Artigo, Cláudio de Sá Leitão - Reforma e aumento de tributos

É de conhecimento geral que o Brasil tem uma das maiores cargas tributárias entre os países emergentes, cerca de 33% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Isso faz com que sejamos menos competitivos. Temos, também, um sistema injusto, complexo, ruim e ineficiente e que, nas últimas duas décadas, milhares de normas tributárias foram editadas.

Todos empresários reclamam dos tributos e reivindicam urgência da reforma tributária. Em toda a eleição esse assunto é ventilado. Os governos se sucedem, prometendo fazê-la e não há político que nunca tenha defendido.

Porém, percebe-se que o principal entrave da reforma tributária é a incerteza sobre quem ganhará ou perderá dentre a união, os estados e os municípios, em face da complexidade do atual sistema de cobrança de tributos.

Para tanto, o governo necessita equilibrar as suas contas, bem como aprovar medidas duras para combater o crescimento dos gastos. A sociedade enfrentará um dilema no próximo governo, no que diz respeito ao aumento da carga tributária ou ao corte de despesas, tais como; reajuste dos servidores, benefícios e regimes especiais de tributação.

É possível que o novo governo mantenha o reajuste dos servidores e não reduza os gastos, o que dificultará o ajuste fiscal almejado. Por isso, terá de criar tributos ou aumentar a carga tributária. Diante de uma concentração de renda tão alta, fala-se no congresso que há espaço para aumento dos tributos sobre os mais ricos e para redução das renúncias tributárias, sem impacto direto sobre a maioria da população. Além disso, tornaria o sistema mais equânime e poderia permitir até uma redução de tributos sobre os mais pobres.

As três medidas mais discutidas no congresso, nos últimos tempos, são: (1) tributação sobre a distribuição de lucros e de dividendos; (2) elevação do imposto sobre a distribuição de lucros na forma de juros sobre o capital próprio (JCP); (3) recolhimento semestral de imposto de renda pelos fundos fechados. Essa medida de tributar menos o lucro e taxar a distribuição de dividendos e do juro sobre capital próprio (JCP) é uma tendência mundial.

A ideia de alguns assessores econômicos de pré-candidatos a presidente é reduzir o imposto de renda para uma alíquota em torno de 20% a 22% e tributar a distribuição de resultado para todas as empresas, mediante a aplicação de uma taxa de 15%.

A introdução desse modelo incentiva a capitalização das empresas, pois passará a tributar a distribuição de lucros aos sócios. Em suma, a adoção de um sistema tributário moderno será uma tarefa árdua para o futuro presidente. O governo enfrentará resistência, por parte da sociedade, dada a percepção de que a qualidade dos serviços prestados está bem aquém dos valores desembolsados com a alta carga tributária.

A sociedade não pode ser penalizada pelos desacertos nas políticas econômicas adotadas pelo governo. Nesse sentido, somente com uma governança transparente e séria, será possível promover o crescimento econômico e introduzir uma política social justa, para alcançar e construir um Brasil melhor para todos.

Legislação cria coronéis nos partidos políticos: Editorial | O Globo


Comissões provisórias que se eternizam em diretórios sequestram legendas e impedem renovação dos quadros

Mai suma campanha eleitoral em ques e repetem personagens. Em si, nenhum problema, porque também é desejável que haja políticos experientes. Mas o fenômeno brasileiro é de outra natureza, não demográfica ou geracional. Deriva de distorções do nosso sistema de representação, em que é possível eternizar-se em cargos de direção partidária, pela facilidade que a legislação dá para a existência de coronéis que tudo controlam nas legendas. São chefes quase no sentido tribal do termo.

Reportagem do GLOBO, feita com base em informações do Tribunal Superior Eleitoral, constatou que 15 dos 35 partidos registrados têm presidentes há muito tempo no cargo. Um exemploéo indefectível Valdemar Costa Neto, de São Paulo, que era “dono” do PL em 2002, quando entabulou negociações com o PT que serviram de pedra fundamental do esquema do mensalão: vender acessão do empresário José Alencar para servi cede Lula e dar um lustro de pluralismo democrático à candidatura do PT. Do pacote, fez parte o apoio político e parlamentar ao governo, também negociado pelos petistas com outras legendas.

Passados 16 anos, Costa Neto, mesmo sem mandato, continua no controle do PL, que agora atende pela sigla de PR. Foi denunciado, processado, condenado e preso como mensaleiro. Cumpriu pena e voltou ao mesmo ofício, agora fazendo acertos com candidatos a presidente, como parte do centrão, junto com caciques do DEM, PP, PRB e SD. O grupo lançou as bases de um acordo, anunciado quinta-feira, fechado para apoiar o tucano Geraldo Alckmin na eleição presidencial.

Há outros personagens neste enredo que fossiliza apolítica brasileira. Um deles, Gilberto Kassab, ministro da Ciência e Tecnologia, prefeito de São Paulo duas vezes, pelo PFL/DEM e representando o PSD, refundado por ele. Tem controle total da legenda. Paulinho da Força é outro que criou um partido, o Solidariedade (SD), o qual maneja da maneira que quer. Na extrema esquerda, há o exemplo de Zé Maria, proprietário do PSTU. Nesta proximidade ideológica, reina, no PDT, Carlos Lupi. Enquanto no PPS, nascido do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Roberto Freire é o chefe desde 1992.

O grande segredo dos coronéis partidários, permitido pela legislação, é intervir em diretórios e nomear comissões provisórias que se eternizam, para dirigi-los, em âmbito estadual e municipal. A Justiça Eleitoral baixou resolução para acabar com a prática, mas sua entrada em vigor tem sido adiada. Há partidos em que todos ou quase todos os diretórios são provisórios.

Não surpreende que a renovação na política brasileira seja muito falada e pouco realizada. A porta de entrada dos partidos é controlada sempre pelos mesmos, que passaram a ter ainda mais poder com o financiamento público total das campanhas, em que o dinheiro é distribuído aos candidatos pelo coronelato partidário. O trabalho de oxigenação da vida partidária é árduo, mas precisa ser executado. Pelo menos tem de ser mais debatido e denunciado. Pode ser um começo.


Artigo, Josias Souza, UOL - Caciques continuam tratando eleitores como gado


Quase tudo na sucessão de 2018 se parece com eleições anteriores, menos o eleitor. Os caciques fazem política com os pés no mundo da Lua, onde não há corrupção nem desemprego. Promovem os mesmos cambalachos de sempre. O feitiço pode virar urucubaca, pois o brasileiro amarga uma descida pelos nove círculos do inferno. E acha que não merece a excursão. Agora, às vésperas de uma nova eleição, a cabine de votação se confunde com uma visão do purgatório. O voto parece instrumento de purificação. Em órbita, candidatos e dirigentes partidários não se deram conta de que um pedaço do eleitorado está desconfortável no papel de gado.
Geraldo Alckmin acredita que seu desempenho pífio como presidenciável mudará a partir de 31 de agosto, quando começa o horário eleitoral na televisão. Por isso, vendeu a prataria para juntar cerca de 40% da propaganda eletrônica. Parte da plutocracia torce para que ele alce voo. Mas não há ricos suficientes no Brasil para eleger um presidente. E o discurso de Alckmin, por ora, mal convence os crédulos. A plateia corre o risco de ouvir o candidato durante vários minutos para chegar à conclusão de que ele não tem nada a dizer. Ou pior: se o voo for artificial, o tucano será confundido com um drone guiado por controle remoto pela marquetagem.
Ao atrair todo o centrão para o seu colo, Alckmin impediu que seus rivais capturassem nacos do tempo de propaganda dos partidos que integram o grupo. Com isso, deu a Ciro Gomes e Jair Bolsonaro a oportunidade de cuspir no prato em que não conseguiram comer. De quebra, ofereceu aos cerca de 40% de eleitores que ainda se declaram sem candidato o direito continuar repetindo que “são todos farinha do mesmo pacote”. Sem perceber, os contendores podem estar jogando um jogo de soma zero, em que nenhum deles amplia sua base de eleitores.
A ruína de Dilma Rousseff e o fiasco de Michel Temer pareciam tornar as coisas mais fáceis. Tão fáceis que qualquer espertalhão poderia passar a campanha trombeteando que, eleito, restauraria a moralidade e traria de volta a prosperidade. O vaivém do centrão e o balé de elefantes em que se converteu a escolha dos vices estimulou na banda desconfiada do eleitorado a crença de que não se deve confundir muitos com pluralidade, adesão com habilidade, pernóstico com sumidade, pose com dignidade, lero-lero com honestidade…
Campeão do horário eleitoral, Alckmin é uma nulidade nas redes sociais —um território em que Ciro e, sobretudo, Bolsonaro utilizam para cavalgar o desalento do eleitor. O problema é que a dupla exagera na raiva. Se Deus oferecesse temperança a Ciro, o candidato se empenharia para provar que Deus não existe. Quanto a Bolsonaro, tornou-se líder de intenção de votos e de rejeição. Conquistou eleitores misturando Deus à defesa de teses esdrúxulas. E acabou convencendo o naco do eleitorado que o rejeita de que Deus não merece existir.
Uma campanha que começa com as marcas da polêmica e da ferocidade, poderia fazer muito bem à candidatura de Marina Silva. Ela exala serenidade, não precisa fingir que veio de baixo, abomina “as megaestruturas” e conserva a biografia longe dos pesticidas da Lava Jato. Entretanto, tomada pelo desempenho, Marina vai se consolidando como uma personagem admiravelmente indecifrável para a maioria da plateia. A liderança e as concepções “marineiras” já afugentam até os correligionários da Rede. Marina costuma dizer que prefere “perder ganhando a ganhar perdendo.” Pode voltar para casa com 20 milhões de votos pela terceira vez.
Na galeria dos vitoriosos perdedores, Marina só não conseguirá superar Lula. Preso em Curitiba, o pajé do PT leva sua candidatura cenográfica às fronteiras do paroxismo. Lidera as pesquisas. Mas sabe que a ficha suja levará a Justiça Eleitoral a excluir sua foto da urna. Se tudo correr como planejado, deflagrará o Plano B do PT em meados de setembro. É como pedisse aos brasileiros para esquecer que Dilma, seu último poste, resultou num inesquecível curto-circuito.
É grande o prestígio do presidiário do PT. Entretanto, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada no mês passado, 51% dos eleitores informam que não entregariam o seu voto a um candidato indicado por Lula. Impossível prever quem será o próximo presidente. Mas já é possível constatar que o curral diminuiu.

Melhora Índice de Confiança de Serviços

Segundo divulgado há pouco pela FGV, o Índice de Confiança de Serviços (ICS) avançou 0,8 ponto em julho, após uma sequência de quatro quedas consecutivas. Assim, o indicador atingiu 87,5 pontos, ainda abaixo do nível neutro (100 pontos). 

A alta observada neste mês reflete o avanço do componente de situação atual, enquanto o de expectativas recuou pela quinta vez consecutiva. Ao mesmo tempo, o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br), também divulgado pela Fundação, recuou 8,3 pontos entre junho e julho, para 116,8 pontos. 

A despeito do recuo da incerteza neste mês, após a forte elevação observada na leitura anterior, o indicador se mantém acima do patamar de incerteza elevada (acima de 110 pontos). Olhando para frente, avaliamos que a confiança tende a continuar melhorando nos próximos meses, porém de forma muito gradual, compatível com uma trajetória de recuperação moderada da atividade econômica.

PSD faz convenção, apoia Sartori e indica Cairoli para vice no RS


   PSD faz convenção, apoia Sartori e indica Cairoli para vice no RS

    Na tarde deste domingo (29), o PSD-RS definiu as coligações a nível federal e estadual para a eleição de 2018 e a nominata com os 17 candidatos a deputado federal e 20 a deputado estadual.
    Durante o evento, no Ritter Hotel, foi anunciado que o Partido irá compor a chapa majoritária para o governo do Estado com o MDB e o PSB, com os candidatos Beto Albuquerque ao Senado Federal e José Paulo Cairoli como vice-governador do Estado. A coligação será formada com PSC, PRP, PMN e PTC para os candidatos a deputado federal, e com PR, Patriota e DC para estadual.
    O presidente do PSD-RS, senador Lasier Martins, abriu a convenção ressaltando que o Partido está iniciando uma jornada árdua para regenerar a política brasileira. “A classe política está em descrédito com a população. Nossa missão é promover mudanças, trabalhando em favor da sociedade.”
    O vice-governador José Paulo Cairoli reafirmou a importância da participação política para não terceirizar os pleitos e destacou que, com a possibilidade de reeleição, os planos de modernização do Estado seguirão avançando. “Quero, junto com o Sartori, ter a oportunidade de fazer o que tem que ser feito de forma mais rápida, para modernizar Estado.”
    O governador José Ivo Sartori, que também esteve na convenção, ressaltou a leadade do PSD durante os quatro anos de sua gestão. “Um valor do qual não abro mão: lealdade! Não a mim, mas ao projeto que está em andamento. Foi isso que nos manteve unidos e sintonizados.”
    O candidato ao senado pelo PSB, Beto Albuquerque, esteve presente na convenção para prestigiar o evento.
    Também participaram da convenção o presidente licenciado do PSD-RS, Humberto José Chitto, o deputado estadual João Reinelli, o vereador de Porto Alegre Tarciso Flecha Negra, a 1ª Tesoureira do partido, Rosângela Negrini, o prefeito de Três Coroas, Orlando Teixeira, o presidente do MDB-RS, deputado federal Alceu Moreira, o deputado estadual e presidente do PSB José Stédile, o chefe de gabinete do governador Sartori, Idenir Cecchin, e o secretário-adjunto da Casa Civil, João Carlos Mocellin.
     
    NOMINATA DE CANDIDATOS A DEPUTADO:
     
    Estaduais
     
    Alfredo Crossetti Simon
    Aline Becker de Aguiar
    Anthony Andreolla
    Clair de Lima Girardi
    Cláudia Vieira de Araújo
    Dimas Souza da Costa
    Everton Izidoro Pogozelski
    Eduardo da Silva Bueno
    João Luis Grando
    João Otávio Reinelli
    José Carlos Carles de Souza
    Juliano Franczak
    Julio Copstein Galperim
    Jussara Maria Santos Nascimento
    Luciano Leon
    Marciel Fauri Bergmann
    Marion Mortari
    Nilza Salles
    Sandra Turcatto Piccolo
    Susete Borba Pereira
     
    Federais
    Alberto Amaral Alfaro
    Alexandre Appel da Silva
    Alexssandro Barbosa
    Antônio Roque Feldmann
    Dieisson Calvano
    Danrlei de Deus Hinterholz
    Ivanis Sanhudo
    Ivana Colvará de Paula
    José Eduardo da Silva Freitas
    José Fernando Tarrago
    Lenise Cantarutti
    Marcelo Francisco Chiodo
    Mônica Agazzi
    Paulo Vicente Caleffi
    Pedro Silvestre Perkoski
    Rejane Webster de Carvalho
    Vera Ferreira

Artigo, Luís Milman - A hegemonia confesssionalista ou o totalitarismo cultural


Artigo, Luís Milman - A hegemonia confesssionalista ou o totalitarismo cultural

Dos anos 60 para cá, a mentalidade confessional-esquerdista no Brasil só se faz consolidar. Essa mentalidade toma o pensamento de Marx, Lênin e Trotski como dogmático, infalível, sendo a especificidade destes autores e líderes atribuída ao tempo em que viveram e aos problemas com que tiveram de lidar, mas de modo algum compromete o cerne mesmo de perfectibilidade da obra de cada um e de todos conjuntamente.
Uma das consequências destacadas deste confessionalismo, ainda que indireta, é a formação de um quase-consenso na média cultura sobre a idiotia do pensamento de direita, seja ele conservador ou liberal. Na mesma medida em que vem se propagando pelos meios cultural e político, o confessionalismo esquerdista faz crer que as alternativas a ele são meramente reacionárias, ou - o que é pior- mesmo rotuladas de semifascistas; e, por isso, não devem sequer ser estudadas ou debatidas, pelo seu primitivismo.
A mentalidade confessional-esquerdista conseguiu injetar, desde o meio escolar até o meio culto, a noção segundo a qual estar ao lado da direita é defender posições autoritárias, torpes, desgraçadas, como a defesa da ditadura militar, a desigualdade social, a exploração dos pobres, a discriminação dos negros, a manutenção de posições de poder econômico e político, a homofobia e a destruiição do ambiente, para ficar nisso. Logo, não pode existir, nesta geografia mental degradada, um pensamento sofisticado e antagônico, sequer crítico, ao pensamento de esquerda. Reza a pregação que somente este deve ser discutido, estudado e praticado.
A difusão da linha justa da esquerda inicia-se nas escolas, por meio de professores de história e ciências sociais e se esparrama pela mídia tradicional, sendo raríssimos os casos em que se oferece, a estudantes universitários e leitores, informação básica sobre pensadores não-marxistas, todos eles taxados de irrelevantes, menores ou indecorosos.
O resultado deste fenômeno é a colonização das consciências por um raso esquematismo maniqueísta, controlado e apregoado por um vasto baixo claro marxista, que se identifica com o ativismo de um Sartre ou de um Foucault, e se distancia da postura menos apologética e mais metafísica de um Alexandre Kojéve, tendo sido os três, aliás, contemporâneos e franceses.
Essa apropriação confessional, a todo momento e de todas as formas, reproduzida nos meios de comunicação e na Universidade, ora como texto, mas sempre como subtexto de uma apreensão totalitária da política, da educação, da história, da arte e da moral. Você deve cultuar Marx, Lênin e Trotski, admirar Rosa de Luxemburgo, Luckás, Gramsci e Sartre. Foucault e Althusser são inexcedíveis. Adorno, Marcuse e Habermas, incontestavelmente profundos. Dworkin, imprescindível. Chomsky é inigualável, mesmo não sendo marxista, porque, afinal, é um prolífico charlatão anarquista anti-americano.

Ernesto Laclau é o mais novo intérprete da teoria marxiana aplicada à realidade latinoamericana, com seu conceito revolucionário de populismo, que o chavismo e kirchernerismo veneram na Venezuela e na Argentina. Até mesmo Tarso Genro, Frei Beto e Leonardo Boff são considerados intelectuais de referência para os esquerdistas brasileiros, muitos dos quais também atuantes na mídia, porque produziram e ainda produzem textos em que o dogma, ainda que numa versão juvenilizada, é reatualizado para nossas condições políticas objetivas.
E quanto ao outro campo? Faz-se tábula rasa, no melhor dos casos e, na mais das vezes, descarrega-se um bombardeio de insultos destinado a inviabilizar qualquer aproximação dos textos inimigos. Na camada militante culta deste confessionalismo, simplesmente prega-se que não há nada de inteligente que possa ser discutido com a direita e, por isso, seus pensadores sequer são mencionados. Ou quem discute, no ambiente universitário brasileiro, Leo Strauss, Isaiah Berlin, Eric Voegelin, Leszek Kolakowski, Raimond Aron, Roger Scruton, Fernand Broudel, Paul Johnson, Russell Kirk ou Jean-Fraçois Revel, para ficar apenas em alguns nomes contemporâneos do pensamento liberal, conservador, ou, se se preferir, de direita?
Olavo de Carvalho, por exemplo, sintetiza, para a militância esquerdista, todas as anti-virtudes do direitista: grosso, desbocado, histriônico e paranóide. Olavo pode mesmo possuir alguns traços heterodoxos para quem imagina um filósofo como sendo uma pessoa circunspecta e avessa à exposição. Ele, como sabemos, compra brigas e muitas, Mas sua extroversão - e mesmo uma ou outra postura exótica- são traços de temperamento que em nada comprometem o fato de ele representa o que há de melhor no que restou da alta cultura brasileira. Para um esquerdista, é, no mínimo, desconcertante, talvez psicologicamente devastador, aceitar um debate aberto, franco e honesto com Olavo de Carvalho. Por isso, é mais simples demonizá-lo, excluí-lo da arena intelectual. Olavo, no entanto, não se deixou intimidar. Decidiu confrontar o confessionalismo em todas as suas ramificações; e obteve êxito, ao longo dos anos, em estabelecer, no Brasil, uma trincheira de combate ao pensamento pedestre que o esquerdismo tem propalado pelo país. Contudo, ele, como os pensadores que citei acima, também é confrontado com a objeção in limine de um subconsciente coletivo abduzido por décadas de militância confessional-esquerdista, contra o qual somente agora começa a se esboçar uma resistência, cujo resultado pode, espero, evitar a total imbecilização do país.

Alerta da trumplândia: atenção a Bolsonaro


BRIAN WINTER *

Todas as manhãs, ao ler os jornais brasileiros e navegar pelo Twitter, sinto vontade de largar minha xícara de café, abrir a janela, virar minha cabeça para o sul e gritar:
Pelo menos uma dúzia de vezes na campanha de 2016, os repórteres e comentaristas políticos mainstream aqui nos Estados Unidos aproveitaram alguma gafe para declarar que a candidatura de Donald Trump estava morta. Logo no primeiro dia, quando Trump se referiu aos imigrantes mexicanos como “estupradores”, o New York Daily News proclamou em sua primeira página: “Palhaço concorre à Presidência”. Quando ele ridicularizou o herói de guerra republicano John McCain, a revista eletrônica Politico declarou que “Trump pode ter finalmente cruzado a linha”. Quando atacou a família de um soldado americano morto em combate, um ex-assessor de Barack Obama previu com confiança: “Um homem insensível e cruel como este não pode ser presidente”.

Sabemos agora que essas “gafes” tiveram o efeito oposto. Em uma eleição tradicional — mesmo em 2012 —, elas poderiam ter destruído o candidato. Mas neste novo mundo antiestablishment e antipolítica, as declarações inflamadas de Trump provaram aos eleitores que ele não era como outros políticos. Em vez de se sentir ofendido, um eleitorado furioso viu um caminho seguro para a mudança que desejavam.

Esse padrão se repetiu, até certo ponto, na Polônia, na Itália, na Grã-Bretanha e no México, entre outros países. Deve ser agora do conhecimento comum. Na semana passada, no entanto, luminares brasileiros cometeram os mesmos erros de interpretação em relação à versão tropical de Trump, Jair Bolsonaro. Seus fracassos na busca de um companheiro de chapa, sua admissão para O Globo de que “realmente não entendo de economia” e sua foto de “pistoleiro” ao lado de uma garotinha foram apresentados como novas evidências de seu fracasso iminente.

Sim, sim. Eu sei que o Brasil não é como os Estados Unidos.

O Brasil é pior.

O que eu quero dizer é o seguinte: enquanto os Estados Unidos vêm criando empregos desde 2010, o Brasil destruiu aproximadamente 2,8 milhões de vagas formais nos últimos anos. A candidata do establishment americano foi envolvida numa controvérsia fabricada sobre seu servidor de e-mail, enquanto vocês tiveram o maior caso de corrupção já visto. Os crimes nas cidades dos EUA têm caído de forma constante desde os anos 1990, enquanto… Bem, você entendeu. Se os americanos estavam furiosos o bastante com a corrupção, a violência urbana e a economia para votar em 2016 em um demagogo despreparado, imagine o que os brasileiros farão em outubro.

Para ser claro, não acredito que uma vitória de Bolsonaro seja inevitável. Ainda é possível que, em um segundo turno, a maioria dos eleitores decida que seus pontos de vista sobre democracia, minorias, direitos humanos e armas não os representam. Bolsonaro tem problemas ainda maiores com as mulheres eleitoras do que Trump teve. Acredito, porém, que a sabedoria convencional das eleições anteriores deve ser tratada com enorme ceticismo ou mesmo ser totalmente descartada. Antigas certezas, como “os eleitores brasileiros não votam em radicais”, “o tempo de TV decidirá as eleições”, “as alianças partidárias são importantes” e “quem ganhar não terá escolha a não ser governar do centro” — li alguma versão de todas elas nos últimos dez dias —, soam como um caso clássico de um exército lutando em guerras passadas, em vez da atual.

De fato, como alguém que ainda sofre de transtorno de estresse pós-Trump, meu humilde conselho para você, a 70 e poucos dias da eleição, é: ignore a maior parte do que suas elites dizem.

Com todo o respeito a meus amigos da mídia brasileira, eu temo que seus comentários sejam ainda mais descolados da realidade do que os nossos. Muito se fala nos Estados Unidos sobre a diferença entre as costas, onde reside a maioria dos jornalistas políticos, e o interior do país — onde vive a maioria dos eleitores de Trump. Mas a distância entre analistas políticos e jornalistas de São Paulo ou de Brasília em relação ao restante do Brasil, em um país onde aproximadamente 84% dos eleitores ganham menos de cinco salários mínimos por mês — cerca de R$ 4.700 —, certamente é ainda maior. Enquanto isso, jornais e revistas sofreram muito com o declínio da receita — a circulação da Folha de S.Paulo, um dos maiores jornais do país, despencou 23% desde a última eleição —, sendo privados dos recursos para cobrir adequadamente histórias em lugares como o interior de Minas, da Paraíba e do Mato Grosso, onde esta eleição provavelmente será decidida.

Nos Estados Unidos, o fracasso da classe política em antecipar uma vitória de Trump levou à introspecção e à autoflagelação nos dias e semanas após o 8 de novembro de 2016. Hillbilly Elegy (Era uma vez um sonho, na edição brasileira), um livro de memórias sobre famílias pobres em Kentucky e Ohio, tornou-se um best-seller número um — em grande parte graças a jornalistas e analistas que queriam entender melhor o país de Trump. Alguns veículos nacionais, incluindo o Washington Post e a agência Reuters, fizeram questão de se expandir no meio do país, apesar dos orçamentos apertados, para evitar serem pegos de surpresa novamente.

Um movimento semelhante pode chegar ao Brasil, independentemente de quem vencer em outubro. Até lá, é aconselhável identificar — e ouvir — vozes fora dos círculos principais. Elas podem ser de pessoas nos ônibus, na fila do supermercado ou em pequenas estações de rádio. Foram essas pessoas que, aqui nos EUA, viram a vitória de Trump chegando. Elas podem ser os melhores analistas políticos em 2018.

* Brasilianista e editor-chefe da revista Americas Quarterly