na definição do delator, de uma ação de governo voltada à compra de apoio parlamentar no Congresso.
As informações que prestou em Curitiba devem ser usadas em inquéritos que correm contra Lula, também submetido à Justiça de primeiro grau.
Espera-se que tudo isso ande rápido, antes que seus apoiadores toquem fogo no país em ações diárias.
Enio Meneghetti


VOLTEM PARA A ESCOLA PRIMÁRIA

          No meu longínquo tempo de estudante – tudo bem, já estou na terceira idade e posso falar assim – a hierarquia escolar tinha como início o “Jardim de Infância”, seguido dos cinco (5) anos do curso “Primário”.
         Eu cursei estas primeiras fases em uma escola pública, no Grupo Escolar Otelo Rosa, em Porto Alegre, de onde ainda me relaciono com queridos amigos daquele tempo, como o Juarez W., a Ana Rosa, o Balduíno, a Margarete, o Dudu, entre outros. Também me lembro de alguns dos mestres, como a D. Haidée, a nossa diretora; Dona Teresinha Abreu e Dona Noeli, professoras respeitadas e admiradas por todos.
         Pois foi lá no “Curso Primário” que reforçamos os ensinamentos trazidos de casa: a educação e o respeito pelos mais velhos; as noções de higiene pessoal (inclusive com a apresentação impecável do nosso uniforme – na época um alvo e bem passado guarda-pó); ser honesto e jamais mentir. Não porque isso fosse pecado, mas porque a verdade e a honestidade fazem parte integrante do caráter de uma pessoa.
         Ah, foi lá também que aprendemos a conviver em grupos, a escrever, e entender a tabuada, fazer contas.
         No Grupo Escolar, descobrimos que castigo é consequência de um erro cometido, de um desvio de conduta, e não um ato de abuso de autoridade.
         Além da saudade, estas lições não foram nunca esquecidas. Pelo menos por mim.
         Apesar da matemática nunca ter sido o meu forte, desde então sei fazer as contas; somar, diminuir, multiplicar e dividir.
         E faço o possível para – sempre – falar a verdade. Mesmo quando esta não me favoreça.
         Acontece que lendo os jornais nos últimos dias, me deparei com algumas absurdas contradições. Certamente de autoria de pessoas que, ou não receberam os mesmos ensinamentos que eu, ou os esqueceram ao longo da vida.
         Assim, vejo manchetes que dizem: “multidões saem às ruas contra o impeachment da Dilma”; ou, “centenas de venezuelanos se juntam para contestar o governo de Maduro”. E, as fotos que ilustram as matérias mostram exatamente o contrário. Ou seja, “as multidões” não passam de grupelhos (pequenos grupos, segundo os dicionários), e “as centenas de manifestantes” são, na realidade, milhares (ou milhões) de pessoas.
         As fotos não mentem. Contra fatos não há argumentos, nos ensina a lógica!
         Então, chego a (triste) conclusão que os editorialistas que permitem tais esparrelas em seus jornais não cursaram o “Primário”, ou esqueceram-se completamente daquelas lições sobre a tabuada e também relativas à honestidade e verdade.
         Porque, somente alguém muito mal intencionado pode se dar ao luxo de confundir grupelhos com multidões e centenas com milhares.
         Quem sabe algum destes vigilantes jornalistas não comete este equívoco matemático contra si? Pegando uma centena de reais emprestados e devolvendo alguns milhares de reais ao seu amigo credor. Sem juros ou correção, numa operação singela de toma lá dá cá.
         É desta forma que os formadores de opinião pretendem ser confiáveis? Ser respeitados?
         Ora, também aprendemos na infância que devemos respeitar para sermos respeitados.
         Creio que está mais do que na hora destas pessoas voltarem à escola primária.
         E de lá saírem somente após ter compreendido as lições.


         Marcelo Aiquel – advogado (06/09/2016)

Taurus é acusada de vender armas a traficante internacional

De acordo com o MP, empresa sediada em Porto Alegre repassou pistolas e revólveres a iemenita, violando sanções internacionais
(Clayton de Souza/AE/VEJA)

Maior fabricante de armamentos da América Latina, a brasileira Forjas Taurus, sediada em Porto Alegre, é acusada de vender armas ao iemenita Fares Mohammed Mana’a, apontado pelas Nações Unidas como um dos maiores traficantes de armas do mundo. Ele enviou os armamentos ao Iêmen, que vive hoje uma guerra civil – uma violação às sanções internacionais.

As vendas foram negociadas e fechadas, segundo denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal à Justiça Federal do Rio Grande do Sul, à qual a agência Reuters teve acesso, apesar de a empresa saber das restrições de negócios com o traficante iemenita. Os procuradores acusaram em maio dois ex-executivos da Taurus de enviar 8.000 pistolas e revólveres de uso exclusivo das forças policiais para Mana’a, que atua na região do Chifre da África, também conhecida como península Somali, há mais de uma década.

As armas foram supostamente enviadas pela Taurus para Djibuti e redirecionadas para o Iêmen por Mana’a, de acordo com documentos judiciais.

Na lista de países sob embargo da Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2014 e também do governo dos Estados Unidos, o Iêmen, localizado no Oriente Médio, na extremidade sudoeste da Península Arábica, é desde o ano passado castigado por uma guerra civil brutal, que já matou milhares de militares e civis. Os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, desafiam o governo aliado da Arábia Saudita. Devido ao embargo, o Iêmen não pode receber armas de nenhum porte. O conflito deixou, nos últimos 18 meses, ao menos 10.000 mortos no país, incluindo cerca de 4.000 civis, segundo a ONU.

A ação penal, que foi aberta pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul e corre em segredo de Justiça, afirma que os ex-executivos da empresa Eduardo Pezzuol (gerente de exportação) e Leonardo Sperry (supervisor de exportação) fecharam em 2013 a venda de 2 milhões de dólares em armas para Mana’a. Em 2015,negociavam uma segunda entrega, desta vez de 11.000 pistolas e revólveres, quando foram surpreendidos por uma investigação da Polícia Federal.

“Se a autoridade policial não tivesse surpreendido a parceria comercial entre a Taurus e o traficante, novas encomendas certamente seriam feitas”, diz o texto da denúncia feita pelo Ministério Público. A denúncia cita tabelas encontradas em computadores da Taurus que mostram pagamentos periódicos de Mana’a à empresa desde 2013.

O caso pode prejudicar a Taurus, importante fornecedora de armas para as polícias e as Forças Armadas do Brasil, além de ser uma das cinco maiores fabricantes de pistolas e revólveres para o mercado dos Estados Unidos, onde vende três quartos de sua produção. O Brasil é o quarto maior exportador mundial de armas de pequeno porte. O Ministério Público concentra o processo, por enquanto, nos dois ex-executivos da empresa que comandaram as negociações.

A denúncia do Ministério Público, no entanto, deixa claro que os procuradores vêem responsabilidade direta da Taurus, que teria usado Mana’a e suas empresas como um distribuidor no Oriente Médio e na África, para outros países além do Iêmen, incluindo Sudão, Sudão do Sul e Etiópia.

Procurados pela Reuters, os executivos não responderam aos e-mails. O advogado dos acusados, Alexandre Wunderlich, afirmou também por e-mail, que a denúncia do MPF “não revela a verdade dos fatos” e que “todos os atos que são objeto do processo foram praticados no âmbito exclusivo da empresa e amparados na legalidade”. Não quis, no entanto, tratar do assunto em detalhes alegando que o processo está em segredo de Justiça. A Taurus afirmou à Reuters que não é parte do processo e “tampouco foi formalmente acusada”.

Por e-mail, disse que “está acompanhando o processo na condição de interessada, uma vez que adotou postura colaborativa e está auxiliando a Justiça na elucidação dos fatos” e que “considerando que o processo está tramitando em segredo de Justiça a companhia não está autorizada a fornecer quaisquer detalhes sobre o caso”.

Os então executivos da Taurus chegaram a trazer Mana’a ao Brasil, de acordo com os documentos do Ministério Público, em janeiro de 2015, com a justificativa de uma visita à fábrica da empresa no Rio Grande do Sul. Sperry e Pezzuol pediram ao Ministério das Relações Exteriores, em nome da Taurus, uma carta-convite para Fares Mana’a. O documento foi negado sob a alegação de que o “empresário” vinha de um país com restrições para transações comerciais.

Os procuradores acusam, na denúncia, a Taurus de ter então tentado conseguir um falso passaporte do Djibuti para Mana’a, em uma tentativa de dar mais veracidade à história criada para o traficante, mas o esquema não funcionou. Ainda assim, o iemenita entrou no Brasil em 21 de janeiro de 2015, usando outro documento com nome e data de nascimento falsos, segundo a denúncia.

Incluído na lista da ONU como traficante internacional de armas em 2010, Mana’a é acusado de suprir armas para o grupo extremista somali Al Shabaab e para piratas da região. De acordo com o relatório da ONU, o iemenita negocia armas na região do Chifre da África, também conhecida como península Somali, e na Europa Oriental desde 2003. O iemenita teve, entre outras sanções, ativos congelados nos Estados Unidos e tem uma pena de banimento de viagens.

“Não há como a Taurus e seus funcionários alegarem desconhecimento dos feitos atribuídos a Mana’a, pois Leonardo Sperry declarou (em depoimento) que é praxe da Taurus pesquisar na Internet sobre pessoas convidadas ao Brasil”, diz a denúncia do MPF.

O caso foi descoberto pela Polícia Federal em setembro de2015. Os dois executivos foram então chamados para depor e confessaram as negociações com Mana’a. Logo depois do depoimento, Sperry enviou um e-mail a Mana’a informando que as negociações para a segunda venda teriam que ser suspensas”devido a recentes contatos com as autoridades brasileiras”.

Em 4 de novembro de 2015 foi realizada uma operação de busca e apreensão na Taurus e foram levados computadores e documentos. Nesses computadores, a Polícia Federal e o MPF encontraram dezenas de correios eletrônicos que confirmam as negociações e mostram, inclusive, que a empresa sabia das restrições de comércio com Mana’a e o Iêmen e buscou alternativas para driblaras sanções internacionais.

Em um dos e-mails, Pezzuol afirma que “caso a Taurus decida vender ao Iêmen, o caminho parece ser através de Mohammed Mana’a”, que abriu uma nova rota através do Djibuti, pequeno país do nordeste da África, onde, exatamente do outro lado do estreito de Bab al-Mandad, está o Iêmen.

De acordo com os documentos do MPF, há indícios que a relação da Taurus com o traficante vem desde 2007, vários anos antes dos primeiros relatórios da ONU apontarem que o iemenita estaria fornecendo armas ilegalmente para soldados na guerra civil da Somália.

Entre 2011 e 2012, as negociações teriam sido suspensas, coma entrada definitiva de Mana’a na lista traficantes internacionais de armas pela ONU e pelos EUA. É a partir daí que a entrega de armas a Mana’a passa a ser através do Djibuti e com laranjas de Mana’a tomando a frente do negócio. “Em 14 de outubro de 2013, a Taurus obteve uma autorização prévia para exportação, número 788/2013, expedida pelo Comando Militar do Sul, de 8 mil armas para o ‘Ministry of Defence and National Security’ do Djibouti”, diz a denúncia. A autorização, segundo a denúncia, foi usada falsamente para enviar armas ao Iêmen.

“(Os executivos) Se valeram de fraude para simular o destino real do armamento, bem como para ocultar o envolvimento do também denunciado Fares Mana’a, uma vez que se tratava de país sob embargo internacional e pessoa sancionada pelas Nações Unidas”, diz a denúncia. Em março de 2015, uma nova leva de armas foi preparada para ser enviada a Mana’a usando a rota do Djibuti, segundo os procuradores. Um analista de exportação da empresa de logística Amazon Freight Forwarders, responsável pela entrega, pediu repetidamente por e-mail os contatos de quem receberia a carga no Djibuti, mas sem sucesso. Todas as informações repassadas à empresa eram de pessoas no Iêmen. “Djibuti era um ‘entreposto fictício’ para exportação”, diz a denúncia.

“Restou claro como a empresa Taurus se valia de notório traficante internacional de armas, que faria a triangulação das mercadorias para outros países, especialmente para o Iêmen”, diz a denúncia. As duas empresas de fachada de Mana’a, Itkhan e Al Sharq Fishing and Fish, seriam usadas para negociar o armamento enviado pela Taurus, segundo a denúncia.

No final de maio deste ano, o juiz Ricardo Borne, da 11ªVara Federal de Porto Alegre, aceitou a denúncia contra Pezzuol e Sperry e determinou a inclusão de Mana’a na lista de procurados da Interpol, além de pedir o levantamento das contas bancárias da Forjas Taurus para possível posterior sequestro de valores.

Os dois executivos são acusados, assim como Mana’a, de tráfico internacional de armas, pelo artigo 18 da lei 10.826,pela qual é proibido “importar, exportar, favorecer a entrada ou saída do território nacional, a qualquer título, de arma de fogo, acessório ou munição, sem autorização da autoridade competente”.

O juiz também determinou a expedição de ofícios para que sejam notificadas as embaixadas dos Estados Unidos, Arábia Saudita, Egito, além do Ministério das Relações Exteriores e ONU, revelando as investigações contra a empresa por venda ilegal de armas. A decisão, no entanto, foi suspensa dois dias depois por uma liminar do desembargador João Pedro Gebran Neto, da 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª região, a pedido da Taurus. A empresa alegou que a expedição de ofícios poderia trazer”prejuízos econômicos” para a empresa.

Até agora, no entanto, a ação penal se concentra nos dois executivos que, de acordo com seus currículos na rede LinkedIn, deixaram a Taurus logo depois de serem denunciados pelo MPF. Ambos trabalham atualmente em uma empresa de cerâmicas em Santa Catarina. Mana’a, que foi governador, entre 2011 e 2014, do distrito de Sa’dah, um reduto dos rebeldes houthis, no Iêmen, não foi encontrado para responder às acusações. A Justiça brasileira divulgou um edital de citação, usado para intimar e processar Mana’a à revelia.

A venda ilegal de armas para um traficante e para um país sob sanção da ONU pode trazer enormes prejuízos econômicos à empresa. A própria ONU pode estabelecer sanções contra a Taurus, de acordo com a legislação internacional adotada pelo Conselho de Segurança da organização. Além disso, a empresa possui uma fábrica nos Estados Unidos -Taurus International Manufactoring Inc- que pode vir ser afetada se for acusada de descumprir sanções impostas pelo governo americano.

PF investiga quatro senadores do PMDB por Belo Monte

A Polícia Federal aponta indícios de que o PMDB e quatro senadores do partido receberam propina das empresas que construíram a usina de Belo Monte, no Pará, por meio de doações legais, segundo relatório que integra inquérito que corre no Supremo Tribunal Federal.

A reportagem é da Folha de hoje. Leia mais:

Um dos indícios é o volume de contribuições que o PMDB recebeu das empresas que integram o consórcio que construiu a hidrelétrica: foram R$  159,2 milhões nas eleições de 2010, 2012 e 2014, segundo o documento sigiloso, ao qual a Folha teve acesso.

O montante é a soma de doações oficiais de nove empresas que integram o consórcio para o diretório nacional, diretórios estaduais e comitês financeiros do partido.

Como comparação, o valor é mais do que o dobro dos R$ 65 milhões que as principais empresas investigadas na Lava Jato (Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Engevix, Queiroz Galvão e Galvão Engenharia) doaram oficialmente para a campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2014.

O PMDB é acusado de ter recebido propina em Belo Monte porque o partido indicou o ministro de Minas e Energia e controlava as empresas da área.

Delatores da Lava Jato, como o ex-presidente da Andrade Gutierrez Otávio Marques de Azevedo, contaram em acordos com procuradores que o consórcio que fez a obra da usina teve de pagar suborno de 1%  sobre o valor do contrato, de R$ 13,4 bilhões. Segundo essa versão, o suborno seria de R$ 134 milhões.

De acordo com outro delator, Flávio Barra, da AG Energia, boa parte da propina foi paga por meio de doações oficiais a partidos.

O relatório da PF junta essa versão com informações de outro delator, o ex-senador Delcídio do Amaral,  de que senadores peemedebistas comandavam esquemas de desvios de empresas do setor elétrico: Renan Calheiros (AL), presidente do Senado, Jader Barbalho (PA), Romero Jucá (RR) e Valdir Raupp (RO).


A conclusão do documento é que todos os quatro receberam as maiores contribuições de suas campanhas não de empresas, mas do PMDB.

Artigo, Mary Zaidan,O Globo - Supremo imbróglio

Supremo imbróglio

O país encerrou o mês de agosto com o afastamento definitivo de Dilma Rousseff e a posse do presidente Michel Temer, pondo fim a uma agonia de nove meses. Mas, diferentemente do dito popular, está longe de encerrar o desgosto.

Na economia até se veem sinais de que o poço tem fundo e dele é possível emergir. Já na política, a lama é movediça, cada vez mais densa e viscosa, com o agravante de que a própria Corte Suprema está no meio do lodo.

O que se tem é um sistema em que se multiplicam absurdos.

O país possui uma Constituição recente e gigante, com 250 artigos, e, creiam, acumula quase incríveis duzentas mil leis. Ainda assim, ou por isso mesmo, depende cotidianamente do STF.

E não só para consertar a lambança que o presidente do colegiado, Ricardo Lewandowski, fez ao permitir o fatiamento do artigo 52 da Constituição na sessão de votação do impeachment, algo que está sendo contestado por mais de uma dezena de processos.

O Supremo está em tudo. Delibera sobre a manutenção ou não de prisões preventivas e o bloqueio do aplicativo WhatApp; desde a liberação de pesquisas com células tronco à proibição do amianto crisotila. Disso, daquilo e muito mais.

Diante de leis ultrapassadas, confusas e falhas, é quem dá as cartas. Manda mais do que o Executivo e o Legislativo e, consequentemente, desequilibra o que deveria ser paritário e harmônico.

Isso não ocorre à toa.

Por omissão, preguiça ou oportunismo, o Legislativo procrastina tudo aquilo que dele depende – aperfeiçoamento ou alterações constitucionais, leis complementares e até ordinárias. Por vezes, é cabresto do Executivo, que dele faz gato e sapato. Por outras, rebela-se, inventa do nada regras e leis. E acaba diante da Suprema Corte, como reclamante ou réu.

Esse é o caso do fatiamento. O Senado é réu, cumplice e parte.

Um imbróglio kafkiano em que o Supremo, senhor da Constituição, terá de julgar uma inconstitucionalidade latente protagonizada e avalizada por seu presidente.

Ainda como presidente do STF, cargo que passará para a ministra Carmen Lúcia no dia 12, Lewandowski também estrela outro julgamento-chave: a prisão de condenados em segunda instância. Aprovada pelo apertado placar de 7 a 4 em fevereiro deste ano, a questão é tida como fundamental para o combate à corrupção, mas foi afrouxada em duas decisões monocráticas.

Em julho, assim como fizera o ministro Celso de Mello um mês antes, Lewandowski contrariou a maioria e decidiu suspender a execução provisória de prisão por crime de responsabilidade imposta a um condenado em segunda instância.

Esse foi também o entendimento do ministro Marco Aurélio Mello, relator da matéria nesta fase, repetindo o voto que fizera há seis meses.

O tema deverá voltar ao plenário esta semana. Com ele, o debate sobre a impunidade, amparada em mecanismos de protelação de cumprimento de penas a partir de infindos recursos a tribunais superiores.

Um convite ao crime, em especial para aqueles que têm recursos para bancar advogados por anos a fio.

Não dá para prever resultados nem para o disparate do fatiamento de um artigo constitucional -- que se não for contido pode virar moda --, nem para a liberação de presos condenados pela segunda instância.


Mas ambas impõem urgência ao Supremo. A Corte pode atuar como guincho no lamaçal ou chafurdar-se.