Eliane Cantanhêde: De jararaca a crocodilo

Eliane Cantanhêde: De jararaca a crocodilo

Não sobra pedra sobre pedra, mas Lula tinha cartão pré-pago milionário fora de campanha

Publicado no Estadão

O ex-presidente Lula tem razão ao dizer que “cai a máscara” de todo o mundo político, porque tudo é realmente esclarecedor, além de estarrecedor, nas delações da cúpula da Odebrecht. Mas que adjetivo usar para a “conta Amigo” da Odebrecht? Era uma saco sem fundo, um cartão pré-pago em favor de Lula e gerenciado pelo ex-ministro Antonio Palocci.

Na versão de Marcelo Odebrecht, tanto para o juiz Sérgio Moro quanto para os procuradores, eram R$ 40 milhões à disposição de Palocci, o “Itália” das planilhas, que enviava emissários com sacolas para sacar R$ 1 milhão, R$ 2 milhões, R$ 3 milhões – em espécie!

Mesmo quando entravam em campo ministros como Guido Mantega e Paulo Bernardo, quem dizia “sim” a operações, negociatas, pagamentos e saques era Palocci. Está claro que ele agia como tesoureiro pessoal de Lula. E, aliás, jamais revelou quem era o proprietário real do apartamento de R$ 7 milhões que foi o pivô de sua queda da Casa Civil.

Nos demais envolvidos, havia caixa 2 e/ou relação de causa e efeito entre doações de campanha e favorecimento à empresa em licitações ou votações no Congresso, mas Lula tinha um tratamento muito diferenciado, com um saldo livre, independentemente de campanhas, mais uma ajudazinha para seu filho, seu irmão, seu sítio… A Odebrecht comprou não um mandato, mas o próprio Lula.

Ao atingir tão profundamente Lula, que já é réu em cinco processos, as delações têm impacto decisivo em 2018. Com Lula na disputa, o cenário é um, excluindo outros candidatos à esquerda e deixando os demais girando em torno dele. Sem Lula, o cenário é outro, com um estouro da boiada à esquerda, ao centro e à direita, repetindo aquela multidão de candidatos de 1989, quando se deu o desastre Collor.

Aliás, o que é a Odebrecht? Um conglomerado empresarial, uma empreiteira, um banco ou uma fábrica de corrupção? Sabe-se agora onde foram parar R$ 450 milhões que fluíram para os políticos, mas falta explicar de onde vieram. E ainda tem OAS, Camargo Corrêa…

Os vídeos e áudios, transmitidos incansavelmente, são a maior aula de política brasileira jamais vista ou imaginada neste País, mas vocês já repararam a tranquilidade, a coloquialidade, com que Emílio e Marcelo Odebrecht descrevem esse roteiro macabro? Eles falam as coisas mais absurdas como se fosse um palitar de dentes, assim como os executivos da empresa se referem ao tal Setor de Operações Estruturadas como se fosse normal como o almoxarifado. Isso revela décadas de compra do poder, tanto que são listados todos os ex-presidentes vivos, Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma.

Não há um governo, um dos maiores partidos, um dos principais líderes que escapem do terremoto. Não parece sobrar pedra sobre pedra nas pré-candidaturas petistas nem tucanas nem peemedebistas para 2018, nem legitimidade para os atuais e ex-presidentes da Câmara e do Senado tocarem a reforma da Previdência.

A estratégia do Planalto e do mercado de tentar separar duas pautas para o País, uma da Lava Jato, outra do “Brasil real”, parece não ter resistido dois dias. Se o presidente Michel Temer cumpriu agenda normal na quarta-feira, ontem já gravou um vídeo para negar que tenha participado de um pedido de US$ 40 milhões para o PMDB em uma reunião em São Paulo: “Jamais colocaria minha biografia em risco”. Ele acusou o golpe.

Piada. Em nota, assessores de Dilma dizem que “todas as decisões do seu governo foram voltadas ao desenvolvimento do País, buscando o bem-estar da população, a partir do programa eleito nas urnas”. Uma frase, três piadas.


Guerra. Como as delações são em vídeos, as reações dos políticos (FHC, Temer, Renan…) também passaram a ser. É vídeo contra vídeo.

Riocardo Noblat, O Globo - A Nova República vem aí! Será?

A Nova República vem aí! Será?

Porque a Justiça não cedeu à inércia, aliada da impunidade e, por tabela, cúmplice da corrupção, o Brasil deu ontem um passo importante na direção do que Tancredo Neves pregou para se eleger presidente em 1985, mas não viveu para ver: o possível surgimento de uma Nova República.

Deu-se esse nome, erradamente, à fase de transição entre a ditadura de 64 que durou 21 anos e a consolidação da democracia restaurada por aqui. Mas que democracia foi essa que se deixou corromper pelos males de um presidencialismo mercantil de cooptação à falta de outros meio para se sustentar?

Antes, o presidente governava com base no apoio de partidos ideológicos, à esquerda ou à direita. Cada um deles, bem ou mal, defendia seu projeto de país. Havia distribuição de cargos, natural que houvesse para a formação de maioria no Congresso. Mas não com a intenção deliberada de roubar e de deixar que roubassem.

O roubo sempre existiu e sempre existirá. Mas com a multiplicação desenfreada dos partidos, dos sindicatos e de outras entidades a eles ligadas, o roubo inflacionou o preço dos apoios, os custos das campanhas e degradou os valores e princípios que caracterizam – ou que deveriam caracterizar – o regime democrático.

A democracia manda que as eleições sejam disputadas em igualdade de condições pelos candidatos. O Caixa 2 favorece um lado em detrimento do outro menos aquinhoado. A propina pura e simples também. Mais ainda quando ela deriva da compra de medidas governamentais e de contratos superfaturados.

Só para ficarmos em um único exemplo: não foi isso o que aconteceu na última eleição presidencial? Em parte por arrogância, em parte do excesso de realismo, o empresário Marcelo Odebrecht disse em depoimento à Justiça que foi ele que inventou a candidatura da ex-presidente Dilma à reeleição. Por que?

Ora, porque foi a construtora que carrega seu sobrenome que tornou a reeleição de Dilma factível mediante a doação de milhões de reais omitidos à Justiça, e o pagamento no exterior de serviços prestados à campanha. Quando isso acontece, subverte-se a livre manifestação do desejo dos eleitores. É crime de lesa democracia.

Se em casa falta luz, a primeira coisa que fazemos é conferir se o disjuntor caiu. Disjunção! Os representantes do povo, e as instituições que eles integram, desligaram-se dos seus representados. A democracia, por mais formal que seja, deu à luz entre nós a uma sociedade mais exigente e a uma imprensa mais atenta.


O resultado é o que vemos. Que seja só o começo. Amém.” (Ricardo Noblat)

Sai Lula. Entra Luiz Inácio Odebrecht da Silva

Sai Lula. Entra Luiz Inácio Odebrecht da Silva
Ricardo Noblat

A Suderj informa: substituição no time do PT. Sai Lula, o retirante nordestino que sobreviveu à seca e à miséria, também conhecido como “O Pai dos Pobres”, o “Messias do rio São Francisco” ou simplesmente  “O Cara”, assim batizado no melhor de sua forma física pelo ex-presidente americano Barack Obama.

Entra Luiz Inácio Odebrecht da Silva, o garoto descoberto nas greves da região do ABC paulista nos anos 80 do século passado pela maior empreiteira da América Latina, próspero negociante de sua própria fama, e que ao aderir ao chamado mundo da bola preferiu se apresentar sob a alcunha de “Metamorfose Ambulante”.

Ao fazê-lo, forneceu todas as pistas para que afinal fosse decifrado, mas isso estava muito acima da capacidade de compreensão dos seus contemporâneos. Lula, de há muito, deixara de ser apenas um nome. Fora promovido à condição de sobrenome para proteger sua numerosa família que passou a se beneficiar do seu sucesso pessoal.

A história de Luiz Inácio Odebrecht da Silva começou a ser contada quando o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, suspendeu o sigilo em torno das delações de executivos da empreiteira que está no centro do maior escândalo de corrupção do mundo, segundo o Departamento de Estado do governo dos Estados Unidos.

Segundo Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira, condenado e preso em Curitiba, Lula chegou a registrar um saldo de R$ 40 milhões de reais em sua conta-propina administrada pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. Desse total, Lula sacou, no mínimo, R$ 30 milhões em dinheiro vivo de 2002 para cá.

Homem de família - embora certa vez tenha se assustado com o boato de que havia fotos suas em meio a uma farra em Manaus -, cuidou para que ela levasse a vida com razoável conforto. Para o irmão que o iníciou nas artes da política, Frei Chico, conseguiu que a Odebrecht lhe pagasse uma mesada mensal em troca de nada.

Para seu filho caçula, Luís Cláudio, que a Odebrecht financiasse seus negócios na área do futebol americano. Foi a Odebrecht, ao seu pedido, que introduziu em Angola a empresa de construção civil do seu sobrinho Taigara Rodrigues. A empresa, ali, não foi bem-sucedida. Mas Taigara ganhou o seu pago pela Odebrecht.

Conforme revelou Emílio Odebrecht, o patriarca da família com negócios em mais de 20 países, não foi Lula que pediu que a empreiteira reformasse em Atibaia o sítio onde a família costumava repousar. Foi dona Marisa, mulher dele, que morreu recentemente às turras com o marido e com medo da Lava Jato.

Mas quando Lula recebeu Emílio no Palácio do Planalto no seu penúltimo dia como presidente da República, Emílio apressou-se a dizer que a reforma do sítio ficara pronta. Chamou-o de “chefe”, por hábito. Pensou que desmanchara a surpresa que Marisa lhe reservara. Lula já sabia de tudo. Sempre soube.

Sabia também que a Odebrecht comprara um terreno para abrigar a futura sede do Instituto Lula (mais tarde Lula desistiu da ideia). E sabia que a Odebrecht tinha novos planos para ele. O principal: carregá-lo pelo mundo como conferencista capaz de lhe abrir novas portas de negócios. Pagaria por palestra o que ele cobrasse.

“Nosso objetivo inicial foi conseguir um projeto que pudesse remunerar o ex-presidente Lula, face o que ele fez durante muitos anos para o grupo. E que fosse de uma maneira lícita, transparente”, delatou Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht. “Depois descobrimos que ele poderia nos ajudar em negócios no exterior”.

Com todas as despesas de viagens pagas pela Odebrecht, Lula passou a ganhar entre 150 mil a 200 mil dólares por palestra. Enriqueceu rápido. Só parou de fazer palestras quando a Odebrecht entrou definitivamente no radar da Lava Jato. Por gentileza, Emílio tratava-o de “chefe”. De fato, o chefe sempre foi Emílio.

A serviço de Emílio, ainda no seu primeiro governo, por exemplo, Lula chegou a impedir que a Petrobras comprasse ativos do Grupo Ipiranga para garantir que a Odebrecht, por meio de uma subsidiária, continuasse hegemônica no setor de combustíveis. Prejudicou a estatal. Mais tarde, a Odebrecht comprou o grupo.

Outro exemplo: em 2007, no seu segundo governo, Lula foi acionado por Emílio para resolver o problema criado pelo Ibama que se negava a dar uma licença ambiental para a construção da hidroelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, obra da Odebrecht. A licença não saía por conta de uma área de reprodução de bragres.

- Eu fui a ele e disse: ‘O país precisa de energia e vai ser paralisado por causa do bagre? O senhor precisa tomar uma decisão’ – delatou Emílio. Lula tomou – e a licença saiu. O episódio marcou o início do enfraquecimento de Marina Silva no cargo de Ministra do Meio Ambiente. Ela pediu demissão meses depois.

Emílio conheceu Lula nos anos 70. Na época, a Odebrecht enfrentava uma greve geral no Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia. “Ele (Lula) criou as condições para que eu pudesse ter uma relação diferenciada com os sindicatos”, confessou Emílio. Em Camaçari, despontou um líder sindical de nome Jaques Wagner.

“Lula pega as coisas rápido. Ele percebe aquilo que tem a ver com intuição pura. É um animal político, um animal intuitivo”, disserta Emílio, que sempre “apoiou Lula” com conselhos e dinheiro. Ajudou-o na confecção da “Carta ao Povo Brasileiro”, divulgada em 2002 para acalmar o mercado financeiro às vésperas da eleição.


Foi uma relação proveitosa para os dois enquanto durou.

Embaiador alemão conta planos da Fraport parao Salgado Filho

Apesar de ressaltar que, em curto prazo, o foco da empresa alemã Fraport será estabilizar a operação do aeroporto Salgado Filho e atrair mais cargas para o complexo, o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, afirmou em almoço a Câmara Brasil-Alemanha no Plaza São Rafael esta semana que a instalação da companhia em Porto Alegre abre a possibilidade para o incremento do transporte aéreo. O dirigente espera um incremento do número de voos internacionais para países como Uruguai e Argentina, além da retomada das viagens para os Estados Unidos, mais frequências de voos para a Europa, hoje realizados pela TAP, assim como novos destinos como, talvez, o México e a China. Atualmente, quanto aos lugares e procedências internacionais com ligação com o Salgado Filho, há voos para Montevidéu, Lisboa, Panamá, Buenos Aires e Lima. As operações diretamente para Miami, nos Estados Unidos, foram interrompidas em março de 2016. A Fraport venceu recentemente o leilão pela concessão do aeroporto gaúcho e a contrapartida em investimentos prevista é de pelo menos R$ 1,9 bilhão que contempla, entre outros pontos, a ampliação da pista. Conforme Witschel, desde 2014 vem diminuindo o fluxo de passageiros entre o Brasil e outras nações e um aumento de voos dependerá do interesse das companhias aéreas. Porém, a perspectiva é de que o tráfego aéreo crescerá com a recuperação da economia brasileira. "Depois de uma crise profunda, nós vemos as primeiras flores da primavera, os primeiros sinais de uma recuperação econômica", frisa o dirigente. O embaixador acrescenta que, com esse cenário, vêm as indicações de mais investimentos alemães no País. Um deles é justamente o da Fraport. Witschel ressalta que se trata de uma oportunidade para não somente reformar o aeroporto, mas para estabelecer um centro de cargas aéreas e reduzir o custo de exportações a partir da região. O embaixador reforça que os dados apresentados no momento quanto à economia nacional são melhores do que nos últimos três anos. O dirigente destaca a estimativa de aumento de Produto Interno Bruto (PIB), redução dos juros, investimentos vindos do exterior e inflação baixa. Para o Brasil, Witschel trabalha com o cálculo de elevação de 0,5% do PIB para este ano. Mesmo que esse percentual não seja alcançado devido a algum escândalo, como o caso investigado pela Operação Carne Fraca, argumenta Witschel, a percepção é de que a retração da economia chegou ao fim. Contudo, Witschel admite que, politicamente, o País atravessa ainda uma fase de tensões e mudanças e que, sem os esclarecimentos dos episódios corrupção, o crescimento não será sustentável. Alemanha projeta crescimento econômico A expectativa é de que o PIB alemão obtenha um incremento de 1,4% em 2017, em relação ao ano passado, adianta o embaixador Georg Witschel. O dirigente enfatiza que a Alemanha possui uma economia robusta e pode ser vista como uma âncora de estabilidade econômica e política do mundo. Sobre a relação com outra potência, os Estados Unidos, o embaixador menciona que o presidente Donald Trump pode ser uma dor de cabeça, mas também é um parceiro importante. "Queremos trabalhar com ele, não contra ele", pondera. A crítica fica por conta das elevadas taxas aduaneiras norte-americanas impostas às empresas alemãs que atuam no setor do aço. Witschel foi o palestrante da reunião-almoço da Câmara Brasil-Alemanha no Rio Grande do Sul promovida ontem, no hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre. O convidado arrancou algumas risadas do público de empresários quando comentou que há cerca de três semanas encontrou-se com o prefeito de São Paulo, João Doria Jr. (PSDB), que comunicou a intenção de introduzir uma Oktoberfest na capital paulista. Essa é a segunda vez que o embaixador visita o Rio Grande do Sul, a primeira ocorreu em novembro. Witschel reforça que o Sul representa a raiz histórica da relação Brasil e Alemanha, registrando uma forte presença de companhias alemãs. Anteontem, também foi aberto o Centro de Estudos Europeus e Alemães em Porto Alegre, na Pucrs, que tem o objetivo de apoiar estudos acadêmicos, prestar auxílio financeiro para estudantes, fazer workshops, entre outras ações. Ainda neste ano, será realizado o 35º Encontro Econômico Brasil - Alemanha, no Centro de Eventos da Fiergs, entre os dias 12 e 14 de novembro. 

Artigo, Carlos Brickman - O pior para Lula ainda está por vir e não será só da Odebrecht

Título original: AMIGO É COISA PRA SE PAGAR
 Coluna Carlos Brickmann

Sexta-feira Santa, domingo de Páscoa e, enfim, na segunda-feira que vem, 2017 começa de verdade. A previsão é de tempo quente: na própria segunda, 17, João Santana e sua mulher, Mônica Moura, devem depor no TSE sobre, digamos, as doações desburocratizadas à chapa Dilma-Temer.
Na terça, ambos também deveriam ser interrogados pelo juiz Sérgio Moro, no processo do ex-ministro Antônio Palocci, acusado de receber propinas, acarajés e pixulecos para a campanha, o PT e um seleto grupo de amigos. Mas pediram adiamento para o dia 24.

Na quarta, 20, quem depõe é Léo Pinheiro, da OAS, a respeito do apartamento triplex que não é de Lula, no Guarujá. Ele também sabe alguma coisa, ao que dizem, sobre o sítio que não é de Lula em Atibaia. Pinheiro negocia com os procuradores da Lava Jato uma delação premiada. Há quem diga que a cereja do bolo é um esplêndido pixuleco que, este sim, passou a ser de quem não era dono de propriedade nenhuma.
  
Pule alguns dias: em 3 de maio, Lula deve ser ouvido por Sérgio Moro.
Deve ser um dia interessante: grupos lulistas tentam levar uma multidão a Curitiba, para no mínimo constranger o juiz Sérgio Moro e, no máximo, cercar Lula de gente, de tal maneira que o depoimento se torne impossível.

Marcelo Odebrecht disse a Moro que o tal Amigo citado nos papéis da Odebrecht recebendo milhões é mesmo Lula. As reformas milionárias em imóveis que não são dele não passam de lembrancinhas de pouco valor.

Astor Wartchow - Cavalos e Porcos

Cavalos e Porcos
 A paulatina e agressiva destruição do estado brasileiro, e por consequência a deterioração da própria sociedade, era completamente previsível para quem conhece um mínimo da literatura política universal.
 Por exemplo, é inevitável cogitar a atualidade do pensador político russo Mikhail Bakunin (1814-1876) e destacar sua celébre frase: “Tão logo se tornem governantes ou representantes do povo(...) não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."
 Parenteses: Bakunin foi o principal pensador e propagador do anarquismo. Uma teoria política que almejava criar uma sociedade que funcionasse sem hierarquias políticas, econômicas e sociais.
 Defendia a ausência de governos, na suposição de que um sistema social só funcionaria  com a maximização da liberdade individual e da igualdade social. Pregava o anti-autoritarismo, o mutualismo e o princípio descentralizador.
 Afirmava que a centralização da autoridade e do Estado criavam um obstáculo ao desenvolvimento das pessoas e das nações.  
 Profeticamente, afirmara: "(...) o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada(...), tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, (...) pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado".
 Faz muito tempo que os brasileiros são "os cavalos de carga" do estado brasileiro, literalmente transformado na fazenda da "Revolução dos Bichos", do escritor ingles George Orwel (1903-1950). Ou seja, os (cavalos) brasileiros são comandados pelos porcos. Tal qual na  obra orweliana!
 Mas como a esperança se renova, sempre haverá tempo de reflexões e mudanças. O filósofo alemão Juergen Habermas(1929), a propósito da crise do estado de bem-estar social e do esgotamento das energias utópicas, pergunta se “dispõe o estado intervencionista de poder bastante, e pode ele trabalhar com eficiência suficiente para domesticar o sistema econômico capitalista no sentido do seu programa?
 E será o emprego do poder político o método adequado para alcançar o objetivo substancial de fomento e proteção de formas emancipadas de vida dignas do homem?”
 Prossegue e responde Habermas: “Trata-se, pois, em primeiro lugar, da questão dos limites da possibilidade de conciliar capitalismo e democracia, e, em segundo lugar, da questão das possibilidades de produzir novas formas de vida com instrumentos burocráticos-jurídicos.” 


Contratos de empreiteiras investigadas na Lava-Jato somam quase R$ 40 bilhões no RS

Contratos de empreiteiras investigadas na Lava-Jato somam quase R$ 40 bilhões no RS
Do montante levantado pelo jornal Zero Hora, mais de 90% estão nos polos navais do Estado
   
Somam R$ 38,95 bilhões os contratos mantidos no Rio Grande do Sul pelas empreiteiras envolvidas na Operação Lava-Jato — investigação da Polícia Federal (PF) sobre desvios em negócios com a Petrobras. A maior parte dos valores (92,5%) refere-se a compromissos firmados pelas empresas com a estatal em obras e encomendas relacionadas aos polos navais gaúchos. As informações são do jornal Zero Hora.
Conforme levantamento de ZH, a partir de dados do Portal Transparência e de órgãos federais e estaduais, além de informações tornadas públicas pelas companhias, os maiores volumes de negócios envolvem os estaleiros em Rio Grande, no sul do Estado. No Honório Bicalho, controlado por Queiroz Galvão e Iesa Óleo e Gás, duas plataformas estão em construção, em contratos no valor de R$ 3 bilhões. Em 2013, o grupo entregou outras três plataformas à Petrobras, ao preço total de R$ 12,8 bilhões. Nos Estaleiros Rio Grande (ERG) 1 e 2, os contratos chegam a R$ 15,1 bilhões.
Apesar da grandiosidade das cifras, um clima de apreensão aflige trabalhadores da indústria naval. Se as empresas envolvidas no escândalo forem declaradas inidôneas pela Controladoria-Geral da União (CGU), poderiam ficar de fora de disputa de futuros contratos. Conforme o ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, caberá ao administrador de um contrato em andamento avaliar a conveniência da rescisão, sendo necessário analisar se o prejuízo de romper será ou não maior do que o prejuízo em se manter o negócio.
Além dos empreendimentos nos polos navais, estão nas mãos de empresas investigadas pela PF obras aguardadas há décadas pela população gaúcha: a duplicação de trechos da BR-116, executada pelo Constran, do grupo UTC Engenharia, e a segunda ponte do Guaíba, em execução pela Queiroz Galvão.
Em relação a companhias envolvidas na Lava-Jato, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou que "uma empresa fica impossibilitada de contratar com órgãos públicos a partir do momento em que é decretada inidônea". Sobre contratos em andamento, as consequências podem ser a interrupção de uma obra, acrescenta o Dnit.
Ponte trocou de empreiteira
Outro empreendimento relevante para os gaúchos, a extensão do trensurb até Novo Hamburgo foi executada pelo Consórcio Nova Via, que tem a Odebrecht como uma de suas integrantes. O trecho já opera desde maio passado.
A construtora Queiroz Galvão e a Odebrecht Transport estão entre as quatro empresas que, em abril, apresentaram propostas que irão guiar o edital para construção do metrô de Porto Alegre. Mas o gerente do Escritório MetrôPOA, Luís Cláudio Ribeiro, diz que, como as sugestões são "apenas uma contribuição", não há risco de as investigações comprometerem o projeto do metrô. A construção, prevista para começar em 2015, deve custar R$ 4,8 bilhões.
— Quando lançarmos o edital, qualquer empresa poderá se habilitar — explica.
Ainda conforme dados do Portal Transparência, os governos federal e estadual já efetuaram, pagamentos de R$ 105,6 milhões, neste ano, a empresas investigadas na Lava-Jato. Na esfera federal, o Dnit rescindiu o contrato com a Engevix Engenharia para a construção da segunda ponte do Guaíba, após decidir licitar a obra pelo regime diferenciado de contratações.
De acordo a assessoria da imprensa, o órgão "aproveitou os estudos realizados pela Engevix para a elaboração do anteprojeto", pelos quais pagou R$ 3,7 milhões (de um total de R$ 5,7 milhões previstos no contrato).
Contratos no RS
Polos navais
Estaleiro Honório Bicalho em Rio Grande
— Proprietários: o consórcio Quip formado por quatro grupos (Queiroz Galvão, Iesa, UTC Engenharia e Camargo Corrêa) deu lugar ao consórcio QGI Brasil — parceria da Queiroz Galvão e da Iesa Óleo e Gás.
— Contratos: em 2013, concluiu a construção de três plataformas (P-55, P-58 e P-63). Os negócios giraram em torno de US$ 5 bilhões (R$ 12,5 bilhões). A carteira atual, com valor de R$ 3 bilhões, prevê a construção de mais duas plataformas (P-75 e P-77). A P-75 deve entrar em operação em dezembro de 2016, enquanto a P-77, até o fim do ano seguinte.
— Atividade: inaugurado em janeiro de 2006
Estaleiros Rio Grande (ERG) 1 e 2 — Rio Grande

Foto: Estaleiro Rio Grande/Divulgação
— Proprietário: Ecovix Engenharia
— Contratos: construção de oito cascos de plataformas de petróleo
(P-66, P-67, P-68, P-69, P-70, P-71, P-72 e P-73) e de três navios-sonda de perfuração. Com prazo de entrega até 2018, somam contratos de US$ 5,9 bilhões (R$ 15,1 bilhões).
— Atividade: o estaleiro foi inaugurado em 2010, e o primeiro casco, entregue em 2014. O ERG 2, em construção, deverá produzir parte dos painéis e blocos dos cascos das oito plataformas de modelo replicante. As obras devem estar concluídas até o segundo semestre de 2015.
Estaleiro EBR — São José do Norte
— Proprietários: Estaleiros do Brasil (EBR), associação entre a japonesa Toyo Engineering e a brasileira SOG Óleo e Gás (Setal).
— Contratos: R$ 3 bilhões para a construção das plataformas P-74 e P-76.
— Atividade: como executivos confirmaram pagamento de propina para a obtenção de contratos com a estatal, há o temor na cidade de que a operação seja interrompida.
Obras de infraestrutura
Duplicação da BR-116 (lotes 1 e 2)

Foto: Constran/Divulgação
— Empresa: Constran/UTC
— Valor: R$ 278,5 milhões (os dois lotes)
— Serviços de terraplenagem, drenagem, pavimentação, obras complementares de contenção e obras de arte especiais nos lotes 1 (km 300 ao km 325) e lote 2 (km 325 ao km 351,34).
— Situação: em outubro, o lote 1 estava com 30% dos serviços previstos realizados, sendo que a continuidade da obra depende agora de liberação da Fundação Nacional do Índio (Funai), em razão da existência
de uma aldeia indígena às margens da rodovia. Quanto ao lote 2, o cronograma já está com 55% dos serviços executados. A previsão é de que os trabalhos sejam concluídos até o fim de 2015. Segundo o Dnit,
R$ 110 milhões já foram pagos à empreiteira.
Expansão do trensurb até Novo Hamburgo


Foto: Mauro Vieira/Agência RBS
— Empresa: Consórcio Nova Via (Odebrecht, Andrade Gutierrez, Toniolo, Busnello e T'Trans)
— Valor: R$ 881,56 milhões
— Construção de 9,3 quilômetros de via elevada, uma ponte metroviária, uma ponte rodoviária, cinco estações, 4,5 quilômetros de vias, 190 reassentamentos (infraestrutura e moradia), fornecimento e instalação de sistemas operacionais (energia, rede aérea, telecomunicações, sinalização e controle de tráfego e energia, sistemas auxiliares, escadas rolantes, elevadores e bilhetagem eletrônica).
— Situação: o sistema opera desde maio com cinco estações no município do Vale do Sinos. A última etapa das obras é a atualização tecnológica do Centro de Controle Operacional, no bairro Humaitá, em Porto Alegre, com previsão de conclusão para dezembro. Até o momento, 99,2% do contrato já foi realizado.
Segunda ponte do Guaíba

Foto: Ricardo Duarte/Agência RBS
— Empresa: Queiroz Galvão
— Valor: R$ 649,62 milhões
— Elaboração dos projetos básicos e executivo e execução das obras de construção de uma segunda ponte sobre o Guaíba e acessos, nas rodovias BR-116 e BR-290, em Porto Alegre.
— Situação: os trabalhos estão em estágio inicial. No dia 14 de outubro passado, foi assinada a ordem de início das obras.
Outros
Reforma na Refinaria Alberto Pasqualini (Refap) - Canoas
— Empresa: UTC Engenharia
— Contrato: o valor da licitação era de R$ 1,58 bilhão. Com os aditivos assinados ao longo de mais de três anos, o custo saltou para R$ 2,13 bilhões.
— Atividade: eram previstas duas obras — a construção da nova unidade de tratamento de diesel e a de sistemas auxiliares e infraestrutura de operação. Com um atraso de seis meses, a nova unidade de tratamento de diesel iniciou as operações no dia 3 de setembro deste ano.
Iesa Óleo e Gás (rescindido)

—  A Petrobras rescindiu um contrato de US$ 800 milhões (cerca de R$ 2 bilhões) com a unidade da empresa em Charqueadas. Conforme a estatal, o motivo foi que a empresa não estava cumprindo prazos de entrega. O grupo controlador da Iesa enfrenta dificuldades financeiras.