É de conhecimento geral que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias entre os países emergentes, cerca de 33% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Isso faz com que sejamos menos competitivos. Temos, também, um sistema injusto, complexo, ruim e ineficiente e que, nas últimas duas décadas, milhares de normas tributárias foram editadas.
Todos empresários reclamam dos tributos e reivindicam urgência da reforma tributária. Em toda a eleição esse assunto é ventilado. Os governos se sucedem, prometendo fazê-la e não há político que nunca tenha defendido.
Porém, percebe-se que o principal entrave da reforma tributária é a incerteza sobre quem ganhará ou perderá dentre a união, os estados e os municípios, em face da complexidade do atual sistema de cobrança de tributos.
Para tanto, o governo necessita equilibrar as suas contas, bem como aprovar medidas duras para combater o crescimento dos gastos. A sociedade enfrentará um dilema no próximo governo, no que diz respeito ao aumento da carga tributária ou ao corte de despesas, tais como; reajuste dos servidores, benefícios e regimes especiais de tributação.
É possível que o novo governo mantenha o reajuste dos servidores e não reduza os gastos, o que dificultará o ajuste fiscal almejado. Por isso, terá de criar tributos ou aumentar a carga tributária. Diante de uma concentração de renda tão alta, fala-se no congresso que há espaço para aumento dos tributos sobre os mais ricos e para redução das renúncias tributárias, sem impacto direto sobre a maioria da população. Além disso, tornaria o sistema mais equânime e poderia permitir até uma redução de tributos sobre os mais pobres.
As três medidas mais discutidas no congresso, nos últimos tempos, são: (1) tributação sobre a distribuição de lucros e de dividendos; (2) elevação do imposto sobre a distribuição de lucros na forma de juros sobre o capital próprio (JCP); (3) recolhimento semestral de imposto de renda pelos fundos fechados. Essa medida de tributar menos o lucro e taxar a distribuição de dividendos e do juro sobre capital próprio (JCP) é uma tendência mundial.
A ideia de alguns assessores econômicos de pré-candidatos a presidente é reduzir o imposto de renda para uma alíquota em torno de 20% a 22% e tributar a distribuição de resultado para todas as empresas, mediante a aplicação de uma taxa de 15%.
A introdução desse modelo incentiva a capitalização das empresas, pois passará a tributar a distribuição de lucros aos sócios. Em suma, a adoção de um sistema tributário moderno será uma tarefa árdua para o futuro presidente. O governo enfrentará resistência, por parte da sociedade, dada a percepção de que a qualidade dos serviços prestados está bem aquém dos valores desembolsados com a alta carga tributária.
A sociedade não pode ser penalizada pelos desacertos nas políticas econômicas adotadas pelo governo. Nesse sentido, somente com uma governança transparente e séria, será possível promover o crescimento econômico e introduzir uma política social justa, para alcançar e construir um Brasil melhor para todos.
Legislação cria coronéis nos partidos políticos: Editorial | O Globo
Comissões provisórias que se eternizam em diretórios
sequestram legendas e impedem renovação dos quadros
Mai suma campanha eleitoral em ques e repetem
personagens. Em si, nenhum problema, porque também é desejável que haja
políticos experientes. Mas o fenômeno brasileiro é de outra natureza, não
demográfica ou geracional. Deriva de distorções do nosso sistema de
representação, em que é possível eternizar-se em cargos de direção partidária,
pela facilidade que a legislação dá para a existência de coronéis que tudo
controlam nas legendas. São chefes quase no sentido tribal do termo.
Reportagem do GLOBO, feita com base em informações do
Tribunal Superior Eleitoral, constatou que 15 dos 35 partidos registrados têm
presidentes há muito tempo no cargo. Um exemploéo indefectível Valdemar Costa
Neto, de São Paulo, que era “dono” do PL em 2002, quando entabulou negociações
com o PT que serviram de pedra fundamental do esquema do mensalão: vender
acessão do empresário José Alencar para servi cede Lula e dar um lustro de
pluralismo democrático à candidatura do PT. Do pacote, fez parte o apoio
político e parlamentar ao governo, também negociado pelos petistas com outras
legendas.
Passados 16 anos, Costa Neto, mesmo sem mandato, continua
no controle do PL, que agora atende pela sigla de PR. Foi denunciado,
processado, condenado e preso como mensaleiro. Cumpriu pena e voltou ao mesmo
ofício, agora fazendo acertos com candidatos a presidente, como parte do
centrão, junto com caciques do DEM, PP, PRB e SD. O grupo lançou as bases de um
acordo, anunciado quinta-feira, fechado para apoiar o tucano Geraldo Alckmin na
eleição presidencial.
Há outros personagens neste enredo que fossiliza apolítica
brasileira. Um deles, Gilberto Kassab, ministro da Ciência e Tecnologia,
prefeito de São Paulo duas vezes, pelo PFL/DEM e representando o PSD, refundado
por ele. Tem controle total da legenda. Paulinho da Força é outro que criou um
partido, o Solidariedade (SD), o qual maneja da maneira que quer. Na extrema
esquerda, há o exemplo de Zé Maria, proprietário do PSTU. Nesta proximidade
ideológica, reina, no PDT, Carlos Lupi. Enquanto no PPS, nascido do Partido
Comunista Brasileiro (PCB), Roberto Freire é o chefe desde 1992.
O grande segredo dos coronéis partidários, permitido pela
legislação, é intervir em diretórios e nomear comissões provisórias que se
eternizam, para dirigi-los, em âmbito estadual e municipal. A Justiça Eleitoral
baixou resolução para acabar com a prática, mas sua entrada em vigor tem sido
adiada. Há partidos em que todos ou quase todos os diretórios são provisórios.
Não surpreende que a renovação na política brasileira
seja muito falada e pouco realizada. A porta de entrada dos partidos é
controlada sempre pelos mesmos, que passaram a ter ainda mais poder com o
financiamento público total das campanhas, em que o dinheiro é distribuído aos
candidatos pelo coronelato partidário. O trabalho de oxigenação da vida
partidária é árduo, mas precisa ser executado. Pelo menos tem de ser mais
debatido e denunciado. Pode ser um começo.
Artigo, Josias Souza, UOL - Caciques continuam tratando eleitores como gado
Quase tudo na sucessão de 2018 se parece com eleições
anteriores, menos o eleitor. Os caciques fazem política com os pés no mundo da
Lua, onde não há corrupção nem desemprego. Promovem os mesmos cambalachos de
sempre. O feitiço pode virar urucubaca, pois o brasileiro amarga uma descida
pelos nove círculos do inferno. E acha que não merece a excursão. Agora, às
vésperas de uma nova eleição, a cabine de votação se confunde com uma visão do
purgatório. O voto parece instrumento de purificação. Em órbita, candidatos e
dirigentes partidários não se deram conta de que um pedaço do eleitorado está
desconfortável no papel de gado.
Geraldo Alckmin acredita que seu desempenho pífio como
presidenciável mudará a partir de 31 de agosto, quando começa o horário
eleitoral na televisão. Por isso, vendeu a prataria para juntar cerca de 40% da
propaganda eletrônica. Parte da plutocracia torce para que ele alce voo. Mas
não há ricos suficientes no Brasil para eleger um presidente. E o discurso de
Alckmin, por ora, mal convence os crédulos. A plateia corre o risco de ouvir o
candidato durante vários minutos para chegar à conclusão de que ele não tem
nada a dizer. Ou pior: se o voo for artificial, o tucano será confundido com um
drone guiado por controle remoto pela marquetagem.
Ao atrair todo o centrão para o seu colo, Alckmin impediu
que seus rivais capturassem nacos do tempo de propaganda dos partidos que
integram o grupo. Com isso, deu a Ciro Gomes e Jair Bolsonaro a oportunidade de
cuspir no prato em que não conseguiram comer. De quebra, ofereceu aos cerca de
40% de eleitores que ainda se declaram sem candidato o direito continuar
repetindo que “são todos farinha do mesmo pacote”. Sem perceber, os contendores
podem estar jogando um jogo de soma zero, em que nenhum deles amplia sua base
de eleitores.
A ruína de Dilma Rousseff e o fiasco de Michel Temer
pareciam tornar as coisas mais fáceis. Tão fáceis que qualquer espertalhão
poderia passar a campanha trombeteando que, eleito, restauraria a moralidade e
traria de volta a prosperidade. O vaivém do centrão e o balé de elefantes em
que se converteu a escolha dos vices estimulou na banda desconfiada do
eleitorado a crença de que não se deve confundir muitos com pluralidade, adesão
com habilidade, pernóstico com sumidade, pose com dignidade, lero-lero com
honestidade…
Campeão do horário eleitoral, Alckmin é uma nulidade nas
redes sociais —um território em que Ciro e, sobretudo, Bolsonaro utilizam para
cavalgar o desalento do eleitor. O problema é que a dupla exagera na raiva. Se
Deus oferecesse temperança a Ciro, o candidato se empenharia para provar que
Deus não existe. Quanto a Bolsonaro, tornou-se líder de intenção de votos e de
rejeição. Conquistou eleitores misturando Deus à defesa de teses esdrúxulas. E
acabou convencendo o naco do eleitorado que o rejeita de que Deus não merece
existir.
Uma campanha que começa com as marcas da polêmica e da
ferocidade, poderia fazer muito bem à candidatura de Marina Silva. Ela exala
serenidade, não precisa fingir que veio de baixo, abomina “as megaestruturas” e
conserva a biografia longe dos pesticidas da Lava Jato. Entretanto, tomada pelo
desempenho, Marina vai se consolidando como uma personagem admiravelmente
indecifrável para a maioria da plateia. A liderança e as concepções
“marineiras” já afugentam até os correligionários da Rede. Marina costuma dizer
que prefere “perder ganhando a ganhar perdendo.” Pode voltar para casa com 20
milhões de votos pela terceira vez.
Na galeria dos vitoriosos perdedores, Marina só não
conseguirá superar Lula. Preso em Curitiba, o pajé do PT leva sua candidatura
cenográfica às fronteiras do paroxismo. Lidera as pesquisas. Mas sabe que a
ficha suja levará a Justiça Eleitoral a excluir sua foto da urna. Se tudo
correr como planejado, deflagrará o Plano B do PT em meados de setembro. É como
pedisse aos brasileiros para esquecer que Dilma, seu último poste, resultou num
inesquecível curto-circuito.
É grande o prestígio do presidiário do PT. Entretanto,
segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada no mês passado, 51% dos
eleitores informam que não entregariam o seu voto a um candidato indicado por
Lula. Impossível prever quem será o próximo presidente. Mas já é possível
constatar que o curral diminuiu.
Melhora Índice de Confiança de Serviços
Segundo divulgado há pouco pela FGV, o Índice de Confiança de Serviços (ICS) avançou 0,8 ponto em julho, após uma sequência de quatro quedas consecutivas. Assim, o indicador atingiu 87,5 pontos, ainda abaixo do nível neutro (100 pontos).
A alta observada neste mês reflete o avanço do componente de situação atual, enquanto o de expectativas recuou pela quinta vez consecutiva. Ao mesmo tempo, o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br), também divulgado pela Fundação, recuou 8,3 pontos entre junho e julho, para 116,8 pontos.
A despeito do recuo da incerteza neste mês, após a forte elevação observada na leitura anterior, o indicador se mantém acima do patamar de incerteza elevada (acima de 110 pontos). Olhando para frente, avaliamos que a confiança tende a continuar melhorando nos próximos meses, porém de forma muito gradual, compatível com uma trajetória de recuperação moderada da atividade econômica.
PSD faz convenção, apoia Sartori e indica Cairoli para vice no RS
PSD faz convenção, apoia Sartori e indica Cairoli para vice no RS
Na tarde deste
domingo (29), o PSD-RS definiu as coligações a nível federal e estadual para a
eleição de 2018 e a nominata com os 17 candidatos a deputado federal e 20 a
deputado estadual.
Durante o
evento, no Ritter Hotel, foi anunciado que o Partido irá compor a chapa
majoritária para o governo do Estado com o MDB e o PSB, com os candidatos Beto
Albuquerque ao Senado Federal e José Paulo Cairoli como vice-governador do
Estado. A coligação será formada com PSC, PRP, PMN e PTC para os candidatos a
deputado federal, e com PR, Patriota e DC para estadual.
O presidente do
PSD-RS, senador Lasier Martins, abriu a convenção ressaltando que o Partido está
iniciando uma jornada árdua para regenerar a política brasileira. “A classe
política está em descrédito com a população. Nossa missão é promover mudanças,
trabalhando em favor da sociedade.”
O
vice-governador José Paulo Cairoli reafirmou a importância da participação
política para não terceirizar os pleitos e destacou que, com a possibilidade de
reeleição, os planos de modernização do Estado seguirão avançando. “Quero,
junto com o Sartori, ter a oportunidade de fazer o que tem que ser feito de
forma mais rápida, para modernizar Estado.”
O governador
José Ivo Sartori, que também esteve na convenção, ressaltou a leadade do PSD
durante os quatro anos de sua gestão. “Um valor do qual não abro mão: lealdade!
Não a mim, mas ao projeto que está em andamento. Foi isso que nos manteve
unidos e sintonizados.”
O candidato ao
senado pelo PSB, Beto Albuquerque, esteve presente na convenção para prestigiar
o evento.
Também
participaram da convenção o presidente licenciado do PSD-RS, Humberto José
Chitto, o deputado estadual João Reinelli, o vereador de Porto Alegre Tarciso
Flecha Negra, a 1ª Tesoureira do partido, Rosângela Negrini, o prefeito de Três
Coroas, Orlando Teixeira, o presidente do MDB-RS, deputado federal Alceu
Moreira, o deputado estadual e presidente do PSB José Stédile, o chefe de
gabinete do governador Sartori, Idenir Cecchin, e o secretário-adjunto da Casa
Civil, João Carlos Mocellin.
NOMINATA DE
CANDIDATOS A DEPUTADO:
Estaduais
Alfredo
Crossetti Simon
Aline Becker de
Aguiar
Anthony
Andreolla
Clair de Lima
Girardi
Cláudia Vieira
de Araújo
Dimas Souza da
Costa
Everton Izidoro
Pogozelski
Eduardo da
Silva Bueno
João Luis
Grando
João Otávio
Reinelli
José Carlos
Carles de Souza
Juliano
Franczak
Julio Copstein
Galperim
Jussara Maria
Santos Nascimento
Luciano Leon
Marciel Fauri
Bergmann
Marion Mortari
Nilza Salles
Sandra Turcatto
Piccolo
Susete Borba
Pereira
Federais
Alberto Amaral
Alfaro
Alexandre Appel
da Silva
Alexssandro
Barbosa
Antônio Roque
Feldmann
Dieisson
Calvano
Danrlei de Deus
Hinterholz
Ivanis Sanhudo
Ivana Colvará
de Paula
José Eduardo da
Silva Freitas
José Fernando Tarrago
Lenise
Cantarutti
Marcelo
Francisco Chiodo
Mônica Agazzi
Paulo Vicente
Caleffi
Pedro Silvestre
Perkoski
Rejane Webster
de Carvalho
Vera Ferreira
Artigo, Luís Milman - A hegemonia confesssionalista ou o totalitarismo cultural
Artigo, Luís Milman - A hegemonia confesssionalista ou o totalitarismo cultural
Dos anos 60 para cá, a mentalidade
confessional-esquerdista no Brasil só se faz consolidar. Essa mentalidade toma
o pensamento de Marx, Lênin e Trotski como dogmático, infalível, sendo a
especificidade destes autores e líderes atribuída ao tempo em que viveram e aos
problemas com que tiveram de lidar, mas de modo algum compromete o cerne mesmo
de perfectibilidade da obra de cada um e de todos conjuntamente.
Uma das consequências destacadas deste confessionalismo,
ainda que indireta, é a formação de um quase-consenso na média cultura sobre a
idiotia do pensamento de direita, seja ele conservador ou liberal. Na mesma
medida em que vem se propagando pelos meios cultural e político, o
confessionalismo esquerdista faz crer que as alternativas a ele são meramente reacionárias,
ou - o que é pior- mesmo rotuladas de semifascistas; e, por isso, não devem
sequer ser estudadas ou debatidas, pelo seu primitivismo.
A mentalidade confessional-esquerdista conseguiu injetar,
desde o meio escolar até o meio culto, a noção segundo a qual estar ao lado da
direita é defender posições autoritárias, torpes, desgraçadas, como a defesa da
ditadura militar, a desigualdade social, a exploração dos pobres, a
discriminação dos negros, a manutenção de posições de poder econômico e político,
a homofobia e a destruiição do ambiente, para ficar nisso. Logo, não pode
existir, nesta geografia mental degradada, um pensamento sofisticado e
antagônico, sequer crítico, ao pensamento de esquerda. Reza a pregação que
somente este deve ser discutido, estudado e praticado.
A difusão da linha justa da esquerda inicia-se nas
escolas, por meio de professores de história e ciências sociais e se esparrama
pela mídia tradicional, sendo raríssimos os casos em que se oferece, a
estudantes universitários e leitores, informação básica sobre pensadores
não-marxistas, todos eles taxados de irrelevantes, menores ou indecorosos.
O resultado deste fenômeno é a colonização das
consciências por um raso esquematismo maniqueísta, controlado e apregoado por
um vasto baixo claro marxista, que se identifica com o ativismo de um Sartre ou
de um Foucault, e se distancia da postura menos apologética e mais metafísica
de um Alexandre Kojéve, tendo sido os três, aliás, contemporâneos e franceses.
Essa apropriação confessional, a todo momento e de todas
as formas, reproduzida nos meios de comunicação e na Universidade, ora como
texto, mas sempre como subtexto de uma apreensão totalitária da política, da
educação, da história, da arte e da moral. Você deve cultuar Marx, Lênin e Trotski,
admirar Rosa de Luxemburgo, Luckás, Gramsci e Sartre. Foucault e Althusser são
inexcedíveis. Adorno, Marcuse e Habermas, incontestavelmente profundos.
Dworkin, imprescindível. Chomsky é inigualável, mesmo não sendo marxista,
porque, afinal, é um prolífico charlatão anarquista anti-americano.
Ernesto Laclau é o mais novo intérprete da teoria
marxiana aplicada à realidade latinoamericana, com seu conceito revolucionário
de populismo, que o chavismo e kirchernerismo veneram na Venezuela e na
Argentina. Até mesmo Tarso Genro, Frei Beto e Leonardo Boff são considerados
intelectuais de referência para os esquerdistas brasileiros, muitos dos quais
também atuantes na mídia, porque produziram e ainda produzem textos em que o
dogma, ainda que numa versão juvenilizada, é reatualizado para nossas condições
políticas objetivas.
E quanto ao outro campo? Faz-se tábula rasa, no melhor
dos casos e, na mais das vezes, descarrega-se um bombardeio de insultos
destinado a inviabilizar qualquer aproximação dos textos inimigos. Na camada
militante culta deste confessionalismo, simplesmente prega-se que não há nada
de inteligente que possa ser discutido com a direita e, por isso, seus
pensadores sequer são mencionados. Ou quem discute, no ambiente universitário
brasileiro, Leo Strauss, Isaiah Berlin, Eric Voegelin, Leszek Kolakowski, Raimond
Aron, Roger Scruton, Fernand Broudel, Paul Johnson, Russell Kirk ou
Jean-Fraçois Revel, para ficar apenas em alguns nomes contemporâneos do
pensamento liberal, conservador, ou, se se preferir, de direita?
Olavo de Carvalho, por exemplo, sintetiza, para a militância
esquerdista, todas as anti-virtudes do direitista: grosso, desbocado,
histriônico e paranóide. Olavo pode mesmo possuir alguns traços heterodoxos
para quem imagina um filósofo como sendo uma pessoa circunspecta e avessa à
exposição. Ele, como sabemos, compra brigas e muitas, Mas sua extroversão - e
mesmo uma ou outra postura exótica- são traços de temperamento que em nada
comprometem o fato de ele representa o que há de melhor no que restou da alta
cultura brasileira. Para um esquerdista, é, no mínimo, desconcertante, talvez
psicologicamente devastador, aceitar um debate aberto, franco e honesto com
Olavo de Carvalho. Por isso, é mais simples demonizá-lo, excluí-lo da arena
intelectual. Olavo, no entanto, não se deixou intimidar. Decidiu confrontar o
confessionalismo em todas as suas ramificações; e obteve êxito, ao longo dos
anos, em estabelecer, no Brasil, uma trincheira de combate ao pensamento
pedestre que o esquerdismo tem propalado pelo país. Contudo, ele, como os
pensadores que citei acima, também é confrontado com a objeção in limine de um
subconsciente coletivo abduzido por décadas de militância
confessional-esquerdista, contra o qual somente agora começa a se esboçar uma
resistência, cujo resultado pode, espero, evitar a total imbecilização do país.
Alerta da trumplândia: atenção a Bolsonaro
BRIAN WINTER *
Todas as manhãs, ao ler os jornais brasileiros e navegar
pelo Twitter, sinto vontade de largar minha xícara de café, abrir a janela,
virar minha cabeça para o sul e gritar:
Pelo menos uma dúzia de vezes na campanha de 2016, os
repórteres e comentaristas políticos mainstream aqui nos Estados Unidos
aproveitaram alguma gafe para declarar que a candidatura de Donald Trump estava
morta. Logo no primeiro dia, quando Trump se referiu aos imigrantes mexicanos
como “estupradores”, o New York Daily News proclamou em sua primeira página:
“Palhaço concorre à Presidência”. Quando ele ridicularizou o herói de guerra
republicano John McCain, a revista eletrônica Politico declarou que “Trump pode
ter finalmente cruzado a linha”. Quando atacou a família de um soldado
americano morto em combate, um ex-assessor de Barack Obama previu com
confiança: “Um homem insensível e cruel como este não pode ser presidente”.
Sabemos agora que essas “gafes” tiveram o efeito oposto.
Em uma eleição tradicional — mesmo em 2012 —, elas poderiam ter destruído o
candidato. Mas neste novo mundo antiestablishment e antipolítica, as
declarações inflamadas de Trump provaram aos eleitores que ele não era como
outros políticos. Em vez de se sentir ofendido, um eleitorado furioso viu um
caminho seguro para a mudança que desejavam.
Esse padrão se repetiu, até certo ponto, na Polônia, na
Itália, na Grã-Bretanha e no México, entre outros países. Deve ser agora do
conhecimento comum. Na semana passada, no entanto, luminares brasileiros
cometeram os mesmos erros de interpretação em relação à versão tropical de
Trump, Jair Bolsonaro. Seus fracassos na busca de um companheiro de chapa, sua
admissão para O Globo de que “realmente não entendo de economia” e sua foto de
“pistoleiro” ao lado de uma garotinha foram apresentados como novas evidências
de seu fracasso iminente.
Sim, sim. Eu sei que o Brasil não é como os Estados
Unidos.
O Brasil é pior.
O que eu quero dizer é o seguinte: enquanto os Estados
Unidos vêm criando empregos desde 2010, o Brasil destruiu aproximadamente 2,8
milhões de vagas formais nos últimos anos. A candidata do establishment
americano foi envolvida numa controvérsia fabricada sobre seu servidor de
e-mail, enquanto vocês tiveram o maior caso de corrupção já visto. Os crimes
nas cidades dos EUA têm caído de forma constante desde os anos 1990, enquanto…
Bem, você entendeu. Se os americanos estavam furiosos o bastante com a
corrupção, a violência urbana e a economia para votar em 2016 em um demagogo
despreparado, imagine o que os brasileiros farão em outubro.
Para ser claro, não acredito que uma vitória de Bolsonaro
seja inevitável. Ainda é possível que, em um segundo turno, a maioria dos
eleitores decida que seus pontos de vista sobre democracia, minorias, direitos
humanos e armas não os representam. Bolsonaro tem problemas ainda maiores com
as mulheres eleitoras do que Trump teve. Acredito, porém, que a sabedoria
convencional das eleições anteriores deve ser tratada com enorme ceticismo ou
mesmo ser totalmente descartada. Antigas certezas, como “os eleitores
brasileiros não votam em radicais”, “o tempo de TV decidirá as eleições”, “as
alianças partidárias são importantes” e “quem ganhar não terá escolha a não ser
governar do centro” — li alguma versão de todas elas nos últimos dez dias —,
soam como um caso clássico de um exército lutando em guerras passadas, em vez
da atual.
De fato, como alguém que ainda sofre de transtorno de
estresse pós-Trump, meu humilde conselho para você, a 70 e poucos dias da
eleição, é: ignore a maior parte do que suas elites dizem.
Com todo o respeito a meus amigos da mídia brasileira, eu
temo que seus comentários sejam ainda mais descolados da realidade do que os
nossos. Muito se fala nos Estados Unidos sobre a diferença entre as costas,
onde reside a maioria dos jornalistas políticos, e o interior do país — onde
vive a maioria dos eleitores de Trump. Mas a distância entre analistas
políticos e jornalistas de São Paulo ou de Brasília em relação ao restante do
Brasil, em um país onde aproximadamente 84% dos eleitores ganham menos de cinco
salários mínimos por mês — cerca de R$ 4.700 —, certamente é ainda maior.
Enquanto isso, jornais e revistas sofreram muito com o declínio da receita — a
circulação da Folha de S.Paulo, um dos maiores jornais do país, despencou 23%
desde a última eleição —, sendo privados dos recursos para cobrir adequadamente
histórias em lugares como o interior de Minas, da Paraíba e do Mato Grosso,
onde esta eleição provavelmente será decidida.
Nos Estados Unidos, o fracasso da classe política em
antecipar uma vitória de Trump levou à introspecção e à autoflagelação nos dias
e semanas após o 8 de novembro de 2016. Hillbilly Elegy (Era uma vez um sonho,
na edição brasileira), um livro de memórias sobre famílias pobres em Kentucky e
Ohio, tornou-se um best-seller número um — em grande parte graças a jornalistas
e analistas que queriam entender melhor o país de Trump. Alguns veículos
nacionais, incluindo o Washington Post e a agência Reuters, fizeram questão de
se expandir no meio do país, apesar dos orçamentos apertados, para evitar serem
pegos de surpresa novamente.
Um movimento semelhante pode chegar ao Brasil,
independentemente de quem vencer em outubro. Até lá, é aconselhável identificar
— e ouvir — vozes fora dos círculos principais. Elas podem ser de pessoas nos
ônibus, na fila do supermercado ou em pequenas estações de rádio. Foram essas
pessoas que, aqui nos EUA, viram a vitória de Trump chegando. Elas podem ser os
melhores analistas políticos em 2018.
* Brasilianista e editor-chefe da revista Americas
Quarterly
Assinar:
Postagens (Atom)