Este artigo é do Observatório Brasil Soberano
O problema de o Brasil ser eliminado na Copa é o dia seguinte. Acabou o úni co pretexto que o brasileiro tinha para esquecer, por noventa minutos, o peso de uma rotina que cobra caro demais. O futebol nunca foi só esporte por aqui; sempre foi o nosso maior anestésico social. Sem ele, a realidade bate à porta. E a realidade atual é uma conta que não fecha para o cidadão comum, blin dada por números oficiais que parecem feitos para maquiar a verdade. O ci dadão sai de casa com medo, enquanto o governo celebra que o país fechou o último ano com cerca de 34 mil homicídios, a menor taxa em mais de uma década. O dado pode ser real no papel, mas funciona como um arremedo cruel. Para quem vive na periferia ou em uma cidade média, o gráfico em queda livre não altera o toque de recolher informal ou o medo do assalto na próxima esquina. A estatística nacional dilui o país: ela soma bairros nobres blindados com quebradas abandonadas e extrai uma média confortável que serve apenas para o palanque. Essa mesma maquiagem esconde o buraco no bolso. A inflação acumulada chegou a 4,72% em maio, com o mercado projetando 5,30% para o ano. Para o trabalhador, esse número é uma ficção. A inflação real não é uma média pon derada que inclui passagens aéreas; é a inflação do feijão, do arroz, da carne, do gás e do aluguel. O índice oficial parece controlado porque é puxado para baixo por itens que a base da pirâmide não consome toda semana, mas o preço daquilo que mantém o corpo de pé sobe em um ritmo muito mais violento do que o salário. Celebrar o controle inflacionário enquanto o carrinho de super mercado volta cada vez mais vazio é usar a matemática para esconder a perda real de poder de compra. Lula se elegeu vendendo um horizonte de alívio e reconstrução, mas entre gou apenas promessas que passam longe do bolso de quem acorda cedo para trabalhar. Sem perspectiva real de subir na vida pelo trabalho, o brasi leiro passou a buscar o milagre nos cassinos digitais. Só nos primeiros cinco meses deste ano, as apostas renderam R$ 5,89 bilhões em impostos para a Receita — um salto de 86%. A equipe econômica exibe isso como vitória fiscal. Esse dinheiro não brota de novas indústrias, é fruto da drenagem da renda do trabalhador. Poderia ser chamado de taxa da ludopatia. O Estado lucra com o desespero, bate a meta fiscal e oculta o estrago na vida de quem arrisca tudo em busca de um milagre. Do outro lado, os grandes bancos continuam operando no melhor dos mun dos. Justificada por relatórios técnicos que dizem proteger a moeda, a taxa Selic segue travada no patamar absurdo de 14,25%. O resultado prático é o congelamento do crédito e o enriquecimento sem risco das instituições finan ceiras - lucro de R$ 255 bilhões em 2025, às custas do cidadão que vê o dinhei ro sumir antes do fim do mês. No fim, as estatísticas oficiais querem que o trabalhador sinta que a sua per cepção de escassez e medo não passa de um erro de interpretação, e não a realidade nua e crua. A derrota em campo dói porque rasga o único momento em que o país se abra çava pelo mesmo motivo. Sem ela, sobrou o gosto amargo da voltar para a rea lidade. Dizer que o brasileiro é resiliente virou desculpa para continuar exigindo dele o impossível. O torcedor não vai desistir da seleção, e o cidadão não vai parar de trabalhar amanhã. Mas o Brasil cansa. E essa eliminação é só o lembre te incômodo de que o brasileiro tem cada vez menos motivos para comemorar.
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